A Fundação Getulio Vargas (FGV) pretende implantar uma proibição de celulares nas salas de aula de todos os seus cursos neste ano. Até agora, o uso do aparelho sofria restrições pontuais, dependendo do professor ou da graduação. A FGV – uma das instituições de ensino superior mais conceituadas do País – tem três escolas, em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e a nova regra se aplicaria a todas elas.
Segundo o pró-reitor de Ensino, Pesquisa e Pós-graduação da FGV, Antonio Freitas, a proibição na instituição já deve começar neste semestre. Ele afirma que ainda terá reuniões com os diretores das escolas para formalizar a nova norma. Mas que já está convencido da importância da proibição dos celulares, inclusive na pós-graduação.
“Prejudica muito o aprendizado. É como se os alunos começassem a ler jornal durante a aula, claro que não prestam atenção”, disse Freitas ao Estadão. “Tudo bem que são adultos, mas será que não vão olhar o Whatsapp?”

Na semana passada, o Estadão revelou que o Insper passou a proibir este ano o uso de celular para seus alunos de graduação. A faculdade privada comunicou a decisão por e-mail aos estudantes na quinta-feira, 29.
A nota dizia que “fica proibido o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos em sala de aula, exceto quando seu uso estiver diretamente relacionado à aprendizagem ou à gestão da aula, conforme critérios definidos pelo(a) docente responsável pela disciplina.” A medida não atinge as aulas de pós-graduação.
FGV e Insper são duas das mais respeitadas escolas de negócios do País e a decisão de ambas pode influenciar outras instituições.
Segundo a FGV, a Escolas de Administração de Empresas de São Paulo (Eaesp) adotou a restrição de celulares há um ano apenas no curso de Administração Pública e para calouros de Administração de Empresas no semestre passado. A experiência, segundo a faculdade, tem sido positiva. Na capital paulista, a instituição oferece cursos ainda de Direito, Relações Internacionais e Economia.
No Rio há ainda graduação em Ciências de Dados e Inteligência Artificial, Comunicação Digital, Matemática Aplicada e Ciências Sociais. A FGV tem atualmente 5 mil alunos de graduação, mais de 3 mil de mestrado e doutorado e 100 mil em cursos de educação executiva e continuada.
Freitas diz que a instituição não pretende estabelecer punição para quem desrespeitar a nova norma e, sim, quer “transmitir aos alunos que é uma regra salutar e que vai beneficiá-los”.
Assim como os dirigentes do Insper, a FGV também sustenta que já há evidências suficientes do impacto negativo na aprendizagem com o uso dos celulares.
Celular proibido em escolas de educação básica
No ano passado, o Brasil aprovou uma lei federal que proíbe o uso de celulares em todas as escolas de educação básica. A norma exclui o ensino superior.
A maioria das pesquisas internacionais é focada no prejuízo do uso dos dispositivos na aprendizagem de crianças e adolescentes, mas um estudo realizado em 2024 por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia (EUA) e de Copenhague mostrou que a coleta obrigatória de celulares em sala de aula levou a notas mais altas também no ensino superior. A pesquisa foi realizada com cerca de 17 mil alunos de universidades na Índia e dividiu os jovens em dois grupos: os que continuavam tendo acesso ao aparelho e os que foram proibidos de usá-lo.
Depois da observação de notas e do comportamentos em sala de aula, os pesquisadores identificaram efeitos positivos da proibição do celular especialmente entre os alunos com baixo desempenho, calouros e estudantes de áreas não STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
A reclamação sobre a dificuldade em dar aulas por causa do uso excessivo dos smartphones pelos jovens se tornou frequente entre universidades no mundo todo.