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O Sistema Único de Saúde pode ganhar um novo programa para o rastreamento do câncer colorretal, que atinge o intestino grosso e o reto e vem crescendo em número de casos e óbitos.

Uma diretriz com as orientações para a testagem já foi elaborada por especialistas e recebeu parecer favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). 

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Nos próximos dias, a Comissão vai abrir uma consulta pública para receber contribuições da sociedade e depois disso decidirá, em caráter definitivo, se as novas medidas devem ser incorporadas ao SUS.

A decisão final caberá ao Ministério da Saúde, que aguarda o andamento do processo para se posicionar, mas todos os representantes da pasta que compõem a comissão foram favoráveis. 

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A diretriz preconiza que todas as pessoas entre 50 e 75 anos, sem fatores de risco, realizem teste imunoquímico, para a identificação de sangue oculto nas fezes, a cada dois anos. Em caso positivo, o paciente deve ser encaminhado a uma colonoscopia, para detectar qual a razão do sangramento, e receber o tratamento devido. 

As medidas valem para as pessoas em geral, que não têm sintomas nem outras doenças intestinais. O objetivo é diagnosticar lesões pré-cancerígenas e tratá-las antes que evoluam para o câncer, ou mesmo a doença já instalada, mas em estágio inicial, o que aumenta muito as chances de cura. 

De acordo com o epidemiologista do Instituto Nacional do Câncer (Inca) Arn Migowski, que compõe o grupo de trabalho, apesar desses exames já terem se mostrado eficazes para diminuir a mortalidade por câncer colorretal, a sua realização pela população em geral ainda é incipiente tanto na rede pública, quanto privada.

Ele complementa que a implementação de um programa de rastreio organizado pode ter ainda um benefício adicional.

“Ao contrário de doenças como o câncer de próstata ou de mama, que a gente faz o rastreamento, mas infelizmente só conseguimos detectar a doença no início, no caso do câncer colorretal, você pode detectar lesões pré-cancerosas. Ou seja, o objetivo principal é diminuir a mortalidade, mas a gente pode conseguir também diminui um pouco o número de novos casos”, explica. 

Migowski é um dos autores de um estudo recente que estimou um aumento de quase 3 vezes nas mortes por esse tipo de câncer até 2030. Uma das razões que explicam a grande mortalidade da doença, é o fato da maioria dos pacientes só descobrir a doença em estágios avançados, justamente o que o rastreamento organizado quer impedir. 

Apesar do texto inicial da diretriz já ter recebido parecer favorável, o grupo de trabalho continua discutindo a melhor maneira de implementar as medidas no sistema público brasileiro, o que deve ser feito de forma escalonada, ou seja, começando em alguns locais e expandindo progressivamente até chegar a todo o país.

De acordo com o especialista do Inca, isso é necessário para que o SUS consiga absorver a nova demanda, sem deixar de priorizar os pacientes com sintomas, que precisam ser atendidos com rapidez.  

“No modelo organizado você convoca ativamente a pessoa que está na faixa etária, e depois disso, ela precisa fazer o seguimento, receber o resultado do exame, ser encaminhada para a colonoscopia, se precisar, passar por atendimento especializado. E depois ela tem que ser reconvocada, quando chegar a vez de fazer o exame novamente. Todas essas questões têm que ser muito bem planejadas”, diz Migowski. 

Diagnóstico

A presidente da Associação de Gastroenterologia do Rio de Janeiro, Renata Fróes, também reforça a importância do rastreamento. 

“O câncer colorretal ou de intestino não costuma apresentar sintomas precoces, pode ocorrer sangramento, mas não costuma ser visível”, explica. É esse “sangue oculto” que o exame imunoquímico nas fezes identifica. 

Já durante a colonoscopia, o médico visualiza o interior do intestino, com o auxílio de um tubo flexível e uma câmera, e pode verificar se o paciente desenvolveu algum pólipo adenomatoso, tipo de lesão pré-cancerígena. 

“Os pólipos são protuberâncias, que se assemelham até a pequenos cogumelos e que podem ser retirados por uma pinça que a gente introduz dentro dos colonoscópios. A retirada deles impede a progressão para o câncer”, explica Renata.

Por isso, a médica recomenda a realização da colonoscopia por todas as pessoas, já a partir dos 45 anos. 

A gastroenterologista lembra que este mês é dedicado à campanha Março Azul, de conscientização sobre o câncer colorretal, e aponta sinais de alerta, que devem ser investigados com urgência, pois podem ser sintomas de câncer em estágio mais avançado:

“Além desse sangramento oculto, que pode dar uma anemia, fraqueza, cansaço, os outros sintomas são emagrecimento, dor abdominal e mudança do hábito intestinal. Pode ocorrer também fezes ‘em fitas’, mais estreitas, o que já significa algum grau de obstrução, porque o tumor cresceu e fica difícil para a comida passar pelo intestino”


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Nesta quarta-feira (19), circularam nas redes sociais vídeos que mostram o deputado estadual do Paraná Renato Freitas (PT) em uma briga de rua com um homem desconhecido. No vídeo, os dois trocam socos e chutes em uma via no centro de Curitiba (PR).

Em um vídeo publicado agora a noite, o parlamentar disse que reagiu após ter sofrido racismo.

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“O motivo foi o mesmo que me fez brigar na rua desde que eu era criança: racismo, humilhação, injúria, violência e agressão”, afirmou.

Nas imagens, Freitas e o outro rapaz, não identificado, aparecem desferindo golpes um no outro. O deputado dá dois chutes e, na sequência, recebe um soco no rosto, que quebra seu nariz. Um outro vídeo capta os dois atravessando a rua aos socos e indo parar na calçada do outro lado. Nesse momento, pessoas interferem e separam os dois. Não é possível identificar como a briga teve início. 

O deputado diz que o homem com quem brigou jogou o carro em cima dele.

“Eu estava com a minha amiga, também negra, atravessando a rua, e o cara tocou o carro em cima de nós”. Renato diz que não reagiu, mas o homem baixou o vidro e o xingou. “Ele saiu do carro e veio para brigar”.

Segundo o político, o rapaz foi atrás dele e de seu assessor já filmando.

“Ele estava filmando e eu não imaginava que ele iria partir para a agressão. E eu também não comecei, mas ele estava filmando e era justamente o que ele queria”.

Nas redes sociais, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, repudiou a agressão sofrida pelo deputado. Ele destacou que Renato Freitas é uma reconhecida liderança “na luta antirracista, por igualdade, democracia e direitos” e tem sido alvo frequente de racismo e violência política.

“O deputado tem sido alvo constante do fascismo porque defende suas ideias com coragem, sustenta o projeto de igualdade no estado e se mantém fiel à defesa dos programas que melhoram a vida do povo trabalhador. O que aconteceu é inadmissível e criminoso. Manifestamos nossa total solidariedade e apoio ao companheiro Renato Freitas. Não aceitaremos que o racismo tente calar vozes que nasceram da mobilização popular e que seguem lutando para transformar o país”, disse na mensagem. 

A carreira política de Freitas é marcada por perseguições desde quando era vereador, em Curitiba. Em 2020, ele foi condenado à prisão em regime aberto por um protesto na capital paranaense. Em 2022, teve seu mandato cassado pela Câmara Municipal por supostamente invadir uma igreja, o que Freitas nega. A cassação foi anulada pelo STF.

Até o final deste ano, o Brasil deverá criar um centro para o enfrentamento de emergências em saúde pública. A proposta é que o Centro Brasileiro de Emergências em Saúde Pública (Cbesp), como vem sendo chamado, seja uma instituição para tornar o país mais resiliente e preparado para enfrentar futuras epidemias, surtos e outras emergências sanitárias e até climáticas.

A ideia foi idealizada pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS) e vem sendo estudada há alguns anos por especialistas de diversas instituições do país, que pensaram em criar uma estrutura que respeite as normas do Regulamento Sanitário Internacional (RSI) e também seja integrada ao Sistema Único de Saúde e vinculada ao Ministério da Saúde. A governança deve ficar sob a responsabilidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Segundo a proposta, as verbas para o funcionamento do centro seriam provenientes do Orçamento Geral da União. Também está prevista a captação de recursos complementar por meio de convênios internacionais e geração de receitas próprias.

“A proposta prevê que o centro funcione em lógica de rede, trabalhando de forma estreita e colaborativa com o Ministério da Saúde, as secretarias estaduais e municipais, universidades e instituições de pesquisa”, explicou Gerson Penna, diretor-presidente do Instituto Todos pela Saúde (ITpS).

“Uma de suas grandes inovações será a intersetorialidade: ele promoverá a colaboração permanente entre diferentes setores do governo — como saúde, meio ambiente, agricultura, ciência, tecnologia e inovação —, além de garantir articulação com a sociedade civil”, completou.

Em entrevista à Agência Brasil, Penna ressaltou que o centro vem sendo planejado como uma política de Estado e não de governo, para não ser suscetível a intercorrências políticas, como ocorreu durante a pandemia de covid-19.

“Entendemos que uma estrutura permanente com foco em prevenção, preparação e resposta a emergências em saúde pública ajudará o Brasil a reagir mais prontamente às crises”, disse Penna.

Segundo ele, a pandemia de covid-19, que vitimou mais de 7 milhões de pessoas no mundo, sendo 10% dessas mortes no Brasil, expôs as vulnerabilidades do sistema de saúde do país.

“Apesar da imensa capacidade do SUS, sofremos com a falta de coordenação do governo federal, com uma comunicação inconsistente e com os ataques do negacionismo científico. O centro trará uma perspectiva nacional unificada, pactuada e baseada exclusivamente nas melhores evidências científicas, fornecendo uma liderança forte e confiável para que os mesmos erros não se repitam”, reforçou.

Uma das funções do centro será o monitoramento de riscos e estratégias de prevenção, controle e combate a futuras epidemias e pandemias, de modo que o país não reaja tardiamente às crises sanitárias. Ele também deve ficar responsável pela implementação da Política Nacional de Emergências de Saúde Pública (Pnesp).

“O centro trabalhará em um cenário global cada vez mais complexo, fortemente impactado pelas emergências climáticas, pelo desmatamento e pelos deslocamentos populacionais em larga escala. Apenas em 2024, por exemplo, o Brasil enfrentou simultaneamente a maior epidemia de dengue da história, surtos de mpox, oropouche e a ameaça iminente da gripe aviária, sem falar nas emergências climáticas e desastres. O centro existirá exatamente para atuar nesse espectro amplo de ameaças”, destacou Penna.

Agilidade

Com o novo centro, as respostas para situações de emergência poderão ser mais ágeis e articuladas, destacam seus idealizadores.

“O que nós temos hoje funciona e é feito com muita dedicação por milhares de trabalhadores, técnicos e profissionais, epidemiologistas, matemáticos, médicos e enfermeiros”, afirmou o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, que fez parte do grupo de especialistas que ajudou a propor a criação do centro.

“Mas a gente avalia que a estruturação de uma organização específica e que cuide disso em conjunto com estados e municípios, e com uma área de inteligência epidemiológica, possa dar uma solução muito mais ágil e muito mais adequada”, reforçou o ex-ministro..

Entre as vantagens desse centro, estariam a constituição de uma governança específica e de uma equipe técnica de alta qualidade, que seria permanente para atuar nessas emergências. 

“Nessa nova governança você teria a oportunidade de criar um corpo técnico especializado, cobrindo as várias áreas que envolvem a questão da detecção, do manejo, do enfrentamento, da comunicação e da avaliação, evidentemente sob o controle do Ministério da Saúde e em estreita colaboração com os estados e municípios. Acho que é um salto de qualidade que o Brasil vai dar, com certeza”, disse o ex-ministro. 

A expectativa do governo federal é que o centro seja criado ainda este ano, segundo a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Mariângela Simão.   

“Temos um projeto de lei em andamento para instituir uma política de estado para emergência de doença – e que não fique à mercê de um gestor que resolve não reconhecer o que é evidência científica e fazer políticas fora do que é recomendado internacionalmente”, explicou durante um curso oferecido a jornalistas pelo ITpS.

“Isso ainda está sendo discutido no âmbito da Fiocruz, em uma nova Fiocruz, que teria mais agilidade para gestão desse tipo de processo”, disse a secretária.

De acordo com Gerson Penna, o Ministério da Saúde ainda está decidindo como será encaminhada essa proposta de criação do centro. Enquanto isso não ocorre, ele defende que o Brasil ainda precisa discutir a Política Nacional de Emergências de Saúde Pública e atualizar o seu arcabouço legal.

“As leis que vigoraram durante a pandemia de covid-19 foram feitas especificamente para o período e se extinguiram junto com a suspensão do estado de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (Espii). Diante de um cenário global incerto, que inclui até mesmo riscos geopolíticos, o país necessita de respostas inovadoras e duradouras com urgência. Nossa expectativa é que a discussão caminhe neste ano e que o centro comece a ser implementado em 2027”, afirmou o diretor-presidente do ITpS.

O dia 2 de fevereiro, é quando os mares brasileiros se põem em festa para celebrar o Dia de Iemanjá, orixá conhecida como a “Rainha das águas, mares e oceanos” e cultuada por religiões de matriz africana como Candomblé e Umbanda. Na cidade do Rio de Janeiro, milhares de fiéis se organizam para celebrar uma das entidades religiosas mais conhecidas com cortejos, rituais e apresentações musicais.

Para abrir o dia, a Associação Recreativa Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro celebrou os 50 anos do Presente para Iemanjá, um dos eventos culturais mais tradicionais que reforça a ancestralidade negra fluminense. A programação começou às 7h, na região da Pequena África, Zona Portuária do Rio, com rituais de saudações aos orixás e café da manhã aberto ao público.


Rio de Janeiro (RJ), 02/02/2026 – O grupo Afoxé Filhos de Gandhi desfila no dia de Iemanjá pelas ruas da zona portuária do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Rio de Janeiro (RJ), 02/02/2026 – O grupo Afoxé Filhos de Gandhi desfila no dia de Iemanjá pelas ruas da zona portuária do Rio de Janeiro – Tomaz Silva/Agência Brasil

De lá, um cortejo seguiu até a praça Mauá, onde houve a saída da célebre embarcação que leva os fiéis vestidos de branco a entregar suas oferendas à entidade e desfrutar do restante da programação cultural. Até o fim do dia haverá apresentações de sambas e outras atividades.

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História

A tradição remonta ao pai de santo umbandista Tatá Tancredo, um dos maiores líderes espirituais da história do Rio, que em 1950 reuniu um grupo de religiosos vestidos de branco no evento Flores para Iemanjá, para entregar suas oferendas ao mar antes da meia-noite. O costume foi ganhando mais adeptos e se tornou prática popular que originou a festa de Reveillon na praia de Copacabana.
 
A chefe da Fundação Palmares, Sylvia Leandro, explica que os rituais reforçam a ancestralidade negra no Rio.

“É um enfrentamento que toda a comunidade negra tem feito. Aqui na Pequena África, a gente tem trabalhado também junto ao comitê do Cais do Valongo, para que a gente consiga permanecer aqui, permanecer nesses espaços e demonstrar que o negro ele construiu o Brasil também.”

Mas as comemorações não terminam por aí. Na praia do Arpoador, zona Sul da cidade, tem a quinta edição da Festa de Iemanjá do Arpoador, com rodas de ritmos e danças candomblecistas com o grupo Orin Dudu, no Largo Millôr. A concentração para o cortejo sagrado será a partir das 15h e a saída às 16h, na altura da estátua de Tom Jobim. 

Além das giras e entregas de oferendas, o público também terá acesso à feira gastronômica e 21 atrações artísticas e religiosas, com 300 artistas de grupos de jongo e samba.


Rio de Janeiro (RJ), 02/02/2026 – O grupo Afoxé Filhos de Gandhi desfila no dia de Iemanjá pelas ruas da zona portuária do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Dia de Iemanjá no centro do Rio, por Tomaz Silva/Agência Brasil

Oferendas

Sobre as oferendas do ritual, é recomendado ao público que todas sejam biodegradáveis e sem materiais plásticos, vidro ou madeira. Nas águas, somente flores e frutas serão oferecidas. No término da programação, tanto o público quanto a equipe da Pedra do Arpoador Conservação farão um mutirão de limpeza das praias e pedras.

Após anos de luta dos povos de terreiro, a importância dessa celebração foi reconhecida pela prefeitura do Rio, que a instituiu, em janeiro deste ano, como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade. 

No ano passado, a festa reuniu cerca de 25 mil pessoas. Este ano, a expectativa é de que cerca 30 mil pessoas participem da saudação à “Mãe cujo os filhos são peixes”.

* Sob supervisão de Fábio Cardoso.

 

4:15

Os povos indígenas da Amazônia estão em campanha para incluir a demarcação de terras como uma das metas da política climática do Brasil. Para isso, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), que representa 180 povos dos nove estados da região, está cumprindo uma agenda estratégica com foco na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em novembro deste ano, em Belém, no Pará. 

O objetivo principal é conquistar reconhecimento sobre o papel das populações tradicionais no enfrentamento às mudanças climáticas. Para isso, a proposta é que o Brasil estabeleça um número de terras indígenas a serem demarcadas até 2035, a ser incluído na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) — documento apresentado pelos países que fazem parte do Acordo de Paris e que estabelece como cada um deles contribuirá para reduzir as emissões de carbono. 

O país atualizou a NDC em novembro do ano passado e estabeleceu o compromisso de reduzir as emissões de 59% a 67% até 2035, mas ainda é possível incluir detalhes sobre qual será a estratégia para alcançar esse objetivo. Por isso, as organizações indígenas se mobilizam para incluir contribuições no documento. 

A Coiab já conquistou um espaço importante da COP30: será integrante do Círculo de Liderança Indígena. Esse grupo, anunciado em março pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago, será composto por representantes técnicos que poderão aconselhar os negociadores do país durante a conferência. A decisão segue um caminho semelhante ao da COP16 da Biodiversidade, que, no ano passado, aprovou a criação de um órgão consultivo para fomentar a importância dos territórios tradicionais nos debates. 

A Coiab ainda não definiu quais serão seus representantes no Círculo, mas é a partir dele que a organização pretende levar a proposta sobre a demarcação de terras. Também devem ser incluídos representantes do Caucus Indígena, fórum composto por indígenas de todo o mundo que discutem os temas da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).  

Por outro lado, o governo deixou de fora do Círculo de Liderança as comunidades quilombolas. A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) publicou uma carta denunciando a “invisibilidade climática”.  

“As comunidades afrodescendentes e quilombolas no Brasil têm enfrentado uma longa trajetória de exclusão e invisibilidade. Apesar de serem guardiãs de saberes ancestrais sobre a conservação ambiental, suas vozes raramente são ouvidas nos fóruns que discutem políticas públicas relacionadas ao meio ambiente”, afirmou a organização.  

Demarcar para reduzir emissões

Onde há terras indígenas demarcadas, há mais preservação da floresta, o que contribui para menos emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) na atmosfera. Esse é um dos argumentos dos povos indígenas para que seja criada uma meta de demarcação dos territórios na COP30. Desde o início deste governo Lula (PT), em 2023, foram homologadas: Fase do processo de demarcação em que há a publicação dos limites materializados e georreferenciados da área, através de Decreto Presidencial, passando a ser constituída como terra indígena. 13 terras indígenas no país. Outras 263 estão em discussão, de acordo com dados da Fundação Nacional dos Povos Indígenas

“Está comprovado que as terras indígenas são os territórios que menos desmataram e que conseguem aprisionar uma grande quantidade de carbono, impedindo sua liberação na atmosfera. Então, se as terras indígenas têm tudo isso a oferecer, por que não torná-las parte da política climática, uma política pública dos países?”, questiona Toya Manchineri, coordenador executivo da Coiab.  

Está comprovado que as terras indígenas são os territórios que menos desmataram e que conseguem aprisionar uma grande quantidade de carbono, impedindo sua liberação na atmosfera. Então, se as terras indígenas têm tudo isso a oferecer, por que não torná-las parte da política climática, uma política pública dos países?

Toya Manchineri, coordenador executivo da Coiab

A proposta também tem sido discutida em conjunto com outras oito organizações que fazem parte da bacia amazônica. Juntas, elas são chamadas de “G9 da Amazônia Indígena” e representam a Bolívia, a Colômbia, o Peru, o Equador, a Venezuela, a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa. O grupo está promovendo a campanha “A resposta somos nós” para inserir essa meta na agenda de seus países durante a COP30 em Belém.  

“Nossas economias são de baixo carbono, elas não geram impactos no meio ambiente. A gente tem convivido de forma muito respeitosa com o nosso meio ambiente. Se a gente tem um compromisso real com a demarcação dos territórios e o fortalecimento da política indígena no nosso país, sairemos da COP30 de fato com um legado”, afirma Alana Manchineri, coordenadora da agenda climática da Coiab.  

A campanha ocorre em um momento sensível para a política territorial indígena do Brasil. Desde 2023, deputados e senadores discutem o marco temporal, uma mudança no texto constitucional que garante aos povos indígenas o direito à terra tradicionalmente ocupada. A proposta em debate é que sejam garantidos apenas os territórios ocupados em 1988, quando a Constituição Federal foi promulgada.

A tese é alvo de ações no Superior Tribunal Federal (STF), que mantém uma Câmara de Conciliação para definir um novo texto. O movimento indígena se recusou a participar. No mês passado, a InfoAmazonia noticiou que o ministro Gilmar Mendes usou o espaço para propor a exploração de minerais estratégicos em terras indígenas, o que é proibido pela Constituição. Depois, ele recuou.

Insistências e compromissos

A campanha da Coiab para garantir a presença indígena na conferência do clima da ONU do Brasil, que deve reunir quase 200 chefes de Estado em Belém, começou ainda no ano passado, na COP29. Lá, a Coiab se manifestou solicitando uma copresidência para a COP30. Desde então, faz lobby para que cientistas indígenas estejam nas decisões como autoridades climáticas.  

Coiab e presidente da COP30, André Lago, após reunião em fevereiro deste ano. Foto: Divulgação/Coiab

Além da demarcação de terras, que é o principal ponto reivindicado, os indígenas também planejam atuar nas discussões sobre financiamento climático e transição energética. Eles pretendem contribuir com o Balanço Ético Global sobre o Clima, iniciativa do presidente Lula para estabelecer um documento de avaliação das ações climáticas dos países sob a ótica da sociedade civil. A ideia é complementar o Balanço Global do Acordo de Paris, apresentado na COP28, em 2023.

Povos planejam a ‘COP Indígena’

Para fazer parte dos centros das discussões da COP30, os indígenas precisam estar presentes na conferência em Belém. Faltando oito meses para o evento, as organizações preveem altos custos financeiros. Toya explica que, para conseguir cerca de 5 mil indígenas na cidade, o orçamento chega a R$ 3 milhões para hospedagem.  

Ter um espaço físico na cidade é uma necessidade para garantir a realização da “COP Indígena”, um evento paralelo à COP30, onde as organizações pretendem criar um local para debate e informar a todos, em tempo real, sobre as decisões dos governos. 

Coiab presente em reunião durante a Semana do Clima, em Nova Iorque. Foto: Isaka Hunikui/ Coiab

“Se nós conseguirmos 150 credenciais para a Amazônia, ficaremos muito felizes, porque a disputa por credenciais será intensa. Mas, mesmo assim, a tendência é que muitos parentes estejam em Belém. E aí, querendo ou não, precisamos ter uma estratégia para reunir essa grande quantidade de lideranças em um espaço”, explica Toya Manchineri.  

A campanha “A resposta somos nós” vai ser o tema central dos debates da COP Indígena. A organização também prepara uma pré-COP Indígena, que deve ocorrer na Conferência de Mudanças Climáticas de Bonn, uma reunião anual realizada em junho, na Alemanha, que funciona como preparação para a COP. 

“As negociações começam lá [em Bonn], e nós vamos tentar interferir para que nossos interesses sejam contemplados nos documentos oficiais, tanto do Brasil quanto dos países da bacia amazônica”, afirma Toya.  

Além das agendas propositivas, as organizações indígenas se preparam para reforçar seu posicionamento contra a exploração de combustíveis fósseis. O presidente Lula fez discursos em defesa da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, e o Brasil trata a questão como necessária para a transição energética do país.

Indígenas pedem o fim da exploração por petróleo nas terras indígenas da Amazônia. Foto: Tukumã Pataxó/Apib

Os povos indígenas, no entanto, são contrários. “Vai ser um debate em que não conseguiremos chegar a um denominador comum com o governo brasileiro. Para nós, não faz sentido. Não há como fortalecer os acordos climáticos e, ao mesmo tempo, leiloar poços de petróleo próximos a territórios indígenas”, afirma Alana Manchineri.  

Não há como fortalecer os acordos climáticos e, ao mesmo tempo, leiloar poços de petróleo próximos a territórios indígenas.

Alana Manchineri, coordenadora da agenda climática da Coiab

Formação de líderes

A Coiab possui um plano de ação que deve ser trabalhado até 2026, com temas e debates importantes para os povos indígenas. A “justiça e segurança climática” é um deles. Todas as organizações de base devem realizar o monitoramento territorial para entender o impacto dos eventos extremos, ameaças e invasões. A organização também espera participar de eventos internacionais e criar mecanismos de denúncia de projetos de carbono que estejam em desacordo com as comunidades.  

Para isso, eles estão investindo em formação intensiva. Desde fevereiro, 40 líderes indígenas se reúnem semanalmente para estudar e compartilhar saberes no Curso de Formação Estratégica para Lideranças Indígenas, presencialmente, em Manaus. Dividido em módulos, a formação inclui diversos assuntos sociais e políticos, como o sistema REDD+: Projetos que geram créditos de carbono por desmatamento e degradação evitados. Durante a elaboração, é traçada uma previsão de desmatamento e, após a implantação, a cada ano, a diferença entre o desmatamento previsto e o evitado se transforma em créditos. jurisdicional, mercado de carbono, governança e emergência climática.  

Todos estão desenvolvendo uma espécie de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em torno de um tema escolhido por eles próprios. O documento é preparado por cada aluno, que deve escrever um contexto da problemática escolhida, trazer argumentos, fatos e percepções pessoais. Depois, deve ser levado para as comunidades que os alunos representam e compartilhado com todos. 

Wendel Apurinã, do povo Apurinã, coordenador executivo da Organização da Juventude Indígena de Lábrea do Médio Rio Purus (OjilMRP), decidiu escrever sobre o impacto dos eventos climáticos na segurança alimentar dos povos do Médio Rio Purus, no Amazonas.

“Nossas aldeias já passam por esse processo de insegurança alimentar por conta do avanço do agronegócio, do desmatamento acelerado e dos incêndios. Além disso, também sofremos as consequências das mudanças climáticas. No ano passado, o Purus enfrentou a pior seca da história”, diz Wendel.  

As terras indígenas sofreram com uma seca histórica em 2024. Reportagem da InfoAmazonia mostrou que, em julho, 92% dos territórios estavam em seca, de acordo com dados do Índice Integrado de Seca (IIS), do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). 

“Ficou intrafegável para embarcações de médio porte. Este ano, a alagação parece que vai ser bem maior do que eu esperava. As plantações não prosperam, não progridem, os lagos secam, os igarapés secam. E aí, como fica a questão da alimentação?”, questiona Wendel.  

O povo Apurinã vive em quatro terras indígenas na região sul do estado do Amazonas: Caititu, Capicua, Torá e Paumari do Lago Marahã. Eles também vivem perto da Terra Indígena Mamoriá Grande, onde há um grupo de indígenas isolados. 

Wendel explica que os ataques deixam o território fragilizado e que os eventos extremos agravam ainda mais os problemas já existentes. “Com o desmatamento, as caças vão embora, e as queimadas expulsam nossos animais. Existe uma área dentro da Mamoriá Grande que nunca havia sido afetada, mas, por incrível que pareça, aquele pedaço de paraíso queimou por quilômetros e quilômetros”.  

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