Adolescentes envolvidos em estupro coletivo, morte de cachorro, lista misógina em escola, nazismo, racismo — e a sociedade estarrecida, repetindo: o que está acontecendo com os meninos? Eles estudam em escolas boas, dizem uns. São de famílias defensoras dos direitos humanos, lembram outros. E, dentro de casa, cada pai e cada mãe teme ser o próximo a ser chamado na escola.
O cenário é seríssimo e a resposta não é simples, mas a esperança pode ter aberto uma janela nesta semana com a entrada em vigor do chamado ECA Digital no País, lei que busca proteger crianças e adolescentes no ambiente digital. Nem tudo é culpa das redes sociais, mas muito da formação da masculinidade dos meninos hoje pode estar relacionada aos conteúdos online e aos algoritmos.
Carecemos ainda enormemente de exemplos no mundo real de homens dispostos a combater o machismo estrutural, que não enxerguem a igualdade de gênero como ofensa aos seus corpos fortes e viris. Crianças e adolescentes precisam ver um mundo melhor para as mulheres dentro de casa.
Quem levanta quando o bebê chora? Quem leva ao médico quando a criança está doente? Quem chora e mostra que adultos também são fracos e erram? Quem cuida, quem zela, quem acolhe? Quase sempre, a mãe. São mensagens que parecem sutis, mas que perpetuam a ideia equivocada de que o lugar do homem não é o de ser uma referência emocional saudável — isso nos lares em que os pais estão presentes.
E aí se somam a esse caldo as experiências que eles têm no mundo online, sem moderação, sem controle e com um apelo de vida boa, com sucesso rápido e dinheiro fácil. Pesquisa realizada pelo Instituto Papo de Homem, com apoio do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), mostra que 14% dos adolescentes brasileiros já consideram influenciadores digitais sua principal referência masculina.
Estudos feitos em países como Irlanda, Austrália, Estados Unidos e Brasil deixam claro que os meninos têm sido progressivamente expostos, até sem buscar por isso, a conteúdos misóginos, antifeministas e autoritários nas redes sociais.
Isso ocorre por causa de algoritmos que privilegiam e distribuem vídeos e posts com emoções extremas, combinados com o chamado “perfilamento”, que associa esportes e machismo. A partir das curtidas, comentários e tempo de permanência em cada vídeo, as plataformas constroem “personas” para as quais vão recomendar conteúdos que acreditam que lhes interessam.

Esses padrões associam meninos adolescentes a futebol — e futebol a conteúdos machistas ou homofóbicos. Portanto, se o menino gosta de vídeos de futebol, algo bem comum, ele começa a receber conteúdos da tal manosfera, como ficou conhecido o ambiente online em que discussões sobre masculinidade reforçam ideias de supremacia masculina, hostilidade e violência contra mulheres.
Recentemente, foram denunciados no País diversos perfis dessa manosfera que ensinavam a bater em mulheres que recusassem um pedido de namoro ou casamento. Seu mais famoso influenciador é Andrew Tate, ex-lutador de kickboxing, que faz saudações nazistas e afirma que as mulheres foram feitas para servir aos homens. A camiseta de um dos jovens presos no caso do estupro coletivo no Rio, com a inscrição regret nothing (não me arrependo de nada), é uma referência a Tate.
E onde entra o ECA Digital nisso tudo? Um dos artigos estabelece que as plataformas devem adotar medidas eficazes para impedir o acesso de crianças e adolescentes a conteúdos considerados impróprios, inadequados ou proibidos, o que quer dizer violência, assédio, pornografia, abuso sexual. Elas ainda precisam realizar avaliações — com publicação de relatórios periódicos — do conteúdo disponibilizado para crianças e adolescentes de acordo com a faixa etária.
É uma lei, e lei depende de fiscalização para funcionar no Brasil. O governo ainda estrutura o órgão responsável por isso. Mas também depende das famílias, que precisam garantir que seus filhos menores tenham contas com a idade correta nas redes sociais. Se entrar na rede social com perfil de adulto, nenhuma proteção do ECA Digital vai valer para ele.
Mesmo assim, pais e mães ainda precisam estar muito perto dos adolescentes, supervisionando sua experiência online por meio de ferramentas próprias para isso e também sentando ao lado para saber do que se trata, barrar, orientar.
A nova legislação pode limitar o que os meninos veem e isso é um grande avanço. Mas o que eles aprendem sobre ser homem depende tanto do que encontram nas telas quanto do que veem fora delas — e dentro de casa.