Costuma-se dizer que a adolescência é uma fase difícil e que, pior, tem ficado ainda mais complicada com as tecnologias e as incertezas da vida atual. Mas talvez isso seja uma forma confortável, e perigosa, de não enxergar o que está acontecendo.
Os dados divulgados recentemente pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), feita em 2024 pelo IBGE com meninos e meninas de 13 a 17 anos, mostram que o sofrimento emocional dos adolescentes brasileiros não é episódico, nem exagerado. Ele é frequente, persistente e, em muitos casos, silencioso.
Um dos dados mais inquietantes é que quase 2 em cada 10 acha que a vida não vale a pena. E 32% já sentiram vontade de se machucar de propósito; entre as meninas, são 43%. Com relação à última pesquisa, feita em 2019, menos adolescentes sentem hoje que seus pais entendem seus problemas (63%).
Enquanto isso, os estudantes relatam mais bullying, assédio e cyberbullying, insatisfação corporal e um aumento estrondoso no consumo de cigarros eletrônicos, de 76%. Atualmente, 30% dos que têm entre 13 e 17 anos já experimentaram os chamados vapes, cujo cheirinho doce esconde um risco grave e muito maior de dependência em nicotina, segundo a Organização Mundial de Saúde.

A pesquisa do IBGE tem uma força particular: ela é respondida diretamente pelos adolescentes, com anonimato. Ou seja, não é o que os adultos percebem. É o que eles próprios dizem e ainda respondem em celular, algo que os jovens costumam preferir.
Com esses resultados, os pais, professores (e a sociedade toda responsável por essa geração) vão continuar repetindo que eles são mesmo uns “aborrecentes”?
Extirpar de vez essa ideia e compreender o desenvolvimento nessa etapa da vida é o primeiro passo para tentar mudar esse quadro. No livro Cérebro Adolescente, Daniel J. Siegel explica que, nessa fase, o cérebro dos jovens é muito mais guiado pela busca de recompensa. Experiências novas e intensas liberam mais dopamina, e dão aquela sensação forte de estar “vivo”. O problema é que, fora disso, tudo pode parecer meio sem graça – por isso que eles parecem sempre entediados quando não estão com os amigos, por exemplo.
Isso ajuda a entender a propensão ao vício em redes sociais, álcool, cigarro e a impulsividade típica da adolescência. Muitas vezes, eles agem antes de pensar — especialmente em situações de risco — porque o prazer imediato fala mais alto. Mas depois do pico, vem a queda.
Siegel também fala de uma “hiper-racionalidade”: não é que falte lógica, mas o cérebro passa a dar muito mais peso ao que pode dar certo do que ao que pode dar errado. O risco parece valer a pena.
E ainda a mistura da necessidade de pertencimento e aceitação com a hiper exposição das redes sociais tende a ser bombástica. Ataca em cheio a saúde mental.
Um dos principais objetivos dos adultos responsáveis por eles é, primeiro, agir como adultos. Dar contorno e dizer “não” quando entendem que a situação ou o pedido são inapropriados ou possam levar a riscos reais. Cuidar para que a necessidade de “dar espaço” ou independência ao adolescente não se torne negligência.
Lembrar que ainda estão em desenvolvimento por mais que sejam garotões de 1,80m e meninas empoderadas. É preciso estar perto, mesmo quando eles dão toda a pista de não querer. Conversar até quando eles parecem não estar escutando.
Esse envolvimento cria, a cada dia, um ambiente em que se sentem enxergados e cuidados. Em que suas opiniões importam e que seus problemas são valorizados, mesmo que nem tudo aconteça do jeito que eles querem. São proteções contra a vulnerabilidade tão comum nesses tempos.
Claro que a fórmula não é simples, nem há receita que sirva para todas as famílias, mas a busca pelo vínculo tem que ser constante. Mesmo que as reações deles sejam só olhos virados ou respostas monossilábicas.