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Resorts e baladas temáticas: como são as viagens de formatura para adolescentes de 14 anos

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As famosas viagens de formatura deixaram de ser tema só do 3º ano do ensino médio. Pacotes para adolescentes de 14 anos, que terminam o fundamental 2 em escolas particulares, oferecem resorts all inclusive com mais de 10 piscinas, baladas temáticas, pulseira com chip de identificação e até área específica pra gravar vídeo do TikTok. O mercado para formandos do 9º ano cresce anualmente no País desde o fim da pandemia e acende alerta entre especialistas.

As viagens custam cerca de R$ 4 mil por aluno e são em hotéis exclusivos onde as agências levam entre 300 a 700 adolescentes do 9º ano, de várias lugares do País ao mesmo tempo. Muitas fazem acordos com as próprias escolas e empresas abordam estudantes até na porta dos colégios para oferecer serviços.

Apesar da promessa de maior autonomia e diversão, especialistas veem riscos decorrentes do comportamento de grupo, como pressão social, exclusão e outras tensões entre os adolescentes.

Nem sempre as viagens são acompanhadas por professores ou coordenadores que já conhecem os alunos. A maior parte dos adultos responsáveis são monitores das agências, que dizem trabalhar com a proporção de um para cada grupo de 10 adolescentes.

No fim do ano passado, algumas dessas viagens registraram problemas como abuso de álcool, bullying e a morte de um aluno no interior de São Paulo, que ainda é investigada pela polícia.

As empresas afirmam que as questões que ganharam repercussão são pontuais diante das milhares de viagens anuais e dizem que substâncias proibidas ou conflitos são raros (leia mais abaixo).

Trio elétrico em viagem de formatura
Trio elétrico em viagem de formatura

Os olhos dos adolescentes brilham diante das ofertas de pacotes de quatro dias em hotéis – com parque aquático, shows, micareta, campos de futebol, vôlei de praia, lounge para videogames e pool party (festa na piscina).

Tudo isso, longe dos pais, só com amigos e outras centenas de estudantes da mesma idade. Nas reuniões com as empresas, são apresentados vídeos com adolescentes animados, em brincadeiras com pó colorido ou vestidos com roupa de gala.

Bebida em pote de skincare

No fim do ano passado, houve um episódio de violência em uma viagem de formatura do 9º ano de alunos de um colégio de elite da zona oeste de São Paulo. Meninos envolvidos no caso foram transferidos de escola.

No interior paulista, um adolescente de 15 anos morreu depois de passar mal em outra viagem de formatura, em setembro de 2025. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, a investigação ainda não foi concluída e o caso é tratado como morte suspeita.

O Estadão apurou que uma aluna de outro colégio de elite, no fim do ano passado, teve de ir embora mais cedo da viagem de formatura porque os monitores descobriram que ela havia levado bebida alcoólica em um frasco de produto de skin care.

Adolescentes em festa com pó colorido em viagem de formatura
Adolescentes em festa com pó colorido em viagem de formatura

Como a menina guardou o pote no frigobar, os monitores desconfiaram e confirmaram que não se tratava de um creme. O pai teve de buscá-la apenas duas horas depois de ela desembarcar com o grupo no interior de São Paulo.

“A gente é muito insistente nas reuniões pré-viagem. (Se levarem) cigarro, vape (cigarro eletrônico), bebida, agressão física, verbal ou psicológica, volta pra casa”, diz o diretor do NR, Kito Vivolo. A empresa de 70 anos, conhecida pelos acampamentos, agora tem dois resorts em Sapucaí Mirim (MG) e Santo Antônio do Pinhal (SP) para viagens de formaturas de julho a dezembro.

Segundo ele, a NR tem aumentado seus alojamentos ano a ano para receber formandos. Em 2025, foram 33 mil adolescentes de 9º ano e a previsão para 2026 é de 38 mil.

Kito diz que a maioria das negociações é feita por intermédio dos colégios que já oferecem o pacote contratado para os pais e mandam seus professores junto com os alunos nas viagens. “Compreendemos o interesse de cada escola. Algumas não querem ter uma (escola) concorrente na mesma data para que o aluno dela não faça amizade e acabe querendo mudar. Outras querem integrar mais os próprios alunos”, conta.

Outra empresa líder do mercado, a Forma Turismo, também tem batido recordes anuais de passageiros do 9º ano. O número de estudantes hoje é 50% maior do que antes da pandemia; foram 25 mil alunos em 2025 em diversos resorts pelo País, com previsão de mais crescimento em 2026.

Com quase três décadas, a empresa começou com viagens para o 3º ano do médio, foi para o 9º ano e agora já oferece viagens para alunos que terminam o 5º ano, aos 10 anos.

“A ideia é não ficar parado nenhum momento”, diz o CEO da Forma, Renato Costa, sobre as atividades oferecidas aos adolescentes durante a viagem, que vão de campeonatos de futebol até um espaço chamado de Forma Creator, para os adolescentes fazerem vídeos para o TikTok.

Nas reuniões com pais e alunos, os funcionários vendem, ao mesmo tempo, segurança para os adultos – pulseiras de identificação com código de barras e alas separadas para quartos de meninos e meninas -, e balada para os jovens. “Evitamos funks pesados, mas é o que eles querem. Então tocamos versões com corte, sem a baixaria toda”, afirma Costa.

Show em festa de viagem de formatura no NR
Show em festa de viagem de formatura no NR

Pertencimento para uns, exclusão para outros

Para o psiquiatra da infância e da adolescência Gustavo Estanislau, as viagens podem trazer questões positivas como desenvolvimento de autonomia e habilidades sociais, construção da identidade que acontece quando está fora de casa e sensação de pertencimento a um grupo.

“Mas há adolescentes que ficam inseguros antes de ir, com insegurança sobre peso, sobre se será aceito pelos colegas de quarto”, diz. Ele chama a atenção também para a privação do sono, exposição ao sol e cansaço que podem deixar os estudantes irritados e fazer com que funcionem de maneira mais impulsiva.

“O adolescente tem pavor de exclusão social e enorme necessidade de pertencimento. O marketing das empresas vende felicidade coletiva, amigos, festas sem parar. Ele produz um desejo coletivo e a viagem parece indispensável”, diz a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Telma Vinha, especialista em conflitos no ambiente escolar.

Para ela, não há nenhuma garantia de proteção dos adolescentes. “Existe pressão para aderir ao clima dominante, agir como os outros”, afirma. “Em grupo, eles fazem o que não fariam individualmente, entram em situações sexuais, de bebida, querem provar coragem. Quando a escola não assume junto, não é uma experiência pedagógica confiável.”

O Estadão conversou com diretores de escola que não recomendam as grandes viagens de 9º ano e defendem apenas um evento organizado no colégio para a turma comemorar o fim do ciclo – eles pediram que seus nomes e instituições não fossem divulgados. Mas, mesmo nelas, os alunos formam comissões de formatura e convencem as famílias a comprar os pacotes.

Para alguns educadores, o que incomoda é a sensação de “catarse, esbórnia, uma ideia de querer se livrar da escola”. “Todos os grupos têm tensões, questões não resolvidas. Aí chegam a um espaço com centenas de adolescentes, sem adultos de referência. É uma mistura bombástica para conflitos, por melhores que sejam os monitores”, disse uma diretora.

Educadores também se preocupam com a dificuldade de as famílias pagarem os pacotes, em especial de alunos bolsistas das escola particulares. Muitas vezes, a viagem equivale a uma mensalidade extra por ano.

‘Resorts, piscinas, comida de hotel’

Resort onde acontecem algumas das viagens para adolescentes do 9 ano
Resort onde acontecem algumas das viagens para adolescentes do 9 ano

A designer Renata Neves está às voltas com a vontade do filho de 14 anos, que termina o fundamental 2 neste ano, de fazer uma grande viagem de formatura, mesmo sem ser oferecida pela escola. Ela se preocupa em não saber quem serão as centenas de adolescentes com quem o menino vai conviver nesse período.

“Também não tenho ideia de quem são os funcionários. Para mim, deveria ser algo pequeno, só com a turma deles, para fechar o ciclo. Essa viagem foge um pouco do propósito”, afirma. “Eles não têm maturidade e ficam encantados com o marketing que está sendo vendido.”

A estudante Amelie Mendes, de 14 anos, faz parte da comissão de formatura da escola onde estuda e disse que se surpreendeu com a grandiosidade dos pacotes. “Na minha visão, a ideia era se despedir de algumas pessoas porque muita gente sai da escola no fim do 9º ano, passar um tempo mais entre a gente”, afirma.

“Mas a programação que eles mostram é tentadora, com resort, piscinas, comida de hotel. Todo mundo gosta disso.” Ela conta que chegou a ser abordada na porta do colégio por agentes de uma empresa de viagens de formatura que pediram para que ela e as amigas distribuíssem panfletos de propaganda na sala de aula.

Para o proprietário da Cia Lazer, empresa que atua só com formaturas do 9º ano, a necessidade de maior convivência depois da pandemia é uma das razões da alta na procura. Eles levam cerca de 4 mil alunos por ano e fazem as viagens de colégios como Bandeirantes e Arquidiocesano.

“Há uma valorização maior, por parte das famílias, de experiências significativas na adolescência e fora do ambiente escolar”, diz Luiz Antonio Ferreira.

“Eles estão trocando a festa de uma única noite por experiências imersivas. É o desejo de sair do mundo digital para viver o real com os amigos”, completa Rafael Provenzano, CEO e sócio-fundador da UP Formaturas, que leva 7 mil estudantes por ano aos resorts. “O que fazemos é transformar um sonho coletivo em realidade. Não é um modelo pasteurizado porque a história de cada turma é única.”

O Colégio Anglo Morumbi é um dos que oferece esse tipo de viagem aos alunos. Diretora pedagógica da unidade, Priscila Gengo diz que os mais frequentes questionamentos dos pais são sobre quartos separados para meninas e meninos, segurança e uso de celular.

“Como na escola é proibido, não recomendamos levar e muitas vezes nem pega (o sinal) no local da viagem. Mas a escola não se responsabiliza se levarem”, conta. Para ela, a viagem de formatura é uma experiência coletiva importante para os adolescentes. “Eles têm experiências que não conseguimos desenvolver dentro da escola, acabam tendo uma postura mais autônoma.“

A farmacêutica Rebeca Leite de Almeida, de 44 anos, deixou o filho de 14 anos viajar sozinho pela primeira vez no fim de 2025, para a formatura. “Eles já ouvem dos alunos do ano anterior que foram aos resorts e já ficam animados para chegar a vez deles”, conta.

Ela pagou R$ 4 mil pelas três noites em um hotel em Atibaia (SP) e abriu mão da opção de receber fotos diárias do menino, que seriam cobradas à parte. “Achei que foi bom porque ele conquistou autonomia, veio com uma responsabilidade junto. Confiei na empresa, mas confio mais na educação que dei para o meu filho.”

Meninos jogam vôlei lei de praia em viagem de formatura
Meninos jogam vôlei lei de praia em viagem de formatura

Para pais que decidiram mandar os filhos, especialistas recomendam uma preparação:

  • conversar sobre limites de forma bem objetiva
  • conversar sobre horários para dormir, uso de álcool e substâncias
  • falar sobre o comportamento de grupo e discutir a pressão social para fazer coisas e ser aceito
  • refletir sobre que significa essa viagem, o fim de um ciclo escolar e o começo de outro; não apenas uma viagem de lazer para curtir com os amigos
  • orientar a procurar um adulto responsável se houver conflitos, brigas, mal-entendidos

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