“Mamãe, as duas pessoas que mais me inspiram são você e a Shakira.” (Julia, 8 anos)
Após alguns belos segundos contendo o riso, sem saber se me sentia lisonjeada ou confusa, resolvi aprofundar.
— Mas por que, Pipa, eu e a Shakira?
— Ah, mamãe… porque você é perfeita. E a Shakira é a Shakira.
Justíssimo.
Após achar graça na história, logo me peguei preocupada… como é de feitio de boa parte das mães. Será que a Julia vai mesmo querer ser cantora ou maquiadora quando crescer? O que será do futuro dessa menina? Como ela vai pagar seus boletos?
Daí rapidamente veio a voz da Márcia Sensitiva à minha cabeça, gritando: “Para de ser louca, mulher!”. Então parei.
E aí veio um déjà-vu.
Novembro de 1997. Sala de aula. Colégio Santo Américo.
Estávamos conversando com uma orientadora de carreiras quando ela propôs um exercício: falar o nome de uma pessoa cuja carreira admirávamos.
Quando a orientadora chamou meu nome, respondi: “Elba Ramalho”.
A classe inteira começou a rir.
Cuidadosa, a orientadora pediu que eu explicasse o porquê da minha escolha. Lembro até hoje do que falei:
“A Elba Ramalho é uma mulher já mais velha, e vejo que ela parece genuinamente feliz, confiante, fazendo o que ama e alegrando todas as pessoas que encontra.”
Apesar da minha escolha não ortodoxa (e altamente enviesada pela minha fase forrozeira), ainda hoje a considero um exemplo de mulher incrível.
E, refletindo sobre isso, percebo que minha filha admirar a Shakira não é coisa de criança. É coisa de quem já entende que passar a vida fazendo algo que ama e iluminando a vida de outras pessoas pelo caminho não é um norte profissional nada ruim.