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Os adolescentes deixaram de sonhar? Uma resposta para nos aproximar da geração dos nossos filhos

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A adolescência sempre foi um tempo de sonhos, a fase em que o cérebro aprende a imaginar possibilidades. É quando surgem as grandes perguntas sobre quem se quer ser, que profissão escolher, que causas defender, que mundo construir. A ciência mostra também que é um momento da explosão criativa, da experimentação e do pensamento abstrato, capaz de sonhar caminhos diferentes para os velhos e novos problemas.

Mas os dados de uma pesquisa feita pelo Lab Humanidades, unidade independente de inteligência da AlmapBBDO, em parceria com a Netflix Ads, mostram que mais da metade (54%) dos adolescentes hoje acha que é difícil fazer planos para o futuro. Não parece ser falta de ambição e, sim, uma certa dificuldade de projetar a vida em um ambiente que empurra permanentemente a atenção para o presente, para o imediato.

A premiada série Adolescência, feita pela Netflix em 2025 e que chocou pais e mães diante do crime cometido por um menino de 13 anos em meio aos conflitos da era digital, foi o incentivo para o início da pesquisa. No Brasil, o levantamento ouviu 2,8 mil pessoas, sendo 1,6 mil adolescentes e 1,2 mil adultos, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026.

A premiada série 'Adolescência', com Owen Cooper, foi o incentivo para a pesquisa
A premiada série ‘Adolescência’, com Owen Cooper, foi o incentivo para a pesquisa

A divulgação da pesquisa, este mês, inclui uma frase da filósofa Marilena Chaui sobre a transformação que todos estamos passando como sociedade: “não houve uma mudança tecnológica. Houve uma mutação civilizacional”. É uma ideia que ajuda compreender que o adolescente mudou porque passou a crescer em um ambiente completamente diferente daquele em que se formaram seus pais e professores.

Outros resultados dão pistas do que pensam os jovens. Quase 60% afirmam acreditar que hoje existem maneiras mais inteligentes de aprender do que a escola. Mais do que uma crítica à instituição escolar, esse dado revela que o colégio agora disputa a atenção dos estudantes e a legitimidade sobre quem ensina. Plataformas capazes de responder instantaneamente qualquer dúvida, discutir qualquer habilidade e oferecer um fluxo infinito de conteúdo personalizado passaram a ocupar um espaço que antes pertencia quase exclusivamente à escola.

E ainda 57% dos adolescentes afirmam já ter se sentido mais compreendidos por um criador de conteúdo do que por pessoas próximas. Enquanto isso, 68% dizem sentir que suas emoções não são levadas a sério pelos adultos.

Não significa que o influenciador conheça melhor esse adolescente, mas, sim, que ele fala a linguagem emocional que muitos adultos podem ter deixado de usar. Os algoritmos são especialistas em produzir sensação de intimidade, enquanto pais, mães e professores se distanciam nessa época da vida – e às vezes acabam produzindo só sermões e palestrinhas.

Mas as redes sociais não ajudam o adolescente a pensar quem deseja ser daqui a dez anos. Eles oferecem apenas o próximo vídeo, a próxima tendência, a próxima notificação. São especialistas em satisfazer no presente.

Os chatbots de inteligência artificial vão em caminho semelhante, como diz o professor brasileiro da Universidade de Columbia Paulo Blikstein, são treinados para dar eficiência e não para ensinar. A aprendizagem e os sonhos, ao contrário, exigem tempo, silêncio, reflexão e confiança de que vale a pena imaginar um futuro diferente.

A pesquisa, conduzida por Rita Almeida, conclui que os algoritmos se tornaram agentes formadores dessa geração — cujos diagnósticos de ansiedade e depressão crescem ao longo dos anos. No levantamento, 40% dizem que já pensaram em tirar a própria vida e 37% já tentaram se machucar propositadamente.

Não é possível atribuir esses problemas exclusivamente às redes sociais, mas é difícil ignorar que um ambiente que captura permanentemente a atenção também pode dificultar a construção de vínculos, projetos e perspectivas de futuro.

Mas há um alento. Um dado bonito, longe de ser piegas, é que 98% desses meninos e meninas afirmam que amam os pais. E mais da metade quer ter mais apoio deles para ajudar a pensar seu futuro. Ao contrário do que muitas vezes se imagina, os adolescentes não desistiram dos adultos.

Continuam procurando neles uma ajuda para construir seus projetos de vida. Quem sabe venha daí a resposta para se aproximar dessa geração: mais vínculo, mais escuta e menos julgamento.

A adolescência sempre foi a fase da vida em que cada geração chegava para desafiar o mundo existente e imaginar outro melhor. Um dos maiores prejuízos da economia da atenção não é somente apenas a distração, a falta de foco, mas o encolhimento do horizonte.

Se os adultos não se derem conta, essa etapa da vida corre o risco de se transformar no período em que os jovens gastam boa parte de sua energia apenas tentando acompanhar a velocidade das transformações. Em vez de mudar o mundo, o mundo está mudando — e os adolescentes estão correndo atrás.

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