A pouco mais de um mês do Enem, a corrida contra o relógio para dar conta de todos os conteúdos é uma realidade para grande parte dos estudantes. Entre livros e simulados, o candidato também precisa ficar atento a um documento importante: a Cartilha da Redação do Enem 2026, divulgada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Apesar das poucas mudanças em relação à edição anterior, especialistas afirmam que é fundamental que os candidatos conheçam o documento. Neste ano, uma atenção maior aos exemplos, que estão mais práticos e específicos, pode fazer diferença, afirma Milena Fiuza, diretora pedagógica do Sistema Positivo.
“A cartilha é rigorosamente igual à do ano passado, em conteúdo e estrutura. O que melhorou foram os exemplos. Ela traz exemplos do que fazer e do que não fazer, textos reais, palavras e frases que podem ser usadas ou evitadas, e mostra, principalmente, exemplos que ajudam a entender as cinco competências”, alerta Milena.

A redação é uma das partes mais importantes da prova e o temor de muitos candidatos. Não por acaso: ela vale até 1.000 pontos e possui um peso importante na composição da nota final. A correção é feita a partir de cinco competências, que avaliam aspectos como o domínio da norma-padrão, compreensão da proposta, capacidade de argumentação por meio de construção de repertório sociocultural e a elaboração de uma proposta de intervenção.
Banca mais atenta ao ‘repertório de bolso’
Durante a preparação para a prova, é comum que estudantes memorizem conteúdos estratégicos e referências socioculturais para aplicar na redação. Entretanto, neste ano, o cuidado com o “repertório de bolso” deve ser ainda maior.
Platão para falar de política. Uma lei para falar de direitos. Um sociólogo para falar de desigualdade. Uma frase de efeito para abrir a introdução. Todo esse repertório é pertinente e positivo para construção da redação do candidato, desde que contribua efetivamente para a argumentação. Caso contrário, serão descontados pontos pela banca corretora.
“Não é para ter medo de citar essas coisas, fazer referências, não precisa ter medo disso. A grande questão é forçar. É não ter a ver com o tema, não ter a ver com o contexto e querer usar de qualquer jeito”, explica a diretora pedagógica.
E isso vale inclusive para referências que não costumam aparecer nos modelos mais tradicionais de redação. Filmes, músicas, obras de arte e elementos da cultura popular podem e devem ser utilizados, desde que o material estabeleça uma relação precisa com o que está defendendo.
“É só trazer algo que tenha a ver com o tema. Pela cartilha, a banca vai estar muito mais atenta, vai ser muito mais rigorosa na correção e, inclusive, até mais intolerante para essas frases prontas”, completa.
Acessibilidade e inclusão
Além da versão geral, o Inep disponibilizou a cartilha para participantes com dislexia, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e para surdos ou pessoas com deficiência auditiva. O Enem oferece recursos de acessibilidade durante a aplicação das provas, como auxílio para leitura e transcrição e tempo adicional para participantes que têm esse direito.
No documento, além das orientações sobre os direitos dos participantes, há explicações sobre a avaliação consideradas no processo de correção. No caso de estudantes com dislexia, por exemplo, há orientações para diferenciar um erro ortográfico convencional de uma troca de letras ou palavras relacionada à condição.
“Substituições de letras, sílabas ou palavras visualmente semelhantes (m-n, i-j, v-u, p-b, p-d, p-q, b-d, b-q e q-g; Hipossegmentação (“em volta” em vez de “em volta”) e hipersegmentação (“pré conceito” em vez de “preconceito”)”, são alguns dos exemplos citados no manual exclusivo para candidatos com dislexia.
O mesmo raciocínio ocorre na avaliação de candidatos com TEA. Características como o hiperfoco podem fazer com que os estudantes enfatizem determinados trechos e se afastem momentaneamente do tema. Milena explica que, nesses casos, o corretor precisa considerar se esse movimento está relacionado à condição do candidato ou se ele simplesmente não conseguiu desenvolver o tema proposto.
Os corretores recebem treinamento específico para avaliar esses candidatos.
Pode falar de política e religião na redação?
Outro ponto que costuma alimentar a insegurança dos candidatos é a ideia de que determinados assuntos, como política e religião, são proibidos. Educadores defendem que eles não são, mas precisam ser abordados com consciência e cuidado na construção da redação.
Política e religião não são automaticamente incompatíveis com a redação. O próprio Enem aborda temas de ordem social, científica, cultural e política. Ou seja, o candidato pode recorrer a esses temas como parte da argumentação, desde que estabeleça uma relação clara com a proposta apresentada pela prova e respeite os direitos humanos, ressalta Silvia Maria Brandão, especialista em Soluções Educacionais na Arco Educação e doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Unesp.
“O candidato pode abordar qualquer aspecto que julgar necessário, mas que tenha articulação com o tema, ou pelo menos com o assunto. Se ele fala só de política, só de religião, e o tema não toca em nenhum desses aspectos, ele vai zerar a redação por fugir do tema”, explica Silvia.
O cuidado, segundo Silvia, também vale para outras temáticas. Ofensas, palavrões, xingamentos e incitação à violência levam à nota zero, independentemente do tema abordado. “O cuidado é realmente discutir esses aspectos, mas de uma forma obviamente respeitosa, respeitando a diversidade e aspectos da vida humana mesmo, de forma geral”, completa.
Como evitar a ‘fuga ao tema’
A proposta do Enem pode apresentar diferentes formas de interpretação do tema da redação, por isso é necessária uma leitura cuidadosa para evitar a fuga ao tema. O candidato também pode destrinchar o tema em pequenas partes para entender o que está sendo solicitado.
Milena explica que a estratégia começa antes mesmo do candidato escrever a primeira linha. “Quando eu estou nervoso na prova, tenho que parar, pensar, respirar e fazer uma repartição: o que eu sei mais do que tem aqui, o que eu não sei tanto e onde eu posso me dedicar mais. Não é porque eu não sei tudo com profundidade que eu vou ignorar o que está ali no tema. Eu tenho que cuidar para fazer essa conexão com um sentido.”
A cartilha do Inep aponta a fuga ao tema entre as situações que podem levar a redação à nota zero. Também estão nessa lista: apresentação de texto com até sete linhas, trechos deliberadamente desconectados do tema proposto, a desobediência à estrutura dissertativo-argumentativa, e o desrespeito à seriedade do exame.
Como ler a Cartilha?

A Cartilha da Redação deve ser lida por todos os candidatos, mas não deve ser lida da mesma forma por todos. Para quem ainda não conhece os critérios de correção, entender as cinco competências é o primeiro passo. Já quem está familiarizado com a estrutura da prova, pode aproveitar a reta final para analisar as redações comentadas no documento.
“Se o estudante não conhece nada, é muito importante que ele veja a parte dos critérios, que ele entenda como funciona a coesão e o que é a C1, a C2, a C3, a C4, e C5. Se é um estudante que já fez o Enem e já sabe do que se tratam as cinco competências, prioriza a parte da análise das redações. Ali há exemplos de boas redações, do ponto de vista de estrutura, do ponto de vista de repertório.”, explica Silvia Maria Brandão.
Em vez de passar pelas páginas apenas para saber “o que pode” e “o que não pode”, o candidato pode procurar no texto aquilo que costuma fazer ou deixar de fazer.
Atenção especial ao TRI na resolução da prova
Se a redação exige que o candidato saiba administrar o tempo, as questões objetivas trazem outra particularidade do Enem: a Teoria de Resposta ao Item (TRI). Diferentemente de uma simples soma de acertos das questões, a metodologia utilizada pelo Inep para calcular as proficiências das provas objetivas considera as respostas dadas aos itens e seus parâmetros estatísticos.
Ou seja, a TRI considera a combinação do padrão de respostas do participante com as características dos itens. Assim, duas pessoas podem ter a mesma quantidade de acertos e ainda obter notas diferentes, dependendo de quais questões acertaram e erraram.
A própria Milena resume a preocupação com a estratégia de forma direta: “Eu preciso conhecer um pouco da estrutura, especialmente porque eu preciso ficar me dedicando tanto aqui nessas questões que eu não sei? Não adianta eu acertar lá uma super difícil e errar um monte de fácil”, ressalta.
Isso não significa que exista uma fórmula para “enganar” a TRI. O ponto é administrar o tempo e evitar que uma questão muito difícil consuma minutos que poderiam ser usados em outras.
A lógica vale para o exame inteiro: conhecer a prova também faz parte da preparação.