Quando Chaim Zaher começou a construir seu negócio de educação no interior de São Paulo, o sonho de muitas famílias brasileiras era que os filhos passassem no vestibular de uma boa universidade. Mais de meio século depois, sua filha Thamila Zaher, de 38 anos, ajuda a conduzir o grupo para o novo sonho de consumo educacional: uma escola bilíngue, com formação internacional e capaz de preparar crianças para um mundo em que saber o conteúdo já não parece ser suficiente.
O grupo, que já foi dono do Centro de Educação Integrada (COC) e cresceu vendendo justamente conteúdo — material didático, sistemas de ensino e preparação para o vestibular —, agora aposta em escolas próprias, educação premium, e competências como social skills, autonomia e colaboração. Para marcar essa mudança, lança nesta quarta-feira, 30, o SEB Education, nova divisão do antigo grupo SEB, que era comandado por Chaim.
“O brasileiro tem essa vontade, esse desejo real de ser global. Ele tem vontade desse multiculturalismo, é do brasileiro. O Brasil quer estar sempre em contextos mundiais e já entendeu que excelência não tem nacionalidade”, diz Thamila, CEO do SEB Education, em entrevista ao Estadão. Segundo ela, o mercado de escolas premium cresce cerca de 10% ao ano e ainda há espaço para novos negócios.
O SEB Education já nasce com 505 escolas em 40 países, fruto principalmente da aquisição da Maple Bear, que teve 70% da sua operação global vendida para grupo em 2020. A franquia canadense se expande rapidamente com parceiros locais e chega a ter 50 escolas só em Cingapura – além de unidades no Vietnã, na Coréia do Sul, na Austrália, na Índia e na Ucrânia.

O grupo hoje inclui ainda Pueri Domus, Sphere, Play Pen, comprada este ano, e a Concept, considerada a mais premium das premium, que tem espaço privilegiado no Jardim Paulista, região central de São Paulo, com pista de skate, casa na árvore, currículo baseado em projetos e mensalidades que chegam a R$ 14 mil.
“Naquele momento, a performance acadêmica era uma forma de organizar o mercado privado, que era muito fragmentado, extremamente voltado para conteúdo”, conta Thamila, se referindo ao início do grupo, com o COC.
A partir de 2012, acredita, o movimento do bilinguismo começou a crescer no País, com novas empresas nacionais e internacionais no mercado brasileiro, escolas tradicionais incluindo uma segunda língua e uma diversidade enorme de propostas – as que têm mensalidades mais altas, que passam dos R$ 10 mil, ganharam o título de premium.
“Está mais difícil para os pais diferenciarem as escolas porque, muitas vezes, o mercado coloca tudo no mesmo pacote. Olhar para a mensalidade é insuficiente para contar a história de uma escola”, completa. “Mas escolher escola é difícil mesmo porque é um serviço complexo. A a aprendizagem, acontece todo dia. É a mesma coisa de você escolher um bom cirurgião, quem vai saber quais são esses atributos? São coisas que você vai ver daqui 10, 20 anos.”
Ao falar da Concept, que já tem unidades em São Paulo, Salvador e Ribeirão Preto e abrirá uma no Rio de Janeiro em 2028, Thamila afirma que o estudante hoje quer testar, experimentar. “A escola é um lugar seguro para ele fazer isso, mas que também possa produzir. Não adianta mais ser cuspe, giz e lousa. É insuficiente dizer que isso é um espaço de aprendizagem”, diz.

A intenção do grupo é chegar a 2030 com 160 mil alunos, mais que o dobro do que tem hoje, em 50 países. E, para ela, essa escola do futuro não significa necessariamente mais tecnologia ou menos mediação de professor e muito uso de inteligência artificial, como já há algumas experiências lá fora.
“Tecnologia é um meio, não um fim em si, e não poderá ser nunca. Essa educação contemporânea não quer dizer tecnologia. São várias camadas, mas ela está mais para uma capacidade de crítica, uma visão global, um rigor acadêmico no sentido de aprendizagem efetiva. Tecnologia é mais uma, como é também o esporte, são as artes.”
Thamila responde às críticas comuns de famílias a grandes grupos educacionais: do risco de um ensino massificado e pouco personalizado. “Cada escola é um lugar singular: tem o diretor, a docência, a construção, e o que a gente ganha como grupo são as sinergias, as trocas de boas práticas. Vivemos num ecossistema global. O educador também quer ter a referência dele para trocar, o educador também quer se formar com um par.”
Como dona de escola, ela diz concordar com outro problema comum a instituições bilíngues: encontrar professores bons em todas as matérias e que também sejam fluentes em inglês. Mas, diz, que difícil mesmo é ter muitos docentes que não queiram somente passar “um conteúdo pré-pronto e que entendam o mindset (a mentalidade) do estudante hoje”.
“Os alunos vêm mais provocativos, mais prontos para as questões. Só ir lá e cuspir um conteúdo é insuficiente para lidar com uma sala que quer aprender, questionar, que quer também protagonizar”, afirma.