
Recém-nomeada diretora-geral adjunta para Ciências da Unesco, ela é a primeira brasileira a ocupar uma vice diretoria geral da organização nos seus mais de 80 anos de história.
“Nem no sonho mais louco da minha vida imaginei que ia chegar a este posto.” Foi com essa frase que A Profa Denise Pires de Carvalho deu início à nossa conversa. Recém-nomeada diretora-geral adjunta para Ciências da Unesco, ela é a primeira brasileira a ocupar uma vice diretoria geral da organização nos seus mais de 80 anos de história.
O cargo demanda experiência em administração pública e diplomacia científica e o currículo dessa cientista ajuda a explicar a conquista. Formada em Medicina pela UFRJ, Denise é mestre em Biofísica, doutora em Ciências e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. Reitora da UFRJ entre 2019 e 2023, foi Secretária de Educação Superior do MEC entre 2023 e 2024. Atualmente, preside o Conselho Científico do Institut de Recherche pour le Développement (IRD), da França. Denise deixa a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para assumir sua nova função na Unesco.
Um posto abaixo do diretor geral, Khaled El-Enany, Denise Pires de Carvalho foi escolhida após um rigoroso processo seletivo internacional. “Tudo na Unesco é muito sério. Nós nos inscrevemos e o mundo todo concorre. A área de ciências foi super concorrida e a diretoria-geral de Ciências uniu os antigos setores de Ciências Naturais e de Ciências Sociais e Humanas.” Segundo Denise, essa fusão foi desenhada para tratar de forma integrada e transversal temas urgentes da sociedade, como a ética na inteligência artificial, bioética e as dimensões sociais da transição energética.
“A Unesco foi o primeiro organismo a emitir relatórios e recomendações sobre o uso da inteligência artificial e sobre a ciência aberta. Ela está à frente do seu tempo e eu fico muito orgulhosa de poder participar dessa história, dessa importante organização internacional.”
O século da cooperação e da interdisciplinaridade
Interdisciplinaridade é diálogo, troca, interação. “Este é o século em que a ciência precisa se aproximar mais e responder às demandas da sociedade. Não é mais o momento da ciência permanecer encastelada.” Para Denise, se a atuação acadêmica no passado foi forjada dentro de disciplinas isoladas, hoje ela precisa ser interdisciplinar.
“Um bom exemplo disso é a inteligência artificial: desenvolvida pela área de computação a partir da inteligência humana, ela tem enorme impacto nas ciências humanas e sociais”, afirma. Outro exemplo, segundo ela, é a bioética, que pertence ao campo das ciências humanas e sociais, mas tem como objeto os avanços das ciências naturais. É uma área que nasce das humanas e sociais para refletir sobre o que as naturais produzem.
Ciência é conhecimento
Denise afirma que a ciência não é uma religião nem um partido político. “Ciência é conhecimento. Não é questão de crença, é questão de confiança. O cientista usa o método científico para chegar às suas conclusões.”
“A ciência é uma construção, e por isso confiamos nela sempre atentos, perguntando se o que ela produz está sendo bom ou ruim para a humanidade. A inteligência artificial é uma ferramenta fabulosa, mas será boa ou ruim para a humanidade, no médio e no longo prazo? Precisamos entender qual é o ponto de não retorno. Tomando o meio ambiente como exemplo: quando a floresta do Congo, a Amazônica e a da Indonésia forem sendo derrubadas, que pandemias podem chegar?”
A Unesco no Brasil
A Unesco tem mais de 30 cátedras no Brasil e Denise diz que espera trabalhar com elas para fortalecer a atuação da organização no país.
Ela destaca a evolução da ciência brasileira. “O Brasil avançou muito”, afirma. Segundo a pesquisadora, até 2010, Rio de Janeiro e São Paulo concentravam grande parte do conhecimento produzido num país de vários biomas. Hoje, instituições como a Universidade Federal do Pará e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia também produzem conhecimento, há pós-graduação de excelência na região Norte, e a CAPES trabalha pela redução das assimetrias.
“É claro que é importante que as pesquisas continuem sendo realizadas por cientistas de instituições do Sudeste. Mas é fundamental termos também cientistas locais, que conheçam as demandas da região e façam perguntas ligadas à sociedade que vive lá”, diz.
Para ela, o papel da Unesco é parecido com o dos gestores no Brasil. “No MEC e na CAPES, trabalhamos para reduzir as iniquidades, as desigualdades, as assimetrias”, afirma. Denise lembra que a CAPES, instituição de Estado com 75 anos, é reconhecida no mundo todo e avalia 4,7 mil programas de pós-graduação a cada quatro anos.
A pesquisadora também ressalta a qualidade dos cientistas brasileiros. A Academia Brasileira de Ciências é presidida por Helena Nader, a primeira mulher a comandar a instituição em mais de um século de história, e há vários brasileiros entre os membros da Académie des Sciences, da França, e da Royal Society, do Reino Unido.
Science for the People
“Unesco for the people (Unesco para as pessoas) é o lema de Khaled El-Enany, Diretor Geral da organização. Eu tenho dito que espero levar para lá Science for the People (Ciência para as pessoas). Precisamos aproximar a ciência da sociedade, oferecer educação científica desde a infância, despertar nos jovens o interesse por uma ciência democrática, inclusiva e diversa, como é a humanidade”, afirma Denise.
Educação e soberania
Para ela, o debate sobre educação precisa ir além do diploma. “A educação é libertadora, mas o que liberta é a educação de qualidade”, defende. Pouco mais de 20% dos brasileiros acima de 25 anos têm graduação, enquanto a média dos países da OCDE é de 47% a 50%.
“A gente tem que avançar na educação profissional e tecnológica, desde o ensino médio, e valorizar a graduação. A evasão não vai fazer o país se desenvolver. Ele vai permanecer com a lógica de colônia de exploração, porque não forma os seus jovens. Segue sendo explorado.”
Soberania, diz, tem exemplos concretos. “Soberania é não dependermos de outros, sermos verdadeiramente independentes. Como quando fomos capazes de fazer o teste de Covid nas nossas universidades sem depender de importação, ou de desenvolver o nosso próprio ventilador para salvar pacientes. Isso é soberania.”
O trabalho na Unesco
À frente de cerca de 800 profissionais, 300 em Paris e 500 espalhados pelo mundo, Denise promete trabalhar “com base naquilo que é importante para a humanidade, que é o multilateralismo”. E resume: “A ciência precisa atuar.”
“Eu sempre digo que a ciência não tem pátria, quem tem pátria é o cientista. E os cientistas brasileiros são muito bons.”
Denise embarca hoje para a França, rumo ao novo desafio. Desejo a ela muito sucesso. Orgulho de sua presença em um quadro internacional tão relevante, nós já temos!
Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais.
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