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Deputada Eduarda Campopiano retoma debate de doutrinação na escola. É disso que a educação precisa?

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Não há país que tenha construído um sistema educacional de alta qualidade sem valorizar o professor. Parece óbvio e talvez nem precisasse de dados para explicar, mas é sempre bom lembrar.

Cingapura se tornou uma das principais potências educacionais depois que aumentou salário, intensificou a formação sobre práticas de ensino e passou a selecionar os melhores alunos para serem professores. A Finlândia, também exemplo de educação de qualidade, é um dos países onde os docentes se sentem mais valorizados pela sociedade, segundo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Áustria, Holanda e Dinamarca têm os professores mais satisfeitos com o trabalho.

O Brasil? Claro, está lá embaixo nos rankings: professores se sentem desvalorizados e insatisfeitos. Falta não só salário para que não precisem trabalhar em três escolas ao mesmo tempo, mas também ferramentas e formação para enfrentar salas de aula que competem diariamente com a proliferação de informações e mecanismos viciantes das redes sociais, com alunos desatentos, indisciplinados ou com a saúde mental abalada.

Assim como não está fácil ser pai ou mãe diante dessa transformação civilizacional que o novo ambiente digital nos impõe, obviamente também não está nada fácil ser professor.

Mas a deputada mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo, Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, acha interessante fazer ataques na primeira entrevista ao Estadão, depois de eleita.

“A gente vê pessoas tão jovens percebendo: ‘Vou dar valor para o que meu pai está falando pra mim, que cuida de mim todos os dias, ao invés de dar valor para o que um professor comunista, sem vergonha, está tentando colocar dentro da minha cabeça na escola, que não é lugar de ele falar de política’”, disse ela, sobre por que a esquerda não tem conseguido formar um quadro de jovens na mesma proporção que a direita na política.

Eduarda Campopiano foi a deputada mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo.
Eduarda Campopiano foi a deputada mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo.

A parlamentar traz de volta o discurso bolsonarista e de movimentos que já pareciam enterrados, como o Escola sem Partido, que bradam que os professores querem “doutrinar” seus alunos. Uma tese que também prega uma escola pretensamente “neutra”. É óbvio que nenhum educador sério defende política partidária em sala de aula, indicação de candidatos, pressão para votos, mas educar para formar cidadãos autônomos, criativos e que tenham pensamento crítico, ainda mais nos dias de hoje, é complexo.

Há comportamentos discutíveis nas salas de aula, dos dois lados, mas não dá para simplesmente tomar por doutrinação o estímulo à reflexão ou a introdução de temas como geopolítica, educação sexual e história afro-brasileira – que costumam ser alvos do grupo da deputada.

A turma à qual ela se alinha também gosta de dizer que a escola é “só para dar conteúdo”, o que parece até risível em um mundo em que o conteúdo está a um clique de distância. A própria OCDE alertou este ano ao divulgar o pior resultado da história em provas feitas por alunos de 15 anos no mundo todo, o Pisa. A aprendizagem em Leitura caiu em três quartos dos sistemas educacionais. E quem ficou para trás não foram só os estudantes pobres, e sim os de famílias ricas, de países ricos.

“O futuro não pertence apenas àqueles que conseguem acessar informações, mas àqueles que podem interpretá-las, conectá-las e atribuir significado a elas”, alertou o diretor do Pisa, Andreas Schleicher. A avaliação mostrou mais dificuldade dos alunos em manter a atenção e o esforço por períodos prolongados, mais respostas precipitadas e menor curiosidade, perseverança e disposição para se dedicar à prova.

Disse ainda que “em um mundo cada vez mais inundado de informações, nossos estudantes estão menos propensos a pensar profundamente e a separar o que é relevante do que é ruído.” E completou: “passar rapidamente pelos feeds das redes sociais e processar informações em alta velocidade podem estar comprometendo a capacidade dos estudantes de lidar com textos e dados complexos”.

Em vez de defender formação dos profissionais que lidam com os nossos jovens para enfrentar esse problema mundial, para que as gerações futuras tenham capacidade de fazer julgamentos éticos, resolver problemas, serem criativos e refletir para desenvolver a sociedade, Eduarda insufla o desrespeito a uma categoria essencial para que a gente possa sonhar um dia em ser um País desenvolvido.

Mais um dado: estudo de pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostrou que o professor é responsável por quase 60% do resultado dos alunos na educação fundamental. Ele é mais relevante para a aprendizagem que todas as outras variáveis da escola pública somadas, como número de alunos por turma, escolaridade dos pais, se há ou não internet e até o partido do prefeito.

Claro que o pai, a mãe, a família também são essenciais na educação. Mas não é à toa que se diz que é preciso uma aldeia para educar uma criança.

Atacar a escola e os professores, já vimos esse filme, não melhora a educação nem desenvolve um País. Em tempos tão difíceis para ensinar crianças e adolescentes, para fazê-los manter a atenção e pensar criticamente, a deputada eleita quer reviver uma batalha antiga e sem sentido, quando o desafio agora é formar os alunos para um mundo que ainda está sendo inventado.

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