Alerta: a reportagem abaixo trata de temas sensíveis. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
O influenciador Felca publicou, nesta madrugada, 20, um vídeo revelando ter fobia social, também conhecida como Transtorno de Ansiedade Social (TAS). No vídeo, o youtuber fez um relato da trajetória escolar, relacionando a fobia social aos episódios de bullying vividos na infância e adolescência na escola.
Segundo o influenciador, os traumas começaram ainda na escola. Ele disse ter sofrido agressões físicas recorrentes entre os 12 e os 18 anos. Entre os episódios narrados estão um espancamento por colegas no banheiro da escola, humilhações públicas, exclusão social e situações que, segundo ele, contribuíram para o desenvolvimento da fobia social que carrega até hoje.
“Quando eu tinha 12 anos, comecei a sofrer bullying. No início eram palavrões, depois se tornaram agressões físicas. Um dia, eu estava no banheiro e cinco meninos maiores e mais fortes do que eu me bateram. Não me bateram até eu cansar. Me bateram até eles cansarem. Nesse dia, quando deu o sinal do intervalo, acabou a farra. Eles foram para as salas e eu fiquei. Eu não tinha condições. Eu me tranquei na cabine e chorei”, relatou.

Felca trouxe à tona um problema que é recorrente no ambiente escolar, como mostrou levantamento divulgado neste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). O estudo mostra que quatro em cada dez estudantes brasileiros de 13 a 17 anos afirmam já ter sido alvos de bullying, e 27,2% dos alunos nessa faixa etária já sofreram alguma forma de humilhação duas ou mais vezes.
O bullying apresenta cinco características principais:
- atos repetidos contra um ou mais constantes alvos (3 vezes ou mais na semana);
- ocorre entre pares (quando é entre professor-aluno é assédio moral);
- há intenção do(s) autor(es) em ferir;
- há um alvo fácil, mais frágil;
- há público que prestigia agressões (o bullying é escondido dos adultos, mas nunca dos pares)
Os ataques verbais acontecem em forma de piadas, insultos e xingamentos, que podem evoluir para agressões físicas. Já a agressão exercida na internet ocorre com a ajuda das redes sociais que, muitas vezes, impulsionam a difamação e as ofensas.
Sinais de alerta: o que as famílias devem observar
Quando a criança ou adolescente é vítima de bullying, há sinais importantes que os pais ou responsáveis devem ficar atentos:
- 1. Mudanças bruscas de comportamento (isolamento, agressividade, apatia);
- 2. Recusa em ir à escola ou queda repentina no desempenho escolar;
- 3. Queixas frequentes de dores físicas sem causa aparente;
- 4. Objetos escolares perdidos ou danificados com frequência;
- 5. Uso excessivo ou evasivo das redes sociais.
Se algum desses sinais for identificado, o diálogo aberto, o acolhimento e a busca por apoio especializado são os primeiros passos.
Para especialistas ouvidos pelo Estadão, também é preciso investir em prevenção nas escolas e não agir somente após a agressão.
Ações para prevenção do bullying sugeridas por especialistas nas escolas:
- Equipes de ajuda: alunos escolhidos pelos próprios colegas formados para identificar problemas, acolher e cuidar dos próprios alunos. Elas são uma forma de protagonismo.
- Organização de assembleias ou rodas de diálogo: alunos apontam dificuldades da convivência, refletem, discutem e pensam em soluções para seus problemas.
- Mediação de conflitos e uso de linguagem descritiva: professores formados para não intervir com violência, gritos, castigos e, sim, com a intenção de reparar o erro e aprendizagem por meio dos problemas.
- Preocupação compartilhada: metodologia para intervir em casos de bullying, com escuta ativa da vítima e do agressor. Depois, os envolvidos assumem compromisso coletivo de cuidado e reparação
Felca também anunciou que pretende realizar palestras gratuitas em escolas públicas e privadas para falar sobre os impactos do bullying e ajudar a conscientizar estudantes sobre os efeitos desse tipo de violência.
Em 2024, o País aprovou uma lei que torna bullying um crime, com multa para quem praticá-lo. O cyberbullying foi incluído na legislação, com pena de dois a quatro anos de prisão. Até então, o Brasil tinha uma outra lei, de 2015, que apenas definia o bullying e exigia prevenção pelas escolas, mas sem prever punições.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.
Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.