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‘A greve não é da maioria dos estudantes’, diz reitor da USP, que vê paralisação perto do fim

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O reitor da Universidade de São Paulo (USP), Aluisio Segurado, acredita que a greve de estudantes que já dura mais de um mês na maior instituição de ensino do País termina nos próximos dias – por desmobilização dos grevistas e porque muitas das reivindicações já foram atendidas, na sua opinião. Em entrevista ao Estadão, ele diz que nunca se recusou a negociar e que ficou triste ao ver as imagens da ação da polícia que retirou com cacetetes os estudantes que ocupavam o prédio da reitoria no início do mês. Mas considera que o movimento dos alunos também agiu com violência.

Para ele, a greve tem “um componente político forte” com o objetivo de atingir o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) em ano eleitoral. “O reitor Aluísio foi tachado como servil ao governador. E não sou, eu tenho as minhas convicções próprias. Eu sirvo à Universidade de São Paulo, estou aqui há 51 anos”, afirmou.

Depois de reclamar do movimento e dizer que “estudante tinha que estudar”, Tarcísio afirmou na semana passada que as reivindicações por melhorias no programa de permanência para alunos vulneráveis eram justas e que a greve era problema da reitoria da USP.

Durante a entrevista ao Estadão, Segurado afirmou que há “um mito muito veiculado nas redes sociais de que o reitor não dialoga”. Ele rebate, enumerando os pedidos dos estudantes que foram atendidos.

Fala do reajuste do auxílio estudantil para R$ 912, melhoria nos transportes, criação de grupos de trabalho para reforma das moradias, cozinha industrial para bandejão e uma nova possibilidade de bolsa para estudantes do 1º ano que pode ser somada ao auxílio e totalizar R$ 1.600 mensais. “São coisas que talvez a gente não conseguisse terminar na minha gestão. A gente puxou o turbo e acelerou”, brinca. “Entendemos que o que poderíamos fazer neste momento já foi feito.”

“Certamente, a greve não é da maioria dos estudantes. Há um forte assédio que hostiliza os estudantes que possam ter uma opinião divergente do grupo que tomou para si a liderança do movimento”, continua o reitor. Atualmente, segundo ele, há 19 unidades com alguma paralisação e outras 24 já voltaram. Nos últimos dias, alunos de faculdades como Direito, Escola Politécnica e Medicina encerraram a greve, o que faz com que Segurado acredite que outros seguirão o mesmo caminho.

Segundo o reitor, os calendários de reposição serão diferentes em cada unidade, de acordo com o tempo de greve, mas as aulas na USP se estenderão no período de férias de julho. “Vai haver prejuízo, é impossível repor todas as atividades. O reitor não pode obrigar o professor a dar aulas se ele esteve lá na sala durante todo esse tempo e os estudantes não vieram.”

Depois de um mês e meio, estudantes em algumas unidades, como Direito e Medicina, resolveram terminar a greve. Como o senhor vê esse movimento da paralisação?

O reitor negociou em múltiplas ocasiões e identificamos demandas de três naturezas que eram pertinentes e podiam ser equacionadas a curto prazo. Outras, também pertinentes, que exigiam análises orçamentárias, jurídicas, acadêmicas. Por exemplo, o transporte. Havia uma demanda da Medicina e do Direito para aquele passe de ônibus gratuito que sai da Estação Butantã e vem para o campus. Ele não atendia as necessidades de alunos que tinham que se deslocar do centro ou de Pinheiros para a USP. Então, construímos uma proposta que está em discussão com a SPTrans para incluir linhas que fazem esse trajeto e agora, na renovação dos contratos no começo do semestre, já incluirão a possibilidade de darem esse passe gratuito para os alunos. Nós constituímos também oito grupos de trabalho que vão cuidar de restaurantes da capital, restaurantes do interior, espaços estudantis e melhorias na moradia estudantil.

O senhor está falando usando o verbo do passado. Isso é porque a negociação já acabou ou porque o senhor acha que a greve já está acabando?

Eu acho que a greve está acabando. Sinceramente, sinto que ela está perdendo força, a capacidade de mobilização. Ela vai perdendo robustez à medida que um conjunto maior de estudantes se manifesta de que é hora de voltar. Eu fiquei muito surpreendido com o dado de que a participação dos estudantes para escolher os seus representantes nos colegiados centrais não foi superior a 6%. Houve anos em que os representantes discentes foram eleitos por 2% ou 3% do conjunto dos estudantes. Isso me mostra que está havendo uma certa apatia do conjunto de estudantes na valorização e na utilização de espaços institucionais muito relevantes.

O senhor está querendo dizer que a greve não foi feita pela maioria dos estudantes da USP?

Certamente a greve não é da maioria dos estudantes. O desejo de um apoio à permanência, dado o reconhecimento da importância da diversidade, da necessidade de uma boa alimentação, de uma moradia digna na universidade, eu entendo que é um anseio dos nossos 90 mil alunos. Eu vou dar um exemplo: a Escola Politécnica tem 5 mil alunos de graduação. Em nenhuma das assembleias estudantis, houve mais do que 200 votos. Então, temos que pensar em um diálogo com os estudantes para mostrar a eles a importância dessas representações. Durante semanas da greve, ou greve entre aspas, da Escola Politécnica, as aulas estavam acontecendo normalmente. O que estava acontecendo era uma greve declarada, mas não uma greve de fato. As lideranças do movimento traziam estudantes de outras unidades, com batuques, entraram nas salas de aula para tirar os alunos. Eu não sei quantos professores deixaram de comparecer porque os alunos em algumas unidades não estavam indo. Agora que os alunos estão voltando é que eu vou poder avaliar se tem professores paralisados.

Os estudantes em greve têm reclamado muito que o senhor teve dificuldade em negociar, encerrou as negociações.

Há um mito muito veiculado nas redes sociais, que os estudantes manejam com muita competência, de que o reitor não dialoga, o reitor não conversa. Eu sou conhecido na minha trajetória por ser um homem da conciliação, da serenidade. Nós fizemos desde o primeiro dia de paralisação múltiplas reuniões, somando 20 horas, e ainda mantive o tempo todo um diálogo muito próximo com os dirigentes, diretores e diretoras das unidades. O reitor sempre dialogou, mas ele, na verdade, num dado momento, entendeu que o diálogo com um grupo ultra minoritário de estudantes, que tomou para si a condução desse movimento, tinha se encerrado porque não havia vontade explícita de negociação.

Como assim?

O auxílio permanência foi uma demanda central, desde o início. O valor é concedido pela universidade para estudantes de baixa renda, foi instituído em 2022. Desde então, vem sofrendo reajustes de valores. Em uma reunião de negociação, um aluno da FEA falou que, apesar disso, se nós voltarmos a 2022 e compararmos o valor que vai ser dado agora, houve perda do poder de compra. Porque se aplicarmos o IPC da Fipe…veja bem, nós formamos bem os alunos… Aí eu falei: “Você tem os números?” Ele deu os números. Nós fizemos uma interrupção da reunião, discutimos com nossa área financeira e voltamos para a mesa de negociação dizendo: “Olha, nós vamos aceitar esse valor que você está apresentando, fazer uma correção baseada na avaliação do IPC”. Aí foi para R$ 912. Na hora que nós oferecemos o R$ 912, eu acho que os alunos se surpreenderam e imediatamente mudaram a reivindicação para um salário mínimo paulista. Nós falamos: “Essa é a nossa proposta final do auxílio, atendendo à solicitação dos estudantes. Não há mais negociação em relação a isso”. Então, eles falaram que o reitor encerrou as negociações e isso foi até utilizado como justificativa para a invasão do prédio da reitoria que aconteceu alguns dias depois.

A entrada da polícia para retirar os estudantes da reitoria foi um pedido do senhor?

Não. Veja, nós pedimos à Secretaria da Segurança Pública garantir o livre acesso das pessoas no prédio, porque foi violado um direito constitucional de ir e vir. Nós não queríamos que aquele movimento de invasão inviabilizasse todo o trabalho das pessoas ali e propiciassem danos ao patrimônio público, que seria nossa responsabilidade zelar. Então, assim que houve a invasão, a Secretaria da Segurança foi comunicada. Quem viu as imagens da invasão não teve dúvida alguma de que havia violência e de que havia dano ao patrimônio público, que poderia ter sido maior, não fosse a contenção da ação da polícia. A ação de desocupação se deu por iniciativa da secretaria. Eu tomei conhecimento de que aquela ação havia acontecido na madrugada daquele sábado para o domingo, depois que ela já tinha acontecido.

Em muitas greves da USP ao longo dos anos houve ocupações da reitoria e os alunos ficaram muito tempo acampados sem que a polícia entrasse. Há um questionamento grande sobre uma ação policial dentro do campus.

Na verdade, a entrada da polícia era de nosso conhecimento. O que eu estou dizendo que não tomei conhecimento foi no momento da iniciativa de desocupação. Veja, a recuperação da possibilidade do direito de ir e vir, ele pressupõe desocupação, não é? Enquanto esses estudantes estão lá, ninguém pode entrar no prédio. Então, para que a reitoria voltasse a funcionar nas suas instalações, era necessário que o prédio fosse desocupado. Foi exatamente isso que aconteceu.

O senhor viu as imagens? Achou que houve excesso dos policiais?

Eu fiquei triste com aquelas imagens. Mas, imediatamente, foi dito que haveria dezenas de feridos. Eu não vi essas dezenas de feridos, não chegaram ao hospital universitário. É difícil, eu não posso julgar a ação. Eu fiquei triste. Agora, eu vi também imagens divulgadas pela Secretaria de Segurança, logo depois da desocupação, e também de algum modo me chocaram. Os estudantes em todo momento disseram que fizeram um movimento totalmente pacífico. Em um movimento pacífico não há pessoas encapuzadas, mascaradas.

O senhor acredita que se trata de uma greve política?

A minha opinião é a seguinte: no dia 14 de abril, quando houve o primeiro dia de paralisação, já existia a marcha ao Palácio dos Bandeirantes do dia 20 de maio. É algo que vem de fora da universidade. Essa marcha tinha como pauta do fim da jornada 6 x 1 à qualidade da alimentação, da libertação da Palestina à melhora do auxílio permanente dos estudantes. Então, os alunos foram falando: “Precisamos de mais de uma mesa de negociação, mais outra mesa de negociação, mais outra mesa de negociação”. Eu fiquei com a impressão de que antes do dia 20 de maio, quaisquer propostas que nós viéssemos a fazer não seriam integralmente aceitas porque havia um compromisso de que esse movimento perdurasse até lá. E também eu recebi dos estudantes a seguinte informação: a negociação só pode terminar quando todas as nossas reivindicações forem atendidas. Isso virou uma imposição e não uma negociação. Outro fato é que, em nenhum momento, eu vi alguém portando uma camiseta de uma faculdade, uma bandeira da USP. Todos os estudantes que compareceram às negociações, as lideranças, vieram com camisetas de movimentos políticos, ligados a partidos políticos de um espectro mais extremado. E a própria apresentação dos estudantes, em vez de dizer ‘eu sou fulana, aluna do curso tal’, a gente ouvia ‘eu sou fulana do movimento X’.

Cartaz contra o governador Tarcísio de Freitas durante marcha de estudantes da USP ao Palácio dos Bandeirantes.
Cartaz contra o governador Tarcísio de Freitas durante marcha de estudantes da USP ao Palácio dos Bandeirantes.

É um movimento político então para atingir quem, o governador?

Sim, porque, veja, a marcha era contra o governador Tarcísio. O reitor Aluísio foi tachado como servil ao governador.

O senhor não é?

Não, tenho as minhas convicções próprias. Eu sirvo à Universidade de São Paulo, estou aqui há 51 anos. Dediquei a minha vida a essa universidade. Hoje temos um governador a quem eu presto contas porque os recursos que mantêm a nossa universidade vêm do Estado de São Paulo, são recursos públicos. Eu sirvo a população do Estado de São Paulo. É papel do reitor manter um diálogo com qualquer governador que esteja no Palácio dos Bandeirantes e com quaisquer deputados que estejam na Assembleia Legislativa.

O governador disse na semana passada que a greve era justa, o que o senhor achou?

Eu acho que teve uma distorção do que ele falou. Eu assisti ao vídeo e recebi o texto por escrito. Ele disse o seguinte: “É justo os estudantes reivindicarem por uma boa moradia? É justo. Sim. É justo eles quererem uma alimentação de qualidade? É justo”. Então, eu também considero muito justo que os estudantes tenham uma boa moradia, que os estudantes tenham uma boa alimentação. Em nenhum momento, ele disse que seriam justas aquelas pautas de reivindicações amplas que estavam sendo colocadas como única condição para a retomada das atividades acadêmicas. Nós conversamos durante a greve, ele buscou saber se nós estávamos buscando soluções. Agora, a Universidade de São Paulo tem um orçamento robusto, vocês sabem, todos nós sabemos, nós queremos que ele continue assim. E nós temos também o programa de apoio à permanência estudantil, que é o maior do Brasil, com R$ 160 milhões no orçamento de 2026 aprovados pelo Conselho Universitário só para apoio à permanência estudantil.

A USP chegou ao limite do que podem oferecer de permanência estudantil?

Auxílio é dado apenas pela condição de vulnerabilidade socioeconômica, aferida pelos nossos critérios. Já as bolsas pressupõem o envolvimento dos estudantes em projetos acadêmicos, como monitoria, apoio à pesquisa. O valor do auxílio para este ano é de R$ 912. A bolsa varia de R$ 740 até R$ 2.100. Os dados atuais mostram que 60% dos beneficiários de auxílio têm também uma bolsa. E são 17 mil beneficiários de auxílio. Mas o programa de bolsa social é oferecido mediante editais que são publicados no meio do ano. Aí, durante as negociações, bolamos um programa de bolsas específico para os ingressantes vulneráveis. Os alunos já estão se inscrevendo agora em junho, foi criado agora neste movimento. A partir do ano que vem, vamos mudar o calendário das bolsas, vão começar em março. Então, o aluno que ganhou o auxílio já vai poder também somar uma bolsa. Ele já vai ser acolhido com um time que já está desenvolvendo um projeto e vai somar os R$ 912 aos R$ 745. Temos espaço para colocar todos os ingressantes vulneráveis que foram admitidos este ano no programa de auxílio. São mais de 3 mil vagas.

E a moradia estudantil, como o senhor avalia a situação do Crusp? Dá para dizer que é excelente?

Eu não diria excelente. Os prédios datam da década de 1970, são edificações envelhecidas. Nós temos blocos totalmente novos que foram reformados, com novas instalações, com mais condições de segurança, com controle de acesso, reconhecimento facial, lavanderias automáticas, cozinhas adequadas. Agora, esse processo é lento, porque as obras são demoradas, exige todo o processo de licitação. Você tem que tirar os estudantes que estão lá. Então, a nossa proposta hoje é construir um cronograma de realocação de estudantes para outras moradias. Eles não poderão ficar eternamente reclamando de que as instalações requerem melhorias e se recusarem a desocupar as instalações que requerem melhorias.

Como vai ser o calendário de reposição de aulas perdidas com a greve?

Temos que falar do prejuízo da formação. O conselho de graduação já debateu isso em duas oportunidades e está disposto a, imediatamente após a retomada das aulas, discutir com cada unidade a forma de fazer a adaptação desse calendário. Haverá prejuízos? Haverá, porque é impossível no tempo que resta até o início do segundo semestre fazer reposição de todas as atividades, particularmente naquelas unidades que têm muitas atividades práticas, viagens, contato com o hospital. Algumas coisas não podem ser repostas. O reitor não pode obrigar o professor a dar aulas se ele esteve lá na sala de aula durante todo esse tempo e os estudantes não vieram. O calendário deve entrar em julho, mas o início do segundo semestre está mantido no dia 3 de agosto.

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