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Adolescente aprende menos quando precisa acordar cedo para ir à escola? Entenda

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Não é só seu filho que reclama de ir para a escola cedo. Há um movimento crescente de especialistas em saúde, educação e neurociência defendendo o fim das aulas às 7h ou 7h30 da manhã. O motivo é simples: uma quantidade robusta de pesquisas indica que começar a estudar uma ou duas horas mais tarde melhora a saúde mental, a atenção, a disposição e até o desempenho escolar dos adolescentes.

E não adianta recorrer ao velho conselho: “é só dormir mais cedo”. Durante a adolescência, há um atraso natural do ciclo circadiano, nosso relógio biológico, com liberação mais tardia da melatonina, hormônio que ajuda a regular o sono. Ou seja, os jovens realmente passam a sentir sono mais tarde.

Há ainda outro fator: a chamada pressão do sono, aquela necessidade crescente de dormir ao longo do dia, se acumula mais lentamente nos adolescentes do que em crianças e adultos. O resultado é previsível: eles conseguem permanecer despertos até tarde sem sentir um cansaço intenso — e sofrem para acordar antes das 6h para chegar à escola.

Em média, adolescentes precisam de oito a dez horas de sono por noite para funcionar bem no dia seguinte, segundo especialistas. É durante esse período que o cérebro consolida memória, regula emoções e organiza o aprendizado. Quando o despertador toca cedo demais, muitos acumulam uma dívida crônica de sono ao longo da semana.

E os ambientes digitais agravam o quadro. A luz emitida por celulares e computadores — justamente quando o organismo deveria desacelerar — sinaliza ao cérebro que ainda é dia. As redes sociais ainda mantêm os jovens em estado de alerta e excitação, dificultando o relaxamento.

Luz emitida pelos celulares também atrapalha o sono do jovens.
Luz emitida pelos celulares também atrapalha o sono do jovens.

Diante dessas evidências, pesquisadores de diversos países, inclusive do Brasil, passaram a investigar os efeitos de atrasar o início das aulas.

Um estudo da Universidade de Zurique, publicado neste ano, analisou uma mudança para um modelo escolar mais flexível, em que os estudantes podiam começar as aulas mais tarde. Os adolescentes dormiram mais, relataram menos dificuldades para pegar no sono e tiveram melhor desempenho em testes padronizados de Matemática e Inglês, além de melhora na qualidade de vida e menos sintomas depressivos.

No Brasil, pesquisadores do Paraná testaram o impacto de um atraso de apenas uma hora — das 7h30 para 8h30 — durante uma semana. Os adolescentes relataram menos fadiga, tensão, confusão e raiva, além de mais energia e menos sintomas depressivos.

Em outro estudo, a entrada escolar em uma instituição de ensino na França passou das 8 horas – o que já seria aceitável no Brasil – para às 9 horas e também foi registrado impacto positivo na atenção, no foco e uma redução da impulsividade nos alunos durante o dia.

É claro que mudar os horários escolares não é simples em um país como o Brasil. Para que isso fosse viável em larga escala, muitas redes teriam de avançar no ensino em tempo integral, reduzindo a lógica dos turnos de manhã e tarde. Isso exigiria mais investimento, melhor estrutura e professores fixos — embora também abrisse espaço para uma formação mais rica, com atividades culturais, esportivas e científicas. Hoje, apenas 25% dos estudantes brasileiros estudam em tempo integral.

Nas escolas particulares de elite, porém, a mudança talvez encontrasse menos barreiras estruturais. O obstáculo pode ser mais cultural. Ainda persiste a ideia de que “Deus ajuda quem cedo madruga”, acompanhada do estigma injusto de que adolescentes são preguiçosos.

Há também uma preocupação legítima de pais e mães que começam a trabalhar cedo e precisam deixar os filhos na escola. Talvez a saída esteja em modelos mais flexíveis, com horários de entrada variados e atividades optativas nas primeiras horas do dia. Sabendo que o cérebro adolescente funciona em outro relógio, insistir em ignorar isso talvez seja mais teimosia adulta do que disciplina.

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