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Aprender por projetos desde a infância: quando o conhecimento vira descoberta

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Por Aline Rodrigues da Silva

Em uma sala da Educação Infantil e do 1º ano, uma pergunta simples pode abrir um universo inteiro de questionamentos que conduzam a uma boa conversa e a investigações. Como um artista pintava antes de o pincel existir? O que é a vacina? Quem inventou a vacina? Como o avião sobe no céu? O piloto dorme na viagem? Quantos anos uma tartaruga vive? O que faz uma oceanógrafa? Quando a Educação Infantil organiza seu currículo por meio de projetos investigativos, essas perguntas deixam de ser apenas curiosidades e tornam-se o motor da aprendizagem de forma mais significativa.

A Aprendizagem Baseada em Projetos tem como finalidade transformar perguntas em investigação e conhecimento em construção colaborativa. Ancoramos a nossa prática nos estudos de William Bender, de Hernández e do Buck Education Institute. 

Para Bender (2014), “A aprendizagem baseada em projetos envolve os alunos em investigações autênticas, nas quais eles constroem conhecimento ao resolver problemas e responder a questões complexas”. Fernando Hernandez (2016) sustenta que trabalhar com a metodologia de projetos nos permite construir um caleidoscópio de relações que não tornam o conteúdo fragmentado, e sim conectado. Isso porque parte das curiosidades das crianças gera protagonismo, processos investigativos e uma aprendizagem mais integrada, significativa e colaborativa, muito alinhada aos nossos princípios sociointeracionistas, numa lógica natural de investigação.

Ao longo do projeto, sempre garantimos algumas etapas que consideramos essenciais para as crianças pequenas. Como o repertório cultural deles ainda é insuficiente para a escolha de temas mais elaborados, trabalhamos com um mês de ancoragem, no qual as educadoras apresentam as personalidades que eles poderão escolher para estudar ao longo do restante do semestre.

Após este período, fazemos uma votação democrática, em que eles terão não só a oportunidade de exercitar a escolha com critérios, mas também de lidar com a frustração de ver que, porventura, o seu candidato não foi escolhido, criando bases emocionais sólidas em seu repertório para um crescimento emocional saudável. Deste modo, a ação favorece o desenvolvimento de habilidades sociais, autorregulação, posicionamento, respeito e outros valores e habilidades importantes para a vida em sociedade.

Após o término da votação e da contagem dos votos, informamos as famílias e a comunidade. Em seguida, os estudantes passam para a etapa de construção e aplicação do projeto e elaboram a pergunta norteadora, que remeterá a um aprofundamento ou a uma solução de problemas, visto que, na teoria da aprendizagem baseada em projetos, a relevância social é fundamental. Em seguida, dedicamo-nos à investigação, às produções coletivas e, por último, ao compartilhamento dos conhecimentos com as famílias, incluindo as crianças na reunião para incentivar o senso de protagonismo.

Como exemplo, pode-se citar a experiência da turma do G4, que escolheu Sylvia Earle como base de estudos. Por meio dessa investigação, os estudantes compreenderam os problemas pelos quais o planeta Terra está passando, preocupando-se com o aquecimento global e o número crescente de plásticos nos oceanos.

Envolvido pelo projeto, o grupo resolveu engajar-se na luta de Sylvia Earle e nas iniciativas globais da Década do Oceano e do Movimento Pororoca. Levantaram hipóteses, descobriram o pulmão do mundo e a necessidade dos oceanos para a humanidade, assistiram a vídeos, conversaram com biólogos, colegas da turma e educadores que puderam ampliar seus olhares sobre o tema.

Além disso, trouxeram hipóteses sobre o que já entendiam, como: “O mar é grande e nunca acaba”; “No oceano moram muitos peixes”; “A água é gelada quando a gente entra”; “Tem areia e água salgada” e “Existem cinco oceanos”. Dedicaram-se às investigações sobre as modificações nos oceanos ao longo das décadas, discutiram a poluição dos oceanos e os impactos na vida marinha, classificaram resíduos e pensaram sobre o que poderia ser reciclado ou não.

No caderno de Ciências, material elaborado pela equipe do Colégio Elvira Brandão, as crianças fizeram anotações pertinentes sobre a investigação e colocaram-se no lugar de pesquisadores, com respostas coletadas na comunidade escolar por meio de entrevistas, tendo como perguntas centrais: “Você já foi à praia?” e “Você viu lixo na areia ou a praia estava limpa?”. 

Essas respostas foram tabuladas e entendeu-se que, para construir uma opinião, precisa-se ir além do que é visto; é necessário saber o que as pessoas entendem sobre isso. Nesse sentido, movidos pela ideia de um dos colegas, pensaram: “E se a gente fizesse placas para colocar nas praias?”. E foi o que fizeram. Em equipes, as crianças criaram cartazes e slogans sobre a preservação dos oceanos, compartilhando, também, suas descobertas com os estudantes do 2º ao 5º ano.

A escola deve ser um espaço que não se limita à transmissão de conteúdos, tornando-se, acima de tudo, um lugar de investigação por meio de conhecimentos úteis para a vida, pois, como cita Hernández (1998), “aprender por projetos é aprender a olhar o mundo como um território de perguntas”.

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