
Capa do álbum ‘Sambas de enredo das escolas de samba do grupo 1’, disponível nos aplicativos de áudio
Reprodução
♫ MEMÓRIA – SAMBAS DE ENREDO DO CARNAVAL 1976
♬ Aberto oficialmente nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, o Carnaval 2026 do Rio de Janeiro mobiliza multidões que assistirão ao desfile das escolas de samba pela TV ou ao vivo, nas arquibancadas, cadeiras e camarotes Marquês de São Sapucaí. A festa tem tudo para ser emocionante.
Contudo, há consenso de que a safra carioca de sambas de enredo da folia de 2026 é uma das mais fracas da história do Carnaval do Rio de Janeiro. Se alguém tem dúvida da queda de qualidade do gênero, recorrente e reafirmada ano após anos, basta lembrar a excelente safra do Carnaval carioca de 1976, eternizada no álbum “Sambas de enredo das escolas de samba do grupo 1”, lançado no formato de LP pela gravadora Top Tape no fim de 1975.
Há 50 anos, os foliões cantaram grande sambas no Carnaval de 1976. Um deles, aliás, “Os sertões”, samba de autoria de Edeor de Paula (1932 – 2020) apresentado pela escola Em Cima da Hora na voz do puxador Nando, costuma figurar (com razão e destaque) em antologias com os melhores sambas de enredo de todos os tempos.
Obra-prima do gênero, “Os sertões” é exemplo de maestria de uma era em que os sambas de enredo tinham belas melodias e andamentos mais lentos, sem a aceleração observada nas últimas décadas. Era uma época em que a composição de um samba de enredo era uma criação essencialmente artística, ainda não dominada pela indústria que movimenta as escolas de samba.
Havia disputa, como sempre houve desde que o samba é samba, mas o critério de escolha de um samba era artístico, não político, como nos Carnavais recentes, em que sambas são assinados por quem pouco ou nada contribuiu para a composição.
Além de “Os sertões”, um primor de melodia e letra, o Carnaval carioca de 1976 legou grandes sambas. É o caso de “No reino da Mãe do Ouro” (Tolito e Rubens de Mangueira), samba da escola Estação Primeira de Mangueira cujo refrão aliciante (“Obabá/ Olaô babá/ É a Mãe do Ouro/ Que vem nos salvar”) atravessou gerações na memória popular do folião.
E teve mais ouro nessa safra! Como resistir à doce melodia de “Lenda das sereias – Rainha do mar” (Vicente Mattos, Dinoel Sampaio e Arlindo Velloso), samba de enredo do Império Serrano? Esse samba alcançou outros Carnavais ao ser revitalizado por Marisa Monte em 1989 no primeiro álbum da cantora (aliás, “Lenda das sereias” está no roteiro do show “Phonica”, atual turnê de Marisa).
E o que dizer de “Sonhar com rei dá leão”, samba composto pelo então desconhecido Neguinho da Beija-Flor para a escola que incorporou ao nome artístico? Ao versar sobre o jogo do bicho, a também então desconhecida Beija-Flor de Nilópolis foi para as cabeças, emplacando a primeira das 15 vitórias da agremiação fluminense no Carnaval do Rio de Janeiro – mérito do ótimo samba, mas sobretudo do carnavalesco Joãosinho Trinta (1933 – 2011), então debutando na escola.
Com o campeonato da Beija-Flor em 1976, o Carnaval carioca começou a se profissionalizar, abrindo alas para que outras escolas apostassem no luxo e vencessem os desfiles, cujas vitórias eram até então um monopólio das quatro grandes escolas, grupo de elite formado por Portela, Império Serrano, Mangueira e Salgueiro. A Mocidade Independente de Padre Miguel, por exemplo, seria a campeã do Carnaval carioca de 1979.
A propósito, embora tenha ficado quase esquecido com o passar do tempo, o samba de enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel, “Menininha do Gantois” (Toco e Djalma Cril), também é digno de figurar em antologia do gênero pela beleza da melodia concisa.
Também merece menção honrosa a beleza de “O homem do Pacoval” (Noca da Portela, Colombo e Edir), samba da Portela sobre as lendas, mistérios e tradições da Ilha de Marajó. “Invenção de Orfeu” (Paulo Brazão, Rodolpho e Irani), samba da Unidos da Vila Isabel, é outro que merece ser saudado pela qualidade da melodia e letra, típicas da agremiação de Martinho da Vila.
É fato que nem tudo reluziu como ouro na safra de 1976. Também houve sambas medianos naquele ano, só que, em confronto com os sambas de safras recentes, esses tais sambas medianos correm risco até de serem considerados obras-primas em 2026. “Por mares nunca dantes navegados” (Gibi, Sereno e Guga) não está entre os melhores sambas da Imperatriz Leopoldinense, então uma escola sem peso no Carnaval carioca.
Já “Riquezas áureas da nossa Bandeira” (Caciça), samba pomposo da Tupy de Brás de Pina, perde pontos de cara pelo enredo ufanista em época em que o Brasil vivia sob ditadura.
Mais interessante é “Poema de máscaras de sonhos” (Da Vala, Dito, L, Barbicha, Mestrinho e Wilson Jangada), samba com que a União da Ilha do Governador celebrou a Praça Onze, palco dos primeiros Carnavais cariocas. Embora não se imponha entre os melhores sambas da Ilha, “Poema de máscaras de sonhos” exala lirismo e tem algumas passagens melódicas bonitas.
“Folia de reis” (Agnelo Campos e Efe Alves), samba da Lins Imperial, é outro samba que não chega a sobressair na safra de 1976, mas que seria exaltado em 2026. O mesmo pode ser dito sobre “Arte negra na legendária Bahia” (Caruso, Caramba e Dominguinhos do Estácio), samba da Unidos de São Carlos, escola que mudaria de nome para Estácio de Samba. Um grande samba, aliás, reeditado pela Estácio no Carnaval de 2005.
Há também beleza e grandeza em “Mar baiano em noite de gala” (Carlão Elegante, Pedro Paulo e Joãosinho), samba da Unidos de Lucas, também com enredo inspirado pela ancestralidade afro-brasileira que banha as águas e os ares da Bahia.
Por fim, fechando o álbum (disponível nos aplicativos de áudio), há o samba da escola Acadêmicos do Salgueiro, “Valongo” (Djalma Sabiá), outro belo samba, único cantado no disco por uma mulher, Dinalva.
Enfim, o álbum “Sambas de enredo das escolas de samba do grupo 1” permanece como perene atestado de época de ouro do samba de enredo, gênero que atingiu o auge nos anos 1970 e 1980 em processo de consolidação e popularização que se iniciara na década de 1960.
Carnaval de 1976 legou belos sambas de enredo – lembre a safra cantada há 50 anos pelos foliões do Rio de Janeiro
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