Um banco branco de pedra, de linhas curvas, captura o olhar de quem entra no pátio do St. Paul’s School, colégio de alto padrão no coração do Jardim Paulistano, na zona oeste de São Paulo. O espaço convida à pausa e à brincadeira: na tarde ensolarada de quarta-feira, 4, um menino tenta transformar o banco em escorregador.
O mobiliário guarda uma história solene. No verso do encosto estão os nomes de dez ex-alunos britânicos que morreram na Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945).
O memorial foi inaugurado no fim do ano passado por iniciativa do diretor Titus Edge, historiador de formação, como parte das celebrações do centenário da escola. A escolha de um banco em vez de um monumento tradicional foi intencional.
A ideia era criar uma homenagem que permanecesse integrada à vida da escola, lúdica e educativa, permitindo que as novas gerações convivam diariamente com essa memória. Uma história centenária também se faz nos gestos mais simples do cotidiano.

O colégio centenário é um dos mais caros do País, com mensalidades que variam entre R$ 11 mil e R$ 14 mil. Episódios históricos como a construção de um memorial e a contribuição da imigração britânica para a urbanização de São Paulo fazem parte da publicação especial 100 years of St. Paul’s. O volume de capa dura, em inglês, está sendo vendido prioritariamente para a comunidade escolar.
Assim como o passado se manifesta no cotidiano do colégio, as diferentes culturas dos alunos também se entrelaçam nos corredores e salas de aula.
Fundada em 1926 por membros da comunidade britânica que viviam em São Paulo e queriam garantir aos filhos uma educação alinhada aos padrões do Reino Unido, o colégio recebeu em 2012 a certificação British School Overseas, concedida pelo Departamento de Educação britânico a instituições que seguem o currículo e os padrões educacionais ingleses. Até os tecidos dos uniformes são inspirados em padrões britânicos.
O prestígio ajudou a atrair visitas ilustres ao longo da história. A mais emblemática ocorreu em 1968, quando a rainha Elizabeth II e o príncipe Philip visitaram o colégio durante uma viagem oficial ao Brasil.
Nas décadas seguintes, também passaram pelo campus o então príncipe Charles — hoje rei do Reino Unido — e a princesa Diana, que inaugurou uma nova ala da escola em 1991. A expectativa daquela visita foi registrada assim pelo Estadão.
“Ontem foi preciso apenas um ensaio do posicionamento dos 700 alunos no campo de futebol – a princesa vai atravessar o campo numa espécie de passarela demarcada com cordas de isolamento – além da realização dos últimos retoques de acabamento nas salas da nova ala da escola que Diana irá inaugurar em sua visita de 30 minutos ao colégio”, noticiou o periódico em 24 de abril de 1991.

Uma escola com 30 nacionalidades
Ao longo das décadas, o colégio britânico se transformou em algo mais amplo: uma instituição internacional que reúne famílias de diferentes partes do mundo, sem perder a conexão com o Brasil. Hoje, cerca de 30 nacionalidades convivem na comunidade escolar. É uma escola de tradições britânicas, mas moldada pela diversidade da cidade de São Paulo.
“Se chegamos aos cem anos é porque cada geração se sentiu responsável por levar a escola adiante. Esse senso de responsabilidade compartilhada é, acredito, o nosso legado mais duradouro”, diz o diretor Titus Edge.
Essa mistura aparece nos detalhes. Em uma sala do equivalente ao Ensino Fundamental II, o rosto estilizado de Nelson Mandela observa os alunos. Em outra ala, trabalhos do Ensino Fundamental I exibem poesias para pais e avós com versos em português.
Caráter global
O calendário escolar também reflete essa convivência cultural. O International Day reúne famílias para celebrar suas origens diversas. Já no dia 11 de novembro, a escola celebra o Remembrance Day, data dedicada à memória dos mortos em combate nos países da Commonwealth, aliança de nações de origem e cultura britânica.
Em agosto, Edge dará lugar a Martina Oparaocha após um mandato de seis anos como diretor. Martina será a segunda mulher e a primeira negra a comandar a instituição.
O colégio que começou com apenas 77 alunos hoje reúne cerca de 1.200. O processo de admissão atual prioriza famílias internacionais, reforçando o caráter global.
“Cada pessoa vem de histórias e origens diferentes. Ter pessoas de diferentes nacionalidades torna o ambiente muito inclusivo”, diz o estudante Ilan Mizen, de 17 anos, neto de poloneses e aluno do equivalente ao segundo ano do Ensino Médio.
As salas são grandes e os corredores, largos. Enormes janelas favorecem a entrada de luz e a ventilação natural, evidências do projeto arquitetônico original.

Combate à pobreza menstrual
Nos primeiros anos escolares — os Early Years, que correspondem à Educação Infantil e ao início do Ensino Fundamental —, as crianças vivem “imersas” no inglês. Todas as atividades e disciplinas são conduzidas nesse idioma, com uma aula semanal de português.
A partir dos 6 ou 7 anos, entram no currículo disciplinas como português, história e geografia do Brasil, em conformidade com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Nessa etapa, o português passa a ser ensinado diariamente.
Já no Senior School, equivalente ao Ensino Médio, os alunos se preparam para exames internacionais como o IGCSE e o International Baccalaureate (IB), programa acadêmico rigoroso que abre portas para universidades no Brasil e no exterior.
A formação vai além do conteúdo acadêmico, com projetos de impacto social dentro da disciplina obrigatório Criatividade, ação e serviço (CAS). Foi nesse contexto que nasceu o projeto Fluir, criado pela aluna Elisa de Toledo, de 18 anos.
A iniciativa surgiu após estudantes perceberem que muitas meninas e mulheres ainda enfrentam dificuldades de acesso a produtos de higiene, como absorventes e sabonetes. O grupo arrecada recursos e distribui esses itens em comunidades vulneráveis, como no Jardim Pantanal, na zona leste.
“Estudando num colégio internacional que segue o currículo do IB, a gente reflete, o tempo todo, sobre a nossa comunidade e o nosso impacto na sociedade”, afirma Elisa.

A história da escola também guarda episódios de contestação e participação estudantil. Em 1972, alunas do ensino secundário enviaram uma carta ao conselho administrativo pedindo mudanças no uniforme feminino, considerado inadequado para o clima tropical.
“Se este apelo parecer um pouco melodramático e exagerado”, escreveram elas, “sugerimos que, para compreender a nossa situação atual, passem um dia nos vossos escritórios vestindo o nosso uniforme escolar”.
No final da carta, as estudantes acrescentaram um argumento que pareceu definitivo: um uniforme mais leve “melhoraria o nível acadêmico das alunas”. A reivindicação foi atendida.

Programa de bolsas
O St. Paul’s é uma instituição sem fins lucrativos e mantida pela Fundação Anglo-Brasileira de Educação e Cultura de São Paulo (Fabec). O centenário coincide com a ampliação de iniciativas voltadas à inclusão social.
Criada em 2019, a Fundação St. Paul’s administra um programa de bolsas integrais para estudantes de alto desempenho acadêmico cujas famílias não têm condições de arcar com os custos da escola. Hoje, cerca de 50 alunos têm apoio do programa no Form 1 (6º ano do Ensino Fundamental) ao Upper 6 (3º ano do Ensino Médio).
Um deles é Emily Marinho, ex-aluna da escola pública, de 16 anos. “A bagagem cultural e as pessoas com que me conectei foram a minha maior oportunidade para a vida. Minha família, assim como eu, experienciou um mundo novo. Foi a primeira vez que eles ouviram alguém falar inglês. Hoje tudo parece possível para eles e para mim.”
O processo seletivo para se tornar bolsista é rigoroso e inclui análise acadêmica, testes, entrevistas e um curso preparatório de um ano com aulas ministradas por professores da própria escola. A bolsa cobre 100% da mensalidade e pode incluir benefícios adicionais, como material escolar, transporte e alimentação. As inscrições estão abertas até 30 de março de 2026 e devem ser feitas no site da fundação.
“Ampliar o acesso não é apenas um compromisso social, mas também estratégico: a diversidade enriquece o ambiente de aprendizagem e fortalece a instituição como um todo”, afirma o diretor Titus Edge.

Festa do centenário na Sala São Paulo
As comemorações dos 100 anos se estendem ao longo de todo o ano. Em 26 de fevereiro, um evento reuniu alunos, ex-alunos, funcionários e convidados para o lançamento do livro dos cem anos e de uma exposição histórica sobre a trajetória da escola.
Ao revisitar arquivos, histórias pessoais e marcos importantes, os organizadores contam que queriam lembrar à comunidade atual que todos fazem parte de algo maior.
“Quando começamos a planejar o centenário, queríamos que fosse mais do que uma celebração do passado”, diz Verena Ferreira, diretora de Marketing, Comunicação e Admissões. “Queríamos também pensar no futuro e onde a escola quer estar nos próximos anos.”
Essa reflexão aparece em exposições, encontros da comunidade e atividades culturais programadas ao longo do ano. O ponto alto está previsto para a Sala São Paulo, prestigiada sala de concerto e sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp).
O espaço ocupa o edifício da antiga Estação Júlio Prestes, que faz parte do complexo ferroviário da Luz, símbolo da influência britânica na infraestrutura e arquitetura do centro de São Paulo.