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Escola Vera Cruz e Prefeitura de SP brigam na Justiça por cobrança de R$ 36 milhões em impostos

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A Escola Vera Cruz, que é uma associação sem fins lucrativos, transferiu os prédios onde funciona o colégio para uma empresa ligada a famílias dos seus fundadores. Com isso, a instituição da zona oeste de São Paulo passou a pagar aluguel às famílias – de cerca de R$ 7 milhões anuais – para usar os mesmos imóveis que antes eram do Vera Cruz.

A operação, feita em 2006, levou a uma disputa na Justiça entre a associação mantenedora do Vera e a Prefeitura, que se estende até hoje. O Município passou a cobrar o Imposto Sobre Serviços (ISS), cuja imunidade é dada a instituições sem fins lucrativos. A Prefeitura considerou que houve distribuição do patrimônio e de recursos aos próprios dirigentes.

À reportagem, o advogado da associação afirma, em nota, que “as alterações societárias” se basearam, “rigorosamente, em texto de lei” e normativas da Receita Federal e do Ministério da Educação (leia mais abaixo). A Associação Universitária Interamericana (AUI), que mantém a Escola Vera Cruz desde os anos 1970, pede a anulação das cobranças que hoje somam R$ 36 milhões.

Nos autos do processo, a entidade diz ainda que o eventual pagamento, com valor superior ao seu patrimônio, pode afetar o funcionamento da escola. Procurados pela reportagem, representantes das famílias disseram que se pronunciaram por meio dos advogados.

Já a Prefeitura diz que a ação tramita sob sigilo judicial (leia mais abaixo). O Tribunal de Justiça de São Paulo deve analisar nesta quinta-feira, 23, se mantém a suspensão do imposto até que o mérito seja julgado.

Um dos prédios do Vera Cruz fica no Alto de Pinheiros, na Rua Dona Elisa de Moraes Mendes
Um dos prédios do Vera Cruz fica no Alto de Pinheiros, na Rua Dona Elisa de Moraes Mendes

A Escola Vera Cruz, na zona oeste da capital, é uma das mais conceituadas instituições de ensino particulares de São Paulo e referência em inovação pedagógica e formação de professores. Tem cerca de 2,5 mil alunos, com mensalidades em torno de R$ 6 mil. A briga na Justiça chamou a atenção de pais de alunos e de doadores do projeto antirracista da instituição, que questionaram o Vera sobre o assunto. (leia mais abaixo).

Em 2021, a Justiça julgou improcedentes os pedidos da associação para não pagar os impostos. A sentença, a qual o Estadão teve acesso, diz que a operação de transferência de imóveis permitiu “beneficiar seus membros diretores, tolhidos em seus interesses econômicos pelas amarras estatutárias” e ainda “deixou de destinar seus recursos aos seus fins institucionais”.

Na época, a associação que mantém o Vera desistiu de recorrer, reconheceu os débitos e pagou cerca de R$ 10 milhões em impostos referentes ao período de 2007 a 2010.

O caso voltou à Justiça neste ano. Em janeiro de 2026, a associação entrou com uma nova ação para tentar suspender preventivamente a cobrança do ISS e novas multas, agora referentes aos anos de 2018 a 2021, que somam R$ 36 milhões.

Na ação, os advogados da associação afirmam que a transferência de patrimônio foi um ato “absolutamente lícito” porque uma instrução normativa federal permitiria que imóveis adquiridos antes de 1997 poderiam ser destinados a terceiros. Isso, no entendimento da defesa, não poderia resultar em perda de imunidade tributária.

Em 1ª instância, a Justiça negou o pedido da associação para suspender a cobrança. Na manifestação da Prefeitura à Justiça, a operação é chamada de “intrincada teia patrimonial entre a associação sem fins lucrativos e as empresas privadas geridas pelos mesmos indivíduos”.

O Município diz ainda que a cobrança se dá após “profunda auditoria fiscal, que avaliou e amealhou farta documentação que escancara uma sofisticada operação de engenharia empresarial e patrimonial”.

No âmbito administrativo, a decisão já havia sido desfavorável à escola. Documentos da Prefeitura citam a manifestação do Conselho Municipal de Tributos, órgão responsável por julgar recursos de contribuintes contra autuações fiscais, que diz que “tal operação resultou em uma despesa mensal de valor relevante para a entidade (…) sem justificativa alguma. Isto é, se a cisão parcial de 2006 não tivesse ocorrido, a entidade praticamente não teria despesas relevantes com aluguéis.”

A escola recorreu ao Tribunal de Justiça e conseguiu decisão provisória para suspender a cobrança dos impostos enquanto o recurso é analisado. A associação afirmou que “o valor exigido pelo Fisco supera significativamente o patrimônio líquido da associação”. A associação também disse que a cobrança prejudicaria o “bom andamento” da escola e a política de bolsas para negros e indígenas.

Aluguéis estão entre as maiores despesas do colégio

Segundo balanço de 2022 da associação que mantém o Vera, ao qual o Estadão teve acesso, o patrimônio líquido da associação era de R$ 23,7 milhões. O patrimônio líquido é o que sobra para a entidade depois de descontadas todas as suas dívidas e obrigações de pagamento.

Os aluguéis estavam entre as maiores despesas da associação, atrás dos gastos com pessoal. As mensalidades geravam receita de cerca de R$ 100 milhões por ano.

O julgamento da suspensão pedida pela escola está marcado para esta quinta-feira, 23. O mérito ainda será julgado pela 15ª Câmara de Direito Público do TJ-SP e não há prazo.

Os documentos aos quais o Estadão teve acesso mostram que, 2006, a associação realizou o que é chamado de cisão parcial e transferiu 59% do seu patrimônio para uma empresa privada recém-criada, a EDUC Gestão Patrimonial Ltda, que tinha os mesmos sócios da escola.

Pelo valor venal atribuído pela Prefeitura — normalmente inferior ao valor de mercado —, os imóveis, em bairros como Vila Madalena, Alto Pinheiros e Vila Leopoldina, somam cerca de R$ 75 milhões.

Um deles é o complexo de três terrenos e um prédio na Rua Dona Elisa de Moraes Mendes, no Alto de Pinheiros, onde funcionam a educação infantil e fundamental. Em outro, na Rua Baumann, na Lapa, fica o ensino médio.

No protocolo da cisão, a justificativa apresentada é a necessidade de “segregar o patrimônio social adquirido anteriormente a dezembro de 1997”, com o objetivo de criar “um ambiente institucional próprio à continuidade e sucessão das atividades” da associação.

A EDUC foi inicialmente constituída por quatro sócias ligadas à história da escola: Yolanda Vidigal Meyer, Cynira Stocco Fausto, Branca Mincarelli Albernaz e Maria Amélia Pinho Pereira.

Outros fundadores foram incluídos mais tarde na empresa, como Heitor Fecarotta, ex-diretor do Vera, e as educadoras Maria Stella Galli Mercadante e Lucília Bechara Sanchez.

Posteriormente, sua estrutura societária incluiu holdings ligadas às sete famílias de fundadores e seus descendentes: Vidigal Meyer, Fausto, Mincarelli Albernaz, Bechara Sanchez, Galli Mercadante, Fecarotta e Bustamante.

Segundo balanço de 2022 da empresa, as famílias recebem juntas, R$ 7,2 milhões por ano, que vem do aluguel pago pela escola.

A reportagem apurou que a intenção inicial do grupo foi a de que os aluguéis funcionassem como aposentadoria para as educadoras que fundaram e trabalharam por décadas na escola.

Mas, depois que algumas delas morreram, seus descendentes passaram a receber os valores. Recentemente, por causa das contestações da Justiça, de pais e doadores da escola, alguns sócios sugeriram que os imóveis fossem devolvidos ao Vera. No entanto, não houve consenso entre o grupo.

Em nota assinada pelo tributarista Bruno Fajersztajn, da Mariz de Oliveira e Siqueira Campos Advogados, a associação afirma que “a cobrança em questão está suspensa por decisão” do Tribunal de Justiça, que “reconheceu a probabilidade das razões aduzidas no processo”.

Acrescenta que “as alterações societárias discutidas se basearam, rigorosamente, em texto de lei, e nas posições públicas da União Federal, externalizadas em instruções normativas da Receita Federal do Brasil e do Ministério da Educação”.

Procurada, a Prefeitura informa que “a ação tramita em segredo de Justiça e informações relacionadas ao contribuinte somente podem ser prestadas nos autos do processo”.

O Município diz ainda que “escolas e entidades educacionais podem cobrar mensalidades, gerar superávit e contratar serviços, desde que todos os recursos sejam integralmente destinados à finalidade institucional”.

“No caso de transferência de patrimônio ou remuneração indireta de pessoas ligadas à entidade ou despesas sem justificativa institucional”, continua, “a Administração Tributária tem o dever legal de apurar e constituir o crédito tributário.”

Projeto antirracista jogou luz sobre disputa judicial

A discussão na Justiça entre o Vera Cruz e a Prefeitura chamou a atenção há alguns anos de um grupo de mães que criaram, em 2020, o projeto antirracista da escola, chamado de Travessias.

Com proposta que incluía bolsas para crianças negras e indígenas, contratação de profissionais não brancos e mudança de currículo, elas arrecadaram mais de R$ 4 milhões em doações com famílias de elite para que a escola tocasse o projeto.

O programa do Vera virou referência na rede particular, em especial por causa do alto valor arrecadado, e foi um dos pioneiros no debate sobre inclusão.

Mães que fundaram e conduziam o projeto tiveram dificuldades em ter acesso ao balanço da escola. Depois, descobriram a transferência dos imóveis e a disputa na Justiça.

Elas exigiram explicações e não ficaram convencidas de que a operação era lícita. Algumas delas tiraram seus filhos do colégio e o projeto antirracista não é mais organizado pelos pais e, sim, pela própria escola.

Famílias doadoras também questionaram o uso dos recursos do Vera para pagar aluguéis a descendentes dos fundadores. Um grupo chegou a contratar advogados para entender o imbróglio e cobrar a escola.

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