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Nota dos alunos de SP melhora em Matemática: quais estratégias ajudaram no resultado?

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Em Matemática, o resultado dos alunos da rede estadual paulista foi o melhor desde 2011. O desempenho no Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado (Saresp), divulgado esta semana, chama a atenção também porque tradicionalmente no País crianças e adolescentes se saem pior em avaliações da disciplina.

Para técnicos da Secretaria Estadual da Educação, as notas melhoraram por um conjunto de iniciativas que foram executadas especialmente em 2024 e 2025, que incluem priorizar certos conteúdos do currículo, plataformas gamificadas de educação financeira e novas aulas de Matemática só com exercícios práticos.

Especialistas afirmam que, embora tenha havido avanço em especial nas séries iniciais, ainda há desafios: mais de 70% dos alunos estão nos níveis considerados básico e abaixo do básico em Matemática no 9º ano.

“Nosso currículo no Brasil é inchado, com muito conteúdo. O professor, querendo cumprir tudo, não conseguia checar se o aluno aprendeu de fato”, diz o subsecretário pedagógico da Secretaria da Educação, Daniel Barros.

Segundo ele, a política da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), também feita em outros Estados, foi a de escolher menos conteúdos e aprofundá-los. Assim, o material elaborado pela secretaria, que indica aula a aula o que o professor deve ensinar – outra iniciativa do governo – contemplou só os conceitos considerados fundamentais da área.

Matemática é considerada um dos gargalos do ensino básico
Matemática é considerada um dos gargalos do ensino básico

Em Língua Portuguesa, um modelo semelhante de priorização de conteúdos foi adotado, mas até agora não obteve os mesmos resultados e os alunos do 9º ano ainda não atingiram os níveis de aprendizagem anteriores à pandemia.

Especialista em educação matemática e diretora do Instituto Reúna, Katia Smole diz que essa é uma tendência no mundo todo, uma estratégia temporária, intesificada no pós-covid. Segundo ela, a política precisa vir combinada com uma recomposição de aprendizagens perdidas em outros anos, o que se tornou frequente por causa do período de escolas fechadas.

“Se no 6º ano os estudantes precisam resolver problemas com medidas e decimais e eles não sabem fração, que é um conceito de 4º/5º ano, então é preciso incluir no currículo as noções iniciais de frações”, explica. “Mas, para isso, é preciso ver que não cabe tudo.”

Dessa forma, diz Katia, a rede precisa planejar quais os temas mais centrais do ano, que não podem ficar de fora para não atrapalhar a série seguinte. Um exemplo, segundo ela, seria o conceito de probabilidade, que normalmente é mais explorado em outros anos, então poderia ser menos trabalhado nesse caso.

“Não acho que está tudo resolvido, o trabalho precisa continuar, mas não é qualquer coisa São Paulo ter feito o 9º ano voltar aos patamares de 2019 em Matemática″, acrescenta ela, ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC).

Além da priorização curricular, Barros acredita que houve impacto da introdução das chamadas orientações de estudos de Matemática. Duas das aulas da disciplina da grade no 9º anos passaram a ser dadas por um professor diferente, com o objetivo de recuperar defasagens de aprendizagens. “As aulas têm uma pequena explanação do conteúdo e focam profundamente em exercícios”, diz.

Além de ter resultado médio de 260 pontos na prova do Saresp, chegando aos patamares pré-pandemia no 9º ano, dobrou o número de alunos nos níveis avançado e adequado em Matemática em comparação a 2023. São agora 27,4%, sendo 6% no grupo de melhor desempenho.

No entanto, ainda há 30% dos alunos de 14 anos abaixo do considerado básico, o que quer dizer que não conseguem interpretar informações a partir de dados em uma tabela com duas colunas, por exemplo.

A secretaria ainda introduziu plataformas gamificadas, motivo de ressalvas por especialistas diante da escassez de evidências científicas de que ajudam na aprendizagem. Segundo Barros, no entanto, elas já dão indicações de que contribuíram também para o desempenho. Ele menciona a Matific, de educação financeira, que é bem avaliada pelos estudantes do 9º ano.

Os alunos mais novos, além da plataforma, passaram a ter aulas de educação financeira com professores. No 5º ano, o desempenho de Matemática no Saresp teve resultados ainda mais expressivos: 58% estão nos níveis adequado e avançado. Mas ainda 12% ficam em níveis abaixo do básico: quando a criança de 10 anos não sabe, por exemplo, o resultado de 132 menos 98.

Educadores têm feito recentemente esforços para mostrar que a Matemática, cercada de tabus, pode ser mais criativa, sem foco na memorização e mais próxima do cotidiano. Pesquisas mostram que trabalhadores em ocupações que usam muito a Matemática têm maior nível de escolaridade e menor taxa de informalidade do que a média geral, o que leva a maiores salários.

Não é possível saber o desempenho dos alunos do ensino médio em São Paulo, etapa que é de responsabilidade do governo do Estado. Isso porque a pasta havia desistido de fazer o Saresp para esses alunos por causa da introdução do Provão Paulista, que seleciona estudantes da rede para as universidades públicas do Estado. Nesta semana, o governo anunciou que o Saresp para ensino médio será feito novamente este ano.

Estratégias devem levar em conta a diversidade da rede, diz especialista

Para a pedagoga Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Cenpec, é importante observar especificidades de cada escola para adaptar as estratégias aos diferentes perfis de classes e não levar à desigualdade, já que uma nota média maior pode esconder resultados ruins em alguns locais.

“As ações precisam dar conta do que ocorre nas periferias das grandes cidades e outras regiões do Estado onde os índices de vulnerabilidade são maiores”, afirma. A rede estadual paulista – a maior do País – tem cerca de 3,1 milhões de alunos.

Outro cuidado, segundo especialistas, é fazer com que os professores atuem para avanços em Português e Matemática, as duas disciplinas cobradas nos exames, mas não deixem de lado outros conteúdos essenciais para a formação dos jovens. “É preciso garantir a aprendizagem geral; o objetivo não pode ser somente ser bem sucedido nas provas.”

Ernesto Faria, presidente do Iede, instituto que analisa dados educacionais, destaca também a necessidade de atualizar as avaliações de aprendizagem aplicadas no País, como o Saresp. “Os exames atuais internacionais, como TIMSS, olham para domínios cognitivos, como conhecimento, aplicação e raciocínio matemático, e o que os estudantes devem mobilizar para responder os problemas”, diz ele.

O Brasil ficou entre as últimas colocações do TIMSS, feito por alunos de 4º e 8º anos nas áreas de Matemática e Ciências. O exame é aplicado a cada quatro anos pela Associação Internacional para a Avaliação do Desempenho Educacional e os alunos brasileiros participaram pela primeira vez em 2022.

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