A recente aprovação do Conselho Nacional de Educação (CNE) de um parecer prévio acrescentou um novo “ingrediente” para uma pauta urgente: a inteligência artificial (IA) na educação. Com inúmeras aplicações à disposição para facilitar e enriquecer o aprendizado, o desafio dos gestores agora é construir e colocar em prática políticas capazes de normatizar a utilização ética e eficaz da inovação nas salas de aula.
Chancelado pelo CNE, o documento estabelece recomendações para a inclusão da IA nos currículos, assim como classifica ferramentas por níveis de risco, com protocolos como revisão humana obrigatória e monitoramento periódico.
O texto, porém, ainda tem um caminho para percorrer, devendo ser submetido à consulta pública e apresentado em seminário antes de seguir para a homologação do Ministério da Educação (MEC).
Apesar disso, as recomendações já conseguem nortear as ações das escolas e gestores de ensino para a aplicação ética e planejada da tecnologia para o enriquecimento acadêmico dos estudantes.
Alguns números ilustram a urgência da pauta. A pesquisa Opinion Box/CX Brain de 2025 noticiada pela CNN Brasil trouxe dados relevantes sobre o comportamento dos brasileiros com relação às novas tecnologias. Segundo o levantamento, 70% dos entrevistados afirmaram utilizar semanalmente ferramentas de IA. Além disso, 97% declararam possuir algum entendimento sobre o assunto.
Inteligência artificial e humana
Com tamanha aderência em diferentes áreas e contextos, a inteligência artificial encontrou na educação um “campo fértil” para a sua proliferação, traçando uma linha tênue, capaz de interferir no desenvolvimento do pensamento crítico caso esse limite seja ultrapassado.
Mas o que fazer na prática para equilibrar essa balança? Como já diz o ditado, “a diferença entre o remédio e o veneno está na dose”. Significa dizer que o desafio não está tanto na escolha das ferramentas, mas nas aplicações e formas éticas de trabalhar com os recursos adequados.
Dessa forma, torna-se indispensável planejar corretamente a implementação progressiva das inovações, com avaliações periódicas e, claro, a promoção de possíveis ajustes necessários. A qualificação dos professores e de toda a equipe pedagógica também torna-se indispensável.
Lembre-se: a IA não substitui o profissional, mas atua em conjunto, oferecendo ao conhecimento humano os instrumentos apropriados para a otimização e qualificação de qualquer atividade.
Um erro comum nas empresas e, consequentemente, nas instituições de ensino é relacionar a inovação como adversária do trabalhador. Entretanto, os resultados positivos são conquistados quando a inteligência artificial e a humana trabalham em “equipe”, combinando suas habilidades para o desenvolvimento de soluções criativas e inovadoras.
Aplicações para a IA
Partindo desse entendimento, existem diferentes formas de a inteligência artificial auxiliar tanto os estudantes quanto os educadores. Plataformas de aprendizado adaptativo, por exemplo, ajustam o ritmo e o nível das tarefas para cada aluno, programando até mesmo possíveis revisões necessárias. Assim é possível que as turmas avancem em velocidades distintas, mas respeitando a individualidade.
Por sua vez, assistentes virtuais treinados com o conteúdo programático das disciplinas respondem a dúvidas durante os estudos fora do horário de aula, evitando ainda que informações rasas, genéricas ou até mesmo erradas sejam transmitidas aos alunos.
Quando corretamente implementada, essa tutoria inteligente não substitui o professor, que continua responsável pelo ensinamento mais aprofundado e detalhado. A ferramenta apenas elimina determinados gargalos capazes de frear o progresso das turmas. Consequentemente, questões mais complexas e abrangentes podem ser trabalhadas com mais facilidade em sala de aula.
Nesse contexto, um ponto muito questionado pela sociedade é o aproveitamento de plataformas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT e similares, para a produção automática de trabalhos. Como destacado anteriormente, o problema não está na inovação, mas na “dose”.
Muito mais do que ofertar ferramentas, as instituições precisam ensinar boas práticas aos estudantes, trabalhando em sala de aula o tema de forma ampla e contextualizada. Em conjunto, um AI content detector auxilia no combate às fraudes, com a análise de padrões específicos e a identificação de possíveis conteúdos ou trechos gerados por inteligência artificial.
O poder dos dados
Além de fiscalizar, a IA traz outros benefícios conectados com a produção de textos: a correção de redações de forma automática, utilizando critérios específicos para os feedbacks, como, por exemplo, a matriz técnica adotada pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Essa análise inicial facilita a atuação do professor, que posteriormente consegue refinar com os estudantes alguns ajustes específicos.
A análise de dados é um dos grandes diferenciais da inteligência artificial.
No campo da educação, esse processo é conhecido como “learning analytics”, em que ferramentas apropriadas conseguem cruzar e avaliar um grande volume de informações, identificando padrões, anomalias e tendências que auxiliam os professores e gestores nas tomadas de decisões.
Para exemplificar, é possível utilizar essa solução para identificar os motivos relacionados com faltas excessivas e abandonos, combatendo assim a evasão escolar. Ou avaliar o desempenho do grupo para, posteriormente, colocar em ação estratégias pedagógicas eficientes para melhorar o rendimento dos alunos.
Estes, claro, são apenas alguns exemplos. Como não faltam ferramentas, o desafio está na implementação gradativa das soluções com estratégia, responsabilidade e ética. Nesse contexto, as diretrizes aprovadas pelo CNE servem como um norte. Com um planejamento correto, a tecnologia atua como um parceiro para enriquecer o conhecimento, assim como para eliminar desigualdades sociais.