Por Aline Rodrigues da Silva
O início da vida escolar costuma ser tratado como um evento simples do calendário familiar. Para a criança, no entanto, representa uma experiência emocional complexa. Mais do que aprender regras e rotinas, quem chega à escola está aprendendo a se separar.
A adaptação escolar não é apenas um desafio individual, mas um processo que envolve escola, família e vínculo. Diante disso, é comum que surja a pergunta: o que exatamente uma criança precisa para se sentir segura ao entrar na escola?
No Colégio Elvira Brandão, partimos da compreensão de que a adaptação escolar não tem uma receita única, mas é orientada por princípios que garantem não apenas uma boa inserção no ambiente escolar, como também o desenvolvimento das potencialidades socioemocionais da criança. Acreditamos que um processo de adaptação bem cuidado tem impactos que se estendem para toda a vida.
Do ponto de vista da Psicologia do Desenvolvimento, a entrada na escola coincide com uma fase crucial de ampliação do mundo social da criança. Como uma escola de orientação sociointeracionista, nossas práticas pedagógicas se fundamentam em teorias que compreendem o desenvolvimento como um processo relacional.
Sob a perspectiva de Lev Vygotsky, a adaptação escolar não é um processo individual, mas essencialmente social. O desenvolvimento acontece nas interações que a criança estabelece com adultos e pares, e a entrada na escola marca uma ampliação significativa desse universo. Ao chegar a um novo ambiente, a criança não está apenas se ajustando a novas rotinas, mas aprendendo modos de se relacionar, comunicar e pertencer. Nesse contexto, o educador exerce papel fundamental como mediador, ajudando a criança a organizar suas emoções por meio da linguagem, da presença e do vínculo. A adaptação acontece, portanto, dentro de uma zona de desenvolvimento em que o apoio do adulto é decisivo: quando a criança se sente sustentada, pode explorar, aprender e, gradualmente, separar-se com mais segurança.
É nesse momento que a criança começa a perceber que é possível estar segura mesmo distante das figuras primárias de cuidado, como pais e familiares. Quando essa experiência não é bem mediada, surgem dificuldades. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando o adulto responsável, ao levar a criança à escola, não permite que ela estabeleça vínculo com os educadores, permanecendo no espaço escolar de forma prolongada ou não permitindo que os educadores se tornem o vínculo da criança, mantendo-se fisicamente presentes do lado e não deixando o adulto interagir e ter espaço de atuação. Nesses casos, a criança tende a não buscar os adultos da escola para receber cuidados e apoio, além de construir uma visão ilusória de segurança: a de que o mundo só é confiável quando seus responsáveis estão presentes. Essa dinâmica pode gerar ansiedades futuras e crenças limitantes sobre o ambiente social.
Por isso, a adaptação escolar se configura como uma experiência estruturante para a construção da autonomia emocional. O sofrimento inicial não indica imaturidade, mas a presença de vínculo e a capacidade de se importar com quem se ama.
À luz das contribuições de Donald Winnicott, outra grande referência no campo do desenvolvimento humano, sabemos que o amadurecimento emocional saudável depende da existência de um ambiente suficientemente bom. Esse ambiente não se restringe ao espaço físico, mas envolve uma atmosfera emocional marcada por previsibilidade, disponibilidade afetiva dos adultos e um olhar atento às necessidades individuais de cada criança.
No Colégio Elvira Brandão, buscamos alinhar expectativas com as famílias e oferecer um espaço de escuta e diálogo. Em alguns casos, possibilitamos períodos de adaptação com flexibilidade de horários, tanto para estudantes novos quanto para veteranos que necessitem desse cuidado, isso porque, na jornada de vida, o estudante pode estar passando por novidades no seu cotidiano, como mudança de residência, um novo integrante na família. Essa estratégia não é necessária para todas as crianças, mas está disponível quando identificamos que pode favorecer a construção de vínculos e a segurança emocional.
Esse olhar individualizado dialoga diretamente com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, proposto por Vygotsky: compreender onde a criança e a família estão, qual é o ponto real de partida e qual o potencial a ser alcançado, para então planejar intervenções que sustentem esse percurso. Afinal, tanto a criança quanto a família precisam de apoio emocional para atravessar o processo de separação.
Vale destacar que a adaptação não acontece quando a criança deixa de chorar, mas quando se sente amparada mesmo diante do desconforto.
John Bowlby, psiquiatra e psicanalista britânico, ao desenvolver a Teoria do Apego, mostrou que a capacidade de se separar está diretamente ligada à qualidade dos vínculos estabelecidos. A escola pode funcionar como uma base segura secundária, desde que respeite o tempo emocional da criança, por isso, no período de adaptação optamos por construir uma rotina em que a criança vá se familiarizando com a rotina escolar, sendo flexibilizado o tempo de permanência durante a adaptação.
Estudos sobre separação e individuação também indicam que afastar-se emocionalmente dos pais é um processo progressivo, e não um evento abrupto. Quanto mais confiança a família transmite por meio de atitudes coerentes, mais a criança tende a se sentir confortável no ambiente escolar. Tornar-se indivíduo implica vivenciar separações, e a entrada na escola é uma das primeiras experiências concretas desse movimento.
Quando a separação ocorre de forma brusca ou sem preparo emocional, a criança pode responder com ansiedade excessiva. Por isso, o objetivo da adaptação não é acelerar a independência, mas sustentar o caminho até ela.
Nesse contexto, o papel da família é fundamental. A criança observa atentamente as reações emocionais dos adultos diante da escola. Não se trata apenas do que se diz, mas, sobretudo, do que se faz. Quando os responsáveis demonstram confiança, mesmo reconhecendo a dificuldade do momento, a criança se sente autorizada a confiar.
Segundo Tânia Zagury, a coerência emocional dos pais é um dos principais fatores de segurança para os filhos. Discursos tranquilizadores perdem força quando não estão alinhados às atitudes. Despedidas claras, afetuosas e firmes comunicam à criança que a separação é temporária e suportável.
É nesse sentido que orientamos nossas famílias: falar sobre a escola com naturalidade ajuda a construir expectativas realistas; nomear sentimentos, sem minimizá-los ou dramatizá-los, favorece a elaboração emocional; manter rotinas previsíveis em casa contribui para a sensação de continuidade; e cuidar da própria ansiedade é uma das formas mais eficazes de ajudar a criança. Despedidas breves e claras, sem desaparecer, mas sustentando a decisão de confiar na escola, são fundamentais para que a criança construa referências positivas de espaço e tempo.
A adaptação escolar não é um teste de resistência emocional, mas uma experiência de construção de confiança. Quando escola e família caminham juntas, formando uma rede de sustentação, a criança pode atravessar esse momento com mais segurança.
Em última instância, aprender a se separar desde cedo é também aprender que o mundo pode ser confiável, mesmo diante dos desafios que a realidade impõe. Acreditar nisso transforma profundamente o processo de adaptação escolar e o desenvolvimento da criança.