O professor de História Roni Miranda, de 44 anos, secretário da Educação do Paraná, conta que chorou ao saber que o Estado havia ficado pela primeira vez no topo dos três rankings do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado nesta quarta-feira, 5. Um feito inédito. Miranda assumiu as cerca de 2 mil escolas estaduais em 2023 depois que Renato Feder, então secretário, foi convidado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para ser o titular da pasta em São Paulo.
Continuou a política de seu antecessor, consolidando uma arrancada no Ideb, que começou há 8 anos. Naquela época, a nodo do Paraná era 3,7 no ensino médio – agora está em 5,1. Este ano, nas séries iniciais do fundamental (1º ao 5º ano), superou até o Ceará no Ideb, principal indicador de qualidade do Ministério da Educação (MEC).
Na rede desde o ano 2000, o secretário já havia sido professor, chefe de regional e diretor na pasta, experiência que ele acredita ser decisiva para ter resultados.
Resultado é palavra comum no discurso de Miranda, o que ainda arrepia os cabelos de muitos educadores. “Acho que sou o único professor de História que não é de esquerda”, brinca. Em entrevista ao Estadão, ele deixa claro que retira do cargo os diretores que não cumprem as metas e conta que focou as aulas de recuperação em porcentagem e artigos de opinião, tópicos que alunos mais erravam nas avaliações.
O Estado ficou conhecido por ter ampliado também o número de escolas cívico-militares (cerca de 15% da rede) e pelo uso disseminado de plataformas digitais, com materiais e planos de aulas pré-estabelecidos, algo que recebe críticas de sindicatos e pesquisadores que veem engessamento do trabalho pedagógico e esvaziamento do pensamento crítico.
“Lógico que a gente cobra resultado. No Paraná ninguém cobrava nada. O professor fazia o que queria em sala de aula”, afirma. “Passamos a cobrar resultados como qualquer outra profissão.”
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
O Paraná foi o único Estado a liderar o Ideb nas três etapas da educação básica, anos iniciais e finais do fundamental e no ensino médio. A que o senhor atribui esse resultado?
Foi um trabalho duro. Apanhamos bastante ao longo do caminho. Conseguir a melhor educação pública do País nas três etapas é um feito inédito e fecha nossa gestão com chave de ouro. O governador (Ratinho Júnior, do PSD) chorou, eu chorei. Foi uma conquista importante para nós. Nos anos iniciais (do ensino fundamental), nas redes municipais, também ajudamos muito. Fui falar com cada prefeito de cada cidade grande – Maringá, Londrina, Curitiba. Eu mostrava o resultado, mostrava onde tinham de atacar, quais eram as escolas municipais que puxavam os resultados deles para baixo. Falava que o secretário tinha de chamar esses diretores, mostrar os resultados, dizer quais eram as habilidades que precisavam olhar, melhorar.
Isso é que o senhor faz na rede estadual? O que tem mudado nos últimos anos dentro das escolas?
Nós organizamos a rede. Unificamos o livro didático, a matriz curricular, o sistema de avaliação e implantamos uma gestão voltada para resultados de aprendizagem. O foco do diretor deixou de ser apenas administrar a escola e passou a ser garantir que o aluno aprendesse.
O senhor fala muito em recomposição da aprendizagem. Como isso funcionou?
Fizemos um mapeamento das habilidades que os alunos mais erravam nas avaliações dos últimos anos e concentramos o trabalho nelas. Criamos um componente específico (uma disciplina) para recomposição em Língua Portuguesa e Matemática no 9º ano e no 3º ano do ensino médio. Tentei fazer no contraturno, mas o aluno não ia. Aí coloquei no horário de aula. Em vez de tentar ensinar todo o currículo novamente, analisamos o que os estudantes realmente não haviam aprendido nos anos anteriores e concentramos o trabalho nessas habilidades. Entregamos currículo, planos de aula e material didático prontos aos professores e acompanhamos constantemente os resultados.
Quais eram essas dificuldades dos alunos? Tem exemplos?
Em Matemática, uma das dificuldades que mais me incomodavam era porcentagem. É um conteúdo usado o tempo todo na vida das pessoas, mas os estudantes tinham muita dificuldade. Então produzimos um material específico sobre isso, tentando aproximar os exercícios da realidade dos alunos, porque muitas vezes o professor explica um conceito que para ele parece simples, mas que não faz sentido para quem está aprendendo. Em Língua Portuguesa, percebemos dificuldade para identificar um texto de opinião. Também trabalhamos isso de forma específica.
Essa questão de cobrança de resultado na educação ainda é questionada por alguns setores da educação. Fala-se de empregar uma lógica de empresa.
Lógico que cobramos resultado. No Paraná, ninguém cobrava nada. O professor fazia o que queria em sala de aula. Passamos a cobrar resultado como qualquer outra profissão. E isso deu resultado. Já houve mais resistência. Hoje é mais uma crítica da oposição. Mas o resultado não é do Roni nem do Ratinho. O resultado é deles. É fruto do trabalho dos professores. Hoje, eu trouxe esses professores para comemorar comigo, coloquei do meu lado, principalmente os professores de recomposição de aprendizagem.
O senhor tira do cargo o diretor que não entrega resultados?
Tiro mesmo. Sai uma média de 100 a 120 por ano, cerca de 5%. Pensa bem: um diretor ruim, numa escola de 500, 600 alunos, são 600 vidas que estão sendo comprometidas. Não estou mandando ninguém embora. O diretor é professor concursado. Ele volta para a sala de aula. Talvez seja um excelente professor, mas não deu certo como diretor. Olho sempre a frequência, o resultado do Ideb. Por exemplo: quem caiu esse ano, já vou olhar.
E quando cumprem, como é bônus dado a eles?
Hoje, o professor e os demais funcionários recebem R$ 3 mil se a escola alcançar a meta do Ideb. Se ele bater acima de 50% da meta, ou seja, 50% mais um, recebe 50% do bônus, R$ 1,5 mil. Os diretores, além disso, recebem gratificação, que varia de R$ 1 mil a R$ 1,8 mil, de acordo com o desempenho.
A aprovação no Paraná é alta, está em 98%, o que entra no cálculo do Ideb. Há também críticas de que o Estado esteja aprovando mais os alunos para subir no índice.
Ouvi isso. Mas aí digo: esquece o Ideb e olha só a nota do Saeb. A gente foi muito bem também no Saeb em todas as etapas. Em Matemática, a gente saiu do nível 2, o Brasil todo está no nível 2. Passamos para nível 3 (a nota foi de 288, numa escala até 500, e é a maior do País, no ensino médio). Aqui não tem aprovação automática, o que a gente faz é um processo de recomposição da aprendizagem. Todo final de trimestre, a gente olha os resultados, vê o que que os alunos não aprenderam, quais são esses estudantes e faz um trabalho personalizado. Isso em vez de falar: “Ah, reprova ele”. Quando eu era diretor de colégio, tinha um professor de Física que reprovava o aluno e até passava a mão na barriga, como se tivesse satisfeito. Isso não pode, é penalização.
Renato Feder, ex-secretário do Paraná e atual de São Paulo, trouxe para cá parte das políticas daí. Por que elas não tiveram o mesmo resultado? Não dá para fazer aqui o que foi feito aí?
Dá para fazer. Acho que o Feder é um cara muito inteligente, bem-intencionado. Mas tenho uma coisa: eu fui professor da escola, fui diretor. Ele precisa de alguém que tenha essa sensibilidade da escola, saiba como falar, como dar uma palavra, uma frase para os professores, para os estudantes, principalmente para os professores e diretores.
O senhor acha que os professores veem o senhor como um deles?
Sim. Quando tem crítica, muitas vezes ela nem vem para mim, vai para o governador. É diferente, porque vim da rede. Fui professor, fui diretor, fui chefe de núcleo. Conheço a escola por dentro. Hoje não criticam nem mais a questão das metas. Só o pessoal que é oposição mesmo. Sou da rede e posso voltar a dar aulas ano que vem (quando acaba a gestão de Ratinho Jr). Sou professor de História. Sou o único professor de história que eu conheço que não é de esquerda.
O senhor se considera de direita ou de centro?
Eu gosto da questão social da esquerda e da meritocracia da direita. Então, acho que sou de centro.
Uma grande dificuldade das redes muitas vezes é engajar professores e diretores na política educacional nova.
Sim, isso é meu grande trunfo, né? Consegui fazer. Gosto muito de comunicar. Não sou um comunicador de formação, mas gosto de entender como falar, de como toco o coração de um professor. Mesmo que ele discorde de mim, consigo sensibilizar para aquela ação, aquele problema.
O senhor também ampliou muito o número de escolas cívico-militares, um modelo polêmico. Por quê?
Investimos em escolas cívico-militares porque acreditamos muito na disciplina e no foco. Isso deixa a escola mais organizada. Ainda estou analisando os resultados específicos delas nesse Ideb, mas, em média, elas costumam ter desempenho melhor do que as escolas regulares. Agora, não existe bala de prata. O Paraná tem escola indígena, quilombola, do campo, profissional, com parceiros privados, PPP, cívico-militar…. Para muitas escolas funciona o cívico, para outras não. O tempo integral também. Cada modelo funciona melhor para uma realidade. Não dá para achar que vai ter uma carta mágica que vai resolver todos os problemas. Se existisse solução única, o problema da educação brasileira já teria sido resolvido.
Se o Paraná não tivesse escola cívico militar, acha que o resultado seria o mesmo?
Não, seria um pouquinho menos. Porque na cívico, consigo ter um diretor focado e o professor muito mais preocupado em ensinar do que fazer o trabalho disciplinar. Tem os monitores militares que cuidam da disciplina, os alunos respeitam, ficam sentados em silêncio. E aí o professor só vai dar aula, tem de gastar energia para os alunos aprenderem, não ficar pedindo para sentar.
E a educação profissional e tecnológica ajudou também?
Isso é também um grande legado. Já temos 130 mil alunos fazendo educação profissional tecnológica no ensino médio. Ele passa a ver o significado do que está aprendendo. Ele pensa: “estou aprendendo a profissão, vou usar isso”. Começa a fazer estágio, trabalha como jovem aprendiz. Há dois meses, a gente fez aqui na rede estadual 350 mil carteiras de trabalho para os estudantes em parceria com o Ministério do Trabalho. Ministério do Trabalho do PT. Nós somos oposição, mas para mim sempre vai ser o estudante em primeiro lugar. Assinamos o convênio com a Universidade Federal do do Paraná (a UFPR). É a primeira universidade federal que vai usar a nossa avaliação para os estudantes ingressarem. Toda a reitoria é de esquerda, PT, PSOL, eu me relaciono. Para mim, vai ser o estudante a prioridade.