Nessa volta às aulas, talvez a pergunta mais importante a se fazer nas reuniões de começo de ano nas escolas não seja sobre o que as crianças vão aprender. Mas, sim, quanto tempo elas terão de recreio. Os colégios costumam reduzir os intervalos conforme os alunos avançam de série, com o argumento de que o conteúdo em sala é mais importante para a aprendizagem. Mas as pesquisas apontam justamente o contrário. Inclusive para os adolescentes.
Minimizar ou eliminar o recreio pode ser, ironicamente, contraproducente para o desempenho acadêmico. O tempo livre, não estruturado – em que os estudantes correm, brincam, fazem escolhas e lidam com conflitos próprios da convivência – promove não apenas a saúde física e o desenvolvimento social, mas também melhora a aprendizagem.
Essas pausas otimizam o funcionamento do cérebro. Ao aprender algo novo, é preciso tempo para organizar e armazenar informações. O cérebro precisa sair do modo de alerta para, de alguma forma, decantar o que foi visto e ouvido. Sem isso, a aula corre maior risco de ser rapidamente esquecida.
A atenção também se esgota após períodos prolongados de esforço mental. Intervalos permitem que o cérebro “recarregue”, reduzindo a fadiga cognitiva e mantendo o aluno mais disponível para aprender na aula seguinte.

É exatamente o que os cientistas recomendam para adultos em jornadas longas de trabalho: pausas curtas ao longo do dia aumentam a produtividade. Ainda assim, parece haver mais resistência quando se fala de crianças e adolescentes. Por que aceitar que 20 minutos de recreio em 5 horas de aula sejam suficientes?
A importância do recreio foi reconhecida pela Academia Americana de Pediatria em relatório publicado na revista científica Pediatrics. Diz a entidade: “O processamento cognitivo e o desempenho acadêmico dependem de pausas regulares no trabalho concentrado em sala de aula. Isso se aplica igualmente a adolescentes e crianças mais novas. Para serem eficazes, a frequência e a duração das pausas devem ser suficientes para permitir que o aluno relaxe mentalmente”.
A academia de pediatria também recomenda que o recreio ocorra antes da refeição, seja almoço ou lanche. Caso contrário, além de perderem o tempo livre comendo, crianças e adolescentes se apressam na alimentação com medo de encurtar ainda mais o intervalo.
E é fundamental que a perda do recreio não seja usada como punição para mau comportamento. Pesquisas indicam que alunos que fazem pausas regulares apresentam, inclusive, melhora na disciplina.
O que acontece no recreio é um complemento único à sala de aula. Habilidades socioemocionais tão valorizadas hoje em dia, como comunicação, negociação, cooperação, resolução de problemas e enfrentamento de desafios, não são apenas a base de um desenvolvimento saudável, mas parte essencial da experiência escolar.
O dado alentador nesse cenário é que os celulares já não fazem mais parte desses momentos, após terem sido proibidos nas escolas de todo o Brasil. Isso ajuda a devolver ao intervalo aquilo que ele deveria ser, um tempo de movimento, conversa, brincadeira e interação real, longe das telas.
Se queremos alunos mais atentos, mais regulados emocionalmente e mais capazes de aprender, talvez seja hora de parar de tratar o recreio como tempo perdido. Ele não compete com a aprendizagem. Ele faz parte dela.