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‘Bafo’ e trocas no intervalo: como febre das figurinhas da Copa interfere na rotina escolar

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Ano de Copa do Mundo também é ano de álbum de figurinhas da Copa do Mundo. A poucos dias do início do Mundial, crianças e adolescentes – e também os adultos – estão em polvorosa para trocar os colantes e completar o álbum que neste ano tem quase mil espaços em branco.

E, quando envolve crianças, o assunto inevitavelmente chega às escolas. Nesse cenário, as instituições têm aproveitado a febre para transformá-la em oportunidade pedagógica, liberando a atividade durante os intervalos.

Há troca clássica, de uma figurinha por outra – as brilhantes valem mais -, ou o tradicional “bafo”, brincadeira em que os jogadores batem as mãos sobre um monte de figurinhas espalhadas no chão para tentar virá-las. As que viram passam a ser de quem conseguiu o feito.

No Pueri Domus, troca de figurinhas tem ajudado a proporcionar novas amizades entre os alunos.
No Pueri Domus, troca de figurinhas tem ajudado a proporcionar novas amizades entre os alunos.

Os educadores veem na brincadeira uma oportunidade de os estudantes desenvolverem habilidades como negociação, respeito às diferenças, organização e tomada de decisões. “Os alunos também aprendem a lidar com frustrações, valorizar o outro e compartilhar interesses em comum, fortalecendo um ambiente acolhedor e colaborativo”, diz Esther Carvalho, diretora-geral do Colégio Rio Branco.

O Rio Branco inaugurou um espaço temático exclusivo para as trocas, e tem promovido campeonatos de “bafo” entre crianças da mesma faixa etária. Em sala de aula, os professores têm reforçado a importância de saber ganhar e perder, estratégias de negociação, o significado de colecionar e até a possibilidade de não completar o álbum. Além disso, também têm sido abordadas curiosidades sobre diferentes culturas ao redor do mundo, aproveitando o contexto da Copa.

Colégio Rio Branco tem espaço exclusivo para trocas de figurinhas, e tem promovido campeonatos de “bafo”.
Colégio Rio Branco tem espaço exclusivo para trocas de figurinhas, e tem promovido campeonatos de “bafo”.

Reforço nas interações sociais

Na Escola Bilíngue Pueri Domus, unidade Aclimação, as crianças dizem que o momento de escambo garante diversão e conexão com alunos de outras turmas, proporcionando novas amizades. “A troca une as pessoas, nós do 6º, podemos trocar com o pessoal do 9º. É muito mais divertido do que ficar no celular”, diz Miguel Bellas, de 11 anos.

Miguel e o colega Rafael Cipriani, 11, são especialistas no bafo. Rafael já ganhou mais de 70 figurinhas de uma vez. “Não deu briga porque a pessoa aceitou, quando a gente entra no jogo, sabemos os riscos”, diz ele. Nesse caso, ele conta que precisa ser estratégico e não apostar todas as figurinhas repetidas de uma vez, sabendo que pode perdê-las numa só jogada.

Catarina Vargas, de 11 anos, também troca na escola e conta que além de garantir as figurinhas ainda aprende como negociar, e têm lições sobre ganhar ou perder. A possibilidade ainda vai garantir que ela complete o álbum mais rápido: faltam menos de 100 figurinhas para ela chegar lá. A aluna Maria Clara Peruchi também está adiantada no processo. “Trocar na escola é muito divertido.”

O fortalecimento dessa convivência é um dos pontos fortes da iniciativa, segundo Lilian Damasceno, diretora da Pueri Domus. Ela lembra que esta geração tem mais dificuldade de interação fora das telas e as figurinhas têm ajudado a ressignificar esse convívio social.

“É muito formativo em vários sentidos, eles podem fortalecer as habilidades de negociação, resiliência e paciência que são exigidas na vida”, diz Lilian. Para ela, escola não é lugar de proibição, e sim, de formação, mas, às vezes, é necessário relembrar os combinados de que a prática é permitida somente nos intervalos. “Tem hora e lugar para isso.”

‘Diversão analógica’

No Centro Educacional Pioneiro a troca de figurinhas também está liberada nos momentos de entrada, intervalo e saída das aulas. A recomendação geral é para que os alunos não levem os álbuns, apenas as figurinhas. “Até agora a balança tem sido bastante positiva, é uma interação para o intervalo, uma diversão mais analógica para esses momentos”, afirma Mário Fioranelli, diretor pedagógico da unidade.

Ele também enxerga nas atividades uma oportunidade de desenvolver a capacidade de negociação, habilidade essencial para a vida em sociedade. A temática inspirou ainda o guia das viagens de estudo do meio, que será apresentado em formato de álbum de figurinhas.

A proposta se estende a outras iniciativas: os alunos do 9º ano estão vendendo figurinhas da Copa nos eventos da unidade que arrecadam verba para a viagem comemorativa do fim do ciclo. No último evento, foram comercializados cerca de 5 mil envelopes.

Descarte sustentável

A sustentabilidade também entrou na onda das coleções e algumas escolas aproveitaram para reforçar, na prática, o conceito. Por ser siliconado, aquele papel que fica atrás da figurinha autoadesiva chamado “liner”, não é reciclado nas cooperativas e centros de triagem porque exige uma tecnologia específica. Por isso, as unidades têm encaminhado o material recolhido para empresas que possuem condições de reciclá-lo, como a Polpel Fibras e Recycle.

O Colégio Santa Catarina, unidade Mooca, além de abrir espaço para a troca de figurinhas entre os alunos dentro da unidade, chamou a comunidade para participar de uma pintura coletiva na Rua Marquês de Valença, no Alto da Mooca, em alusão à Copa. Estudantes, professores e familiares se reuniram para pintar a rua e enfeitá-la com bandeirinhas nas cores verde e amarela.

“A mobilização teve como propósito envolver a comunidade neste sentimento de união e fraternidade provocado em tempos de Copa do Mundo, onde todos se juntam para torcer por nossa seleção”, diz Bruno Catâneo, diretor geral do Colégio Santa Catarina, em São Paulo.

Alunos do Colégio Santa Catarina participaram de uma pintura coletiva na rua.
Alunos do Colégio Santa Catarina participaram de uma pintura coletiva na rua.

O Colégio Visconde de Porto Seguro também montou uma área que oferece atrações interativas, como chute a gol e exposição de uma réplica da taça e da bola oficiais do torneio. Fora desse espaço, a troca de figurinhas e o “bafo” tomaram conta dos intervalos, gerando uma integração e um engajamento coletivo. Além disso, a escola organiza mais uma edição da “Copa Porto” em que simula a estrutura profissional da Copa do Mundo desde o sorteio das equipes até a arbitragem.

“Trazer essa temática para a escola é essencial porque nos permite ir muito além das disciplinas tradicionais. Por meio dela, trabalhamos intensamente o espírito de colaboração, o respeito mútuo, a celebração da diversidade de culturas e o conceito de fair play”, conta Alexandre Hammer Calixto, diretor institucional de esportes e cursos extras do Porto Seguro.

No Colégio Visconde de Porto Seguro,  troca de figurinhas e o “bafo” gera  integração e engajamento coletivo, diz a direção.
No Colégio Visconde de Porto Seguro, troca de figurinhas e o “bafo” gera integração e engajamento coletivo, diz a direção.

Troca só do lado de fora

Há ainda as escolas que estão no time que proíbe as trocas dentro das unidades, como o Colégio São Francisco Xavier, o Sanfra. Em nota, a escola informou que a decisão ocorreu para evitar a perda dos objetos e situações de desequilíbrio e conflito entre as crianças. Além disso, nem todos os alunos participam dessas atividades, o que pode ocasionar momentos de exclusão, segundo a escola.

“Não por isso o tema Copa do Mundo deixa de ser um tema trabalhado. O evento está sendo abordado pela equipe pedagógica em diferentes propostas educativas, sempre considerando a universalidade dos alunos, sem restringir a experiência apenas àqueles que participam da coleção”, diz a nota. As trocas na saída da escola, acompanhadas pelas famílias, estão permitidas.

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