A química entre Trump e Lula não bastou para impedir uma série de decisões contrárias ao governo brasileiro nos últimos dias. Primeiro, dias após a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca, os Estados Unidos anunciaram que passariam a tratar as duas maiores facções criminosas do Brasil como organizações terroristas. Em seguida, acusaram o Brasil de práticas comerciais discriminatórias em dois processos separados, com tarifas de até 37,5% sobre parte das exportações brasileiras.
Atribuir todas essas decisões ao interesse de Trump nas eleições brasileiras é muito simplista. É claro que há um alinhamento ideológico entre o Flávio e o governo norte-americano, o que lhe confere maior acesso a autoridades nos Estados Unidos.

Mas cada uma dessas decisões foi tomada em um ambiente complexo, com disputas dentro do próprio governo norte-americano, e se enquadra em uma lógica mais ampla da política externa de Trump. Por isso, será difícil revertê-las por iniciativa do Brasil, seja pela diplomacia oficial, seja pelos apelos de Flávio para a retirada das tarifas. Aos candidatos, resta adaptar o discurso.
No caso da designação de PCC e CV como organizações terroristas, a medida se enquadra na nova estratégia dos Estados Unidos para a América Latina, que coloca o crime organizado como prioridade de ação. Outros 15 grupos em cinco países receberam o mesmo tratamento ao longo de 2025, e parecia uma questão de tempo até que o Brasil figurasse nessa lista.
O tema é polêmico em Washington; parte do governo norte-americano concorda com a análise de autoridades brasileiras de que essa designação pode ser contraproducente, ao atrapalhar a cooperação entre os países em temas que passam a ser tratados como assuntos de segurança nacional. A diplomacia brasileira, com vários gestos para reforçar a cooperação bilateral em segurança pública, conseguiu adiar a decisão, mas não por muito tempo.
Prevaleceu o grupo no Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, que defendia a designação como instrumento para fortalecer a política regional dos Estados Unidos. Agora, a tendência é que ela permaneça em vigor, e o mais importante será entender como esses novos instrumentos serão utilizados. O risco de ação militar é remoto, mas a indicação de pessoas e empresas como alvos de investigação ou sanções dará pistas sobre o tamanho do risco econômico e financeiro para o país.
Em relação às tarifas, os dois processos concluídos recentemente fazem parte da estratégia de Trump de manter uma muralha tarifária para tornar a “América grande de novo”. Ele precisava dessas investigações formais, na Seção 301, para tapar o buraco deixado pela revogação das tarifas emergenciais, implementadas no início de seu mandato.
As acusações contra o Brasil e outros países são apenas uma justificativa formal; negociadores dos Estados Unidos reconheciam, em caráter reservado, que os argumentos técnicos do Brasil eram sólidos, mas que os processos provavelmente levariam a novas tarifas de qualquer maneira, por determinação do governo.
Em um cenário de mudança de governo, é ingênuo pensar que Trump baixará as tarifas apenas por ter Flávio como contraparte. Os Estados Unidos, provavelmente, esperarão concessões e outros gestos concretos do novo governo antes de rever as tarifas, como têm feito com todos os outros países, mesmo os mais alinhados ideologicamente.
Em ambos os casos, uma mudança de cenário depende mais da dinâmica interna em Washington do que de negociações ou conversas com o Brasil. Ainda há um canal direto entre Lula e Trump, mas seria otimista demais esperar que ele resolva essa situação.
O saldo de tudo isso, para as eleições, é relativamente neutro; Flávio marcou alguns pontos ao constranger Lula com a designação das facções como terroristas, pois essa medida é apoiada pela maioria da população (53%, de acordo com PoderData). Mas as tarifas logo amorteceram esse efeito, e colocaram Flávio novamente na defensiva. Por isso, a essa altura, e considerando os índices atuais de popularidade, Lula permanece como modesto favorito à reeleição.