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Inteligência artificial ajuda a Justiça a falar a língua do cidadão

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Há mais 30 anos, a Lei dos Juizados Especiais prometeu uma Justiça mais simples e informal. A ideia era poderosa: em causas de menor valor, até 20 salários mínimos, a pessoa poderia procurar diretamente o Judiciário, sem precisar contratar advogado, para resolver conflitos do cotidiano. Uma compra não entregue. Uma cobrança indevida. Um serviço mal prestado. Um problema de consumo que ninguém resolveu.

Mas, entre a promessa da lei e a experiência concreta do cidadão, existe uma distância que nem sempre aparece nas estatísticas. A lei dispensou o advogado, mas o sistema continuou falando uma língua difícil. Para ingressar com uma demanda, o cidadão precisa compreender campos, formulários, documentos, anexos, valor da causa, competência, pedidos e narrativa dos fatos. Precisa transformar a sua história em linguagem processual.

Tribunal de Justiça do Paraná; ferramenta utiliza IA e linguagem simples para ajudar na construção de petição, diz autora
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E aí surge o paradoxo: o cidadão sabe contar sua dor, mas muitas vezes não sabe traduzi-la para o processo.

É nesse ponto que a inteligência artificial pode cumprir um papel público relevante. Não para substituir juízes. Não para decidir processos. Não para automatizar a Justiça. Mas para aproximar o cidadão de uma porta que, embora formalmente aberta, muitas vezes continua difícil de atravessar.

O Ajuizei nasce dessa inquietação. Desenvolvido no Tribunal de Justiça do Paraná, o projeto propõe um assistente virtual para auxiliar pessoas sem advogado a formular demandas nos Juizados Especiais Cíveis. A ferramenta utiliza inteligência artificial e linguagem simples para organizar as informações relevantes e ajudar na construção de uma petição inicial mais compreensível.

A lógica é simples: se o cidadão consegue dizer “comprei e não recebi”, “fui cobrado indevidamente” ou “tentei resolver e não consegui”, o sistema deve ser capaz de acolher essa narrativa e auxiliar na sua organização. A tecnologia entra como ponte entre a linguagem da vida e a linguagem do processo.

Essa talvez seja uma das maiores mudanças de perspectiva. Durante muito tempo, a transformação digital no Judiciário foi associada à digitalização de processos, à criação de sistemas eletrônicos e à automação de tarefas internas. Tudo isso é importante. Mas colocar um formulário difícil na internet não significa, necessariamente, ampliar o acesso à Justiça. Às vezes, apenas mudamos a barreira de lugar: ela sai do balcão e vai para a tela.

Hoje, acessar a Justiça exige também letramento digital. É preciso saber usar sistemas, preencher campos, anexar documentos, lidar com senhas, interpretar orientações e compreender uma linguagem que nem sempre foi escrita para o cidadão comum. Por isso, inovação no Judiciário não pode ser apenas a adoção de novas ferramentas. Precisa ser redesenho da experiência.

O Ajuizei busca exatamente isso: repensar a porta de entrada. A proposta é que o cidadão seja guiado por uma interface conversacional, com perguntas mais claras, orientações em linguagem acessível e apoio na estruturação da demanda. Em vez de exigir que a pessoa compreenda previamente a lógica jurídica do processo, o sistema a acompanha na tradução da sua história para os elementos necessários ao ajuizamento.

Na prática, a ferramenta pode ajudar a identificar dados das partes, organizar a narrativa, sugerir a apresentação de documentos pertinentes, apoiar a formulação dos pedidos e reduzir erros que geram retrabalho. Isso interessa ao cidadão, que passa a ter mais autonomia. Interessa ao Judiciário, que recebe demandas mais claras. E interessa à sociedade, porque uma Justiça mais compreensível contribui para a pacificação social.

O Ajuizei não julga. O Ajuizei não decide. O Ajuizei não substitui a atuação humana. Sua função é outra: traduzir e organizar.

A arquitetura prevê diferentes funções, como preenchimento guiado dos dados do formulário inicial, revisão de informações, validação de dados, leitura de documentos por OCR e apoio à redação. A ideia não é entregar tudo a um único modelo de inteligência artificial, mas criar uma estrutura controlada, com etapas, salvaguardas e governança.

E há uma potencialidade para o futuro: permitir que o cidadão narre sua demanda por áudio. Em uma próxima versão, o sistema poderá transformar a fala em texto estruturado para apoiar a elaboração da petição. Essa evolução é decisiva porque amplia o acesso de pessoas com menor familiaridade com escrita formal, pessoas com dificuldade de digitação, cidadãos que usam o celular como principal meio de acesso digital e todos aqueles que conseguem contar oralmente sua história, mas enfrentam barreiras diante de um formulário escrito.

Transformar áudio em petição não é apenas um recurso tecnológico interessante. É uma forma de levar a sério o princípio da oralidade que inspirou os Juizados Especiais. Se os Juizados nasceram para ser mais simples e informais, a tecnologia deve fortalecer essa vocação.

A IA é ferramenta. E, como todo instrumento público, deve ser avaliada pela sua capacidade de produzir valor social: reduzir barreiras, ampliar compreensão, melhorar fluxos, proteger direitos e aproximar instituições das pessoas.

O avanço não está em dizer que o Judiciário passou a usar inteligência artificial. Está em perguntar para quê. Se a resposta for apenas velocidade, talvez estejamos usando pouco do seu potencial. Mas se a resposta for acesso e inclusão, então a IA pode ajudar a cumprir uma promessa antiga: fazer com que a Justiça seja, de fato, acessível.

A Justiça não se torna mais democrática quando exige que o cidadão aprenda a falar processo. Ela se torna mais democrática quando o processo aprende a escutar o cidadão.

O Ajuizei aponta nessa direção. Não como solução mágica, nem como substituto das pessoas, mas como um passo concreto para que a tecnologia deixe de ser barreira e passe a ser ponte. Uma ponte entre o conflito vivido e o direito reconhecido. Entre a dor narrada e o pedido formulado. Entre o cidadão e uma Justiça que precisa ser não apenas digital, mas simples e compreensível.

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