O plano de governo de Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo PL, dedica três páginas para descrever como seria a sua política externa. Em termos econômicos, o foco está na abertura comercial, na atração de investimentos, na retomada da adesão à OCDE (um “clube” de economias majoritariamente desenvolvidas) e na integração tecnológica com outros mercados.
O texto, porém, responde apenas de forma oblíqua como seria a relação com os Estados Unidos de Donald Trump. Em contradição com gestos e palavras do candidato nos últimos meses, afirma que a diplomacia não será guiada pela ideologia e que negociará com todos os parceiros, entre os quais a China, a União Europeia e os Estados Unidos, de acordo com a defesa do interesse nacional, não com a “simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo”. Certamente é o que a maioria dos eleitores gostaria de escutar.

O próprio Flávio, porém, já externou algumas vezes sua convicção de que terá, com Trump, uma relação privilegiada, por conta da afinidade ideológica. Em 2025, o bolsonarista comemorou tarifas e sanções dos Estados Unidos contra o Brasil como instrumentos de pressão para evitar o destino penal de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Depois, reformulou sua posição a respeito das tarifas de importação americanas, dizendo-se contrário a elas. Primeiro, porque beneficiariam Lula nas eleições. Segundo, porque, segundo Flávio, uma vez na Presidência, ele poderá negociar as questões comerciais “de igual para igual” com Trump. Esse argumento parte do princípio de que na origem das tensões atuais entre Estados Unidos e Brasil estão apenas as diferenças políticas entre Trump e Lula, e nada mais.
Se assim fosse, é de se inferir que Flávio não teria dificuldade em ceder às condições de ordem econômica contidas na lista de 21 exigências que os Estados Unidos fizeram ao Brasil no ano passado, conforme revelado pelo Estadão: mudanças na gestão do Pix, compra de aviões americanos, ingerência nas exportações de soja, preferência na exploração de terras raras, entre outras. Em troca, Trump pouparia o Brasil das tarifas proibitivas e os dois países viveriam felizes para sempre. Mas não é tão simples.
A afinidade ideológico-partidária como parâmetro para a aproximação entre dois países encontra limites quando há outras variáveis — por exemplo, a nova conjuntura geopolítica (com a ascensão tecnológica da China) ou a influência dos interesses empresariais.
Por conta dessas variáveis, por exemplo, até o plano de governo de Jair Bolsonaro em 2022 enfatizava a atuação do Brasil no Brics. Já seu filho, Flávio, cogita deixar esse grupo de países emergentes, que enfrenta a antipatia de Trump.
O presidente americano está disposto a exigir mais de governos alinhados. O Brasil está disposto a ceder?