Como foi a escola hoje? “Legal.” E o que você fez? “Nada.”
Quem tem adolescente em casa provavelmente conhece esse diálogo. A criança que antes contava tudo passa a responder com monossílabos, fecha a porta do quarto e parece considerar qualquer pergunta dos pais uma espécie de interrogatório. Cansados de insistir, muitos pais acabam desistindo.
O Pisa, a maior avaliação de estudantes do mundo, feito com alunos de 15 anos de 91 países, traz mais um argumento para continuar tentando: estudantes que relatam receber mais apoio da família tendem a ter melhor desempenho em Ciências e atitudes positivas em relação à aprendizagem. Os resultados foram divulgados neste mês pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
E não é sobre ajudar na lição de casa ou controlar as notas. A associação positiva aparece principalmente quando os pais demonstram interesse pela vida escolar cotidiana, perguntam o que o filho fez e aprendeu naquele dia, querem saber como ele está indo e conversam sobre eventuais problemas na escola.
Em países da OCDE, foi registrado um aumento de 26 pontos na nota dos alunos que dizem que os pais conversam com eles sobre como foi o dia de escola com frequência. No Brasil foram 17 pontos. Para se ter uma ideia, a escala do Pisa considera a diferença de 20 pontos como um ano a mais de escolaridade.
Falar sobre o futuro parece ter um efeito diferente. Na média dos países da OCDE, quanto mais os estudantes relatam conversar com os pais sobre sua educação futura, menor é o desempenho em Ciências. Isso não significa, evidentemente, que falar de faculdade ou profissão prejudique a aprendizagem.
A própria OCDE lembra que pais de alunos que já tenham dificuldades podem justamente falar mais sobre o futuro na tentativa de motivá-los. Assim, a associação pode funcionar no sentido contrário: alunos que estão enfrentando mais dificuldades ouvem mais esse tipo de conversa.
No Brasil, aliás, acontece o contrário. A associação entre conversar sobre a educação futura e o desempenho em Ciências é positiva, ou seja, aumenta a nota em 9 pontos. O relatório não explica por que o país se diferencia nesse ponto. Uma possibilidade é que, por aqui, falar de faculdade, profissão e futuro tenha um componente maior de incentivo e de expectativa de mudança de trajetória.
Há ainda outra vantagem. A mentalidade (mindset) de crescimento, que é a ideia de que nossas capacidades podem se desenvolver com esforço, estratégias e aprendizagem, também aparece mais entre estudantes que relatam maior apoio dos pais.
O que preocupa é que as conversas do dia a dia estão diminuindo. Nos países da OCDE, caiu de 77% para 71% entre 2022 e 2025, a parcela de estudantes que diz que os pais perguntam pelo menos uma vez por semana o que fizeram na escola. No Brasil, a queda foi ainda maior: de 62% para 51%.
O adolescente pode revirar os olhos, responder “nada” ou “não lembro” e parecer absolutamente desinteressado em contar o que aconteceu. Isso não significa necessariamente que não queira que os pais se interessem. Pode significar apenas que conversar deixou de ser fácil. É preciso insistir.
Pesquisa recente feita pelo IBGE com meninos e meninas de 13 a 17 anos mostrou neste ano que menos adolescentes acham hoje que seus pais entendem seus problemas, são 63%. E cerca de 26,1% deles afirmam sentir constantemente que ninguém se preocupa com eles.
Além da aprendizagem mostrada pelo Pisa, manter esse canal aberto é crucial para o vínculo entre pais e filhos, para mostrar diariamente que os adolescentes são enxergados e cuidados, que seus problemas são valorizados mesmo que nem sempre os adultos façam o que eles querem. Isso protege contra vulnerabilidades e ainda ajuda a família a perceber quando alguma coisa não vai bem.
Não é preciso transformar o jantar numa reunião pedagógica. Nem questionar toda noite quanto o filho tirou na prova. Pode ser uma pergunta simples, como “O que você aprendeu hoje que achou interessante?” E, se a resposta for “nada”, vale tentar de novo amanhã.