A tarde trazia incertezas entre os assessores das campanhas de Ronaldo Caiado (PSD) e de Romeu Zema (Novo): todos se perguntavam se Flávio Bolsonaro manteria sua participação no debate previsto para a noite desta quinta-feira, dia 1º de outubro. Não que isso fosse mudar muita coisa no quadro que se desenha para o primeiro turno da eleição presidencial.

Caiado, por exemplo, se preparava para, terminado o debate, voltar para Goiás, onde passou os últimos dez dias em campanha. Seus assessores seguiriam ainda na madrugada de sexta-feira, 2 de outubro, para acompanhar o candidato em carreatas e caminhadas debaixo do sol goiano.
O pessedista desistiu da campanha nacional e resolveu se concentrar em seu Estado por três razões. A primeira é fazer o sucessor, Daniel Vilela (MDB). A segunda é emplacar sua mulher, Gracinha Caiado, como senadora e, por fim, impedir que Flávio Bolsonaro (PL) tenha mais votos do que ele em seu Estado.
Zema se dava por satisfeito em estar no debate. A turma que se acostumou a acompanhar o ex-governador de Minas Gerais em suas visitas a Araxá (MG) estava descontraída. Nada entre os assessores denunciava algum plano ou anúncio bombástico, como a tão desejada — pelos bolsonaristas — desistência do candidato em favor de Flávio. Uns como outros passaram a se interrogar sobre outra incógnita que surgira em cima da hora: Renan Santos (Missão) conseguiria na Justiça uma decisão determinando a sua participação no evento?
A semana decisiva da campanha presidencial colocava os marqueteiros em segundo plano e passava para o primeiro as equipes jurídicas dos partidos. Foi assim que Zema conseguiu que o ministro Nunes Marques o colocasse na Globo. E foi assim que surgiram duas novas decisões, em cima da hora. A primeira a chegar nos bastidores do debate foi a certeza de que Renan conseguiria com o ministro Gilmar Mendes aquilo que outros lhe negaram: uma ordem para poder se exibir no tradicional debate eleitoral.
Mas, pouco antes da confirmação do STF, outra decisão do TSE, que impedia que a o púlpito vazio de Luiz Inácio Lula da Silva fosse exibido no debate, despertou nos convidados o sentimento de que a Justiça extrapolara, mais uma vez, resvalando na censura pura e simples. Lula desistira antes de ir ao debate e sabia que essa era a regra. Por volta das 19h45, chegava outra notícia, a de que Flávio desistira de comparecer ao debate. A primeira dúvida do dia parecia finalmente respondida. O que ninguém aguardava era o que se seguiu depois.
Às 20h32, uma porta-voz da Rede Globo entrou no recinto onde os convidados aguardavam o início do debate, pediu a atenção de todos e anunciou: “Oi, boa noite. Queria agradecer a presença de todos e informar que o debate foi cancelado. Tivemos duas decisões da Justiça proferidas agora há pouco que impactam bastante nas regras do debate, regras previamente acordadas. E a Globo decidiu, em razão da insegurança jurídica, cancelar o debate desta noite”.
O anúncio pegou todos de surpresa. Era a primeira vez desde a redemocratização que a Globo cancelava um debate presidencial. Já era inédito que os dois candidatos mais bem colocados desistissem de participar. Com o anúncio que durou cerca de 20 segundos, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, reagiu de forma lacônica: “Onde vamos parar? Não há mais limites”, desabafou o experiente político, surpreendido pelo fato inédito. E lá foi Kassab até a mesa do buffet apanhar um pequeno copo com um doce, que comeu com uma colherzinha. “Só nos resta apanhar um docinho”, disse. E esperar que domingo chegue rápido, sem que nenhum magistrado prepare ao eleitor alguma nova surpresa.