O Brasil ainda vai definir o próximo presidente, mas já sabe muito sobre quem terá poder para governar o País a partir de 2027, pois as urnas deste domingo produziram uma guinada à direita que vai muito além da eleição presidencial. Quem vencer o segundo turno chegará ao Palácio do Planalto diante de um país politicamente muito mais conservador.
O resultado mais contundente veio do Senado. O PL elegeu 19 senadores e terá uma bancada de 28 das 81 cadeiras, a partir do próximo ano. O PT terá nove, MDB ficará com oito, Republicanos e PP terão seis cada. União Brasil e PSD terão cinco cada.
Isso muda bastante a relação de forças em Brasília, porque boa parte das decisões do próximo presidente terá de passar por um Congresso em que partidos de direita e centro-direita terão enorme capacidade de impor limites, negociar pautas e cobrar espaço.
E o Senado ganhou uma importância adicional nesta eleição. É ali que passam as indicações para o Supremo Tribunal Federal e onde podem ser julgados pedidos de impeachment de ministros da Corte. Esse poder ganhou ainda mais peso porque o enfrentamento com o STF foi uma das bandeiras de vários candidatos da direita eleitos neste domingo.
Na Câmara, os dois deputados federais mais votados do país foram Nikolas Ferreira, em Minas Gerais, e Lucas Pavanato, em São Paulo. Ambos são do PL e alcançaram as duas maiores votações da história para o cargo, com mais de três milhões de votos. Em relação ao número de deputados, a esquerda não necessariamente encolheu, mas perdeu peso relativo. A federação de PT, PCdoB e PV deve passar das 80 cadeiras conquistadas em 2022 para cerca de 88. O PL, porém, salta de 99 para aproximadamente 121 deputados, se consolidando, com larga vantagem, a maior bancada.
O avanço da direita seguiu também nos governos estaduais. Entre os 20 governadores definidos no primeiro turno, candidatos de partidos situados à direita ou centro-direita venceram em alguns dos maiores e mais importantes Estados do país, e também ganharam espaço em regiões estratégicas. O Republicanos venceu São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. O PL ganhou no Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rondônia e Roraima. O PP venceu no Mato Grosso do Sul e Paraíba. Em Alagoas a vitória foi de JHC, do PSDB, mas apoiado por Flávio Bolsonaro.

E mesmo onde a eleição estadual ainda não terminou, partidos de direita e centro-direita estão presentes em todas as disputas e, em alguns casos, ocupam os dois lados do segundo turno.
O Brasil até então estava acostumado a olhar uma eleição nacional quase exclusivamente pela disputa presidencial. Durante décadas, o presidente pareceu resumir politicamente o País. No entanto, a nação que sai dessas eleições de 2026 é diferente. O centro de gravidade do poder político brasileiro se deslocou de forma cabal para o Congresso.
E isso acontece em um momento em que o presidencialismo brasileiro começa a ganhar traços de uma espécie de parlamentarismo informal, que não me surpreenderia caso se tornasse oficial. A Câmara e o Senado controlam parcelas cada vez maiores do orçamento, impõem sua própria agenda e aumentam sua capacidade de condicionar o Executivo e o Judiciário. Portanto, mesmo que o presidente ainda não esteja definido, boa parte do poder que vai definir os limites de seu governo já saiu das urnas e está, sem dúvida, à direita. Essa foi claramente a voz do eleitor este ano.