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A invectiva de D. Amélia

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Uso o verbete “invectiva” como sinônimo de diatribe, peraltice, pois é uma palavra polissêmica. Pode significar muitas coisas.

Refiro-me à intenção de Amélia de Freitas Bevilacqua de se tornar a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.

O episódio é muito comentado no folclore da Casa de Machado. Mas o relato a seguir é do “Diário Secreto” de Humberto de Campos. Ao chegar à sede da Academia, o Petit Trianon, em 29 de maio de 1930, ele soube que ali estivera, acompanhada pelo marido, “o pobre Clóvis Bevilacqua”, a escritora Amélia, que ali fora levar sua carta regimental, comunicando ser candidata à vaga deixada por Alfredo Pujol.

A notícia não poderia ser mais insólita: “Alarma na casa. Com a sua voz de besouro velho, que é mais um resmungo, João Ribeiro pede-me: – Vocês vejam se podem salvar a Academia votando contra, porque eu sou obrigado a votar a favor!”.

Justifica-se quanto à sua não opção:

– “O diabo da mulher é muito minha amiga, cerca minha família de muito carinho, e eu não quero fazer novas inimizades…”

O Presidente Aloísio de Castro, ao abrir a sessão, submete à apreciação da Casa a preliminar: deve-se, ou não, diante dos estatutos, fazer a inscrição de um candidato do sexo feminino?

Diversas as opiniões, mas – majoritariamente – a tese é em desfavor de D. Amélia. Os favoráveis haviam se manifestado a favor das mulheres, com as quais procuravam tornar-se amáveis, em algumas entrevistas recentes. Adelmar Tavares era um desses acadêmicos que deveriam honrar a palavra dita em tese.

Luís Carlos também se viu compelido a se posicionar de igual maneira:

– “Que hei de fazer, meu velho? Eu sou contra; mas já disse publicamente que era a favor. Agora, tenho que sustentar o que disse…”

Humberto avalia a postura dos demais confrades:

“Afonso Celso é favorável porque Maria Eugênia, sua filha, também quer ser candidata. Sincero, unicamente, Augusto de Lima, que se apega, aliás, a um argumento digno da sua mentalidade, formada em Minas em 1882: descobre ele que, gramaticalmente, quando se diz “brasileiros”, significa indivíduos de ambos os sexos nascidos no Brasil. Constâncio Alves lê um voto contrário, interessantíssimo e espirituoso. Dou a minha opinião: Não se trata de interpretação gramatical, mas de interpretação histórica. Urge, pois, que os fundadores da Academia, sobreviventes, informem o espírito com que foi redigido aquele artigo dos estatutos”.

A iniciativa de Dona Amelia fez com que até os acadêmicos que entravam mudos e saíam calados se manifestassem. Assim, “Coelho Neto informa que, num encontro com Lúcio de Mendonça, este, referindo-se à pretensão de uma poetisa do tempo, lhe dissera que a Academia era uma casa séria, e não admitia mulheres. Silva Ramos, na sua qualidade de membro da primeira diretoria, depõe, batendo nervosamente na mesa da sua bancada:

– “Eu posso dizere e afirmare, que, quando votamos os estatutos e escrevemos a palavra “brasileiro”, nos referimos unicamente a brasileiro “macho”!

Riso alegre, de todos. E a inscrição de D. Amélia é recusada por catorze votos contra sete, com grande suspiro de alívio, mesmo dos que votaram a favor.

A primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras foi Rachel de Queiroz, e isso em 1977. Pioneira mesmo foi a Academia Paulista de Letras, criada em 1909 e, desde a fundação, não só teve como Patrono da Cadeira 8 Bárbara Heliodora, (há quem prefira “Patronesse”), como sua primeira integrante, imortal fundadora, Presciliana Duarte de Almeida, poeta e feminista nascida em Pouso Alegre, em 1867 e falecida em Santos em 1944.

Já a primeira mulher eleita por seus pares para integrar a Academia Paulista de Letras foi Maria de Lourdes Teixeira (1907-1989), titular da Cadeira 12, em 1969.

Em compensação, a Academia Brasileira de Letras já foi presidida por uma mulher, Nélida Piñon, o que ainda não aconteceu na Academia Paulista de Letras. Mas esse dia, é inevitável e necessário, haverá de chegar.

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16 de fevereiro de 2026
13:21
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