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Criança de 5 anos que usa tela todo dia consegue aprender? Estudo mapeou isso pela 1ª vez no País

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Uma avaliação realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em vários países, incluindo o Brasil, traz resultados inéditos sobre o impacto negativo do uso diário de dispositivos digitais por crianças de 5 anos. O Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS, na sigla em inglês) foi divulgado nesta terça-feira, 5, e mostra o desempenho de alunos da pré-escola nas áreas de literacia (que antecede a alfabetização formal, como o interesse por livros e vocabulário), numeracia (primeiras noções de Matemática) e ainda em habilidades socioemocionais e nas funções executivas (como memória de trabalho e flexibilidade mental).

Esta foi a primeira vez que crianças brasileiras da educação infantil foram avaliadas de forma direta, ou seja, por meio de atividades em tablets, além das perguntas feitas para professores e pais.

Participaram também da avaliação:

  • Inglaterra
  • Bélgica
  • China
  • Coreia do Sul
  • Emirados Árabes Unidos
  • Holanda
  • Azerbaijão
  • Malta

No Brasil, por causa de restrições orçamentárias, a amostra foi apenas de crianças de três Estados: São Paulo, Ceará e Pará. O estudo foi realizado no País com o apoio de uma coalizão de entidades do terceiro setor, liderada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, que considera a participação “uma conquista estratégica” para o País. “Afinal: o que não se pode medir, não se pode melhorar”, diz o texto da apresentação do documento.

Crianças brincam em escola de educação infantil em São Paulo.
Crianças brincam em escola de educação infantil em São Paulo.

Os resultados mostram que as crianças brasileiras tiveram desempenho semelhante à média dos outros países em literacia (500 pontos), que são os conhecimentos e habilidades que antecedem a alfabetização formal, como o interesse por livros, o vocabulário, a capacidade de compreender e produzir narrativas, o reconhecimento de letras e palavras.

Já na numeracia, o resultado ficou abaixo da média internacional para crianças de 5 anos. Ela envolve as primeiras noções de Matemática, como as habilidades de contar, comparar quantidades, reconhecer padrões, compreender relações espaciais e resolver pequenos problemas do cotidiano.

Entre exemplos de questões apresentadas para as crianças estão encontrar qual o triângulo de um conjunto de figuras e qual a bola maior, também em desenho com várias.

Há ainda perguntas sobre as emoções dos personagens em desenhos apresentados ou outras de memória, em que a criança precisa lembrar onde a zebra estava sentada no ônibus, por exemplo. (na figura abaixo).

Exemplos de atividades propostas na avaliação IELS.
Exemplos de atividades propostas na avaliação IELS.

Para crianças de 5 anos, as habilidades socioemocionais aparecem na forma como estabelecem vínculos seguros com adultos e outras crianças, expressam emoções e exploram o ambiente. As brasileiras tiveram resultados semelhantes à média internacional em empatia. Já nos outros componentes, como na capacidade de controlar atitudes agressivas ou de compartilhar e ajudar os outros, ficaram abaixo dos demais países.

As funções executivas, conhecidas como habilidades de autorregulação, também foram avaliadas. Elas permitem às crianças controlarem seus impulsos e sua atenção, organizarem informações e ajustarem seu comportamento em diferentes situações. Os brasileiros ficaram abaixo da média internacional.

O que é o IELS?

É uma avaliação feita com cerca de 25 mil crianças de nove países, de 5 anos de idade, pela OCDE. Foram medidas habilidades de literacia, numeracia, socioemocionais e funções executivas.

Como foram feitas as avaliações?

As crianças responderam atividades em tablets e ainda professores e pais foram questionados sobre rotinas e desenvolvimento em casa e na escola.

Como é o resultado?

No estudo brasileiro sobre a avaliação não há médias dos outros países, somente a comparação do desempenho das crianças do País com a média internacional, que é de 500 pontos.

Foram avaliados na parte socioemocional:

  • Empatia (Identificação de emoções) – Capacidade de identificar a emoção dos outros a partir da escuta de uma história
  • Empatia (Atribuição de emoções) – Capacidade de responder emocionalmente a uma história de forma consistente com os personagens.
  • Confiança – Capacidade de estabelecer relações confiáveis com pessoas próximas.
  • Comportamento pró-social – Capacidade de agir de forma cooperativa, incluindo comportamentos como ajudar e compartilhar.
  • Comportamento não disruptivo – Capacidade de controlar atitudes agressivas, desafiadoras ou perturbadoras.

Foram avaliados na parte das funções executivas:

  • Memória de trabalho Capacidade da criança de armazenar e manipular informações, como lembrar a posição de um personagem em sequências progressivamente mais longas de imagens.
  • Controle inibitório – Capacidade de resistir a respostas automáticas e reagir corretamente a estímulos menos frequentes.
  • Flexibilidade mental – Capacidade de alternar entre regras e ações, ajustando as respostas conforme instruções ou condições variáveis apresentadas durante a tarefa.

Uso disseminado de celulares e tablets

O IELS também perguntou aos pais sobre a rotina das crianças em casa e os resultados mostraram que 50,4% delas utilizam dispositivos digitais, como celular e tablets, todos os dias – a média dos países participantes foi de 46%. Na Holanda, por exemplo, são 24%. Somente 11,4% das que participaram do estudo no Brasil nunca ou quase nunca acessam telas.

Os pesquisadora ainda cruzaram os dados dessas crianças que acessam os dispositivos diariamente no País com seu desenvolvimento demonstrado na avaliação. E concluíram que o uso diário está associado a uma nota 10 pontos menor em literacia e 11 pontos menor em numeracia, quantidade considerada estatisticamente significativa. Também houve um impacto negativo na memória de trabalho e em todos os domínios socioemocionais, mas menos relevantes do ponto de vista estatístico.

“Esses resultados não indicam que o uso de telas cause, diretamente, menor desenvolvimento. Não obstante, sugerem que o uso excessivo pode reduzir o tempo dedicado a atividades importantes para o desenvolvimento infantil, como brincar, se exercitar, conversar, ouvir histórias e interagir com outras crianças e adultos”, diz o estudo, conduzido no Brasil pelos pesquisadores Tiago Bartholo e Mariane Koslinski, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Diversas evidências científicas já mostram que é na primeira infância que se constroem as bases do desenvolvimento integral da criança, com impactos ao longo da vida. O acesso à educação infantil de qualidade está associado a menor abandono escolar, maior desempenho acadêmico e melhores condições na fase adulta.

Leitura de livros

A pesquisa também analisou outras rotinas em casa que contribuem para a aprendizagem da criança pequena, como leitura de livros ou atividades ao ar livre. Os dados do Brasil mostram que 53% dos pais dizem não ler nunca ou menos de uma vez por semana para os filhos. Na média internacional, 53% dos pais fazem leituras mais de três vezes por semana.

Mesmo entre as classes mais altas no Brasil, o índice é de 40%. O estudo mostra que a desigualdade se dá no País já entre as crianças pequenas. Em quase todos os resultados, alunos da pré-escola de baixa renda têm desenvolvimento pior que os de renda maior. Pretos também, em relação às crianças brancas. Segundo os pesquisadores, o IELS mostra que “é na primeira infância que as desigualdades educacionais podem começar a se instalar, muitas vezes de forma silenciosa e persistente”.

Participaram do exame no Brasil 240 escolas e centros de educação infantil, distribuídos por 91 municípios dos três Estados, em um total de cerca de 2.500 crianças – 80% delas em instituições públicas e 20% em particulares. Os resultados também mostram que as crianças da rede privada se saem melhor em todos os componentes, com diferença maior em numeracia.

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