Eleições polarizadas frequentemente opõem figuras carismáticas a candidatos que se apresentam como alternativa moderada, técnica ou de união. Em contextos de forte polarização afetiva — quando a rejeição ao adversário pesa mais do que a identificação com um projeto — a disputa tende a girar em torno de personalidades e lealdades emocionais. Ainda assim, a experiência comparada mostra que candidatos moderados podem vencer quando conseguem convencer o eleitorado de que estabilidade e previsibilidade são mais valiosas do que o fervor ideológico.

Há exemplos claros dessa dinâmica. Macron venceu a eleição francesa de 2017 ao se apresentar como alternativa moderada diante do desgaste dos partidos tradicionais e da ascensão de candidaturas populistas. No Uruguai, Luis Lacalle Pou construiu, em 2019, uma ampla coalizão de partidos para derrotar a Frente Ampla, que parecia favorita, reunindo eleitores moderados e opositores do continuísmo. O Brasil também já viveu situações semelhantes. No RS, em 2006, Yeda Crusius venceu uma eleição polarizada entre Dutra e Rigotto, ambos mais bem posicionados nas pesquisas.
É nesse contexto que deve ser analisada a decisão do PSD de lançar candidato próprio à Presidência em 2026, possivelmente entre seus governadores Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior ou Eduardo Leite. Todos são bem avaliados em seus Estados e representam uma centro-direita institucional, distante tanto do lulismo quanto do bolsonarismo. O desafio, porém, é enorme. Em ambientes de polarização carismática, desempenho administrativo e moderação não bastam. A disputa tende a ser definida por identidades políticas.
Ainda assim, existe um contingente expressivo de eleitores que não se vê representado por nenhum dos dois polos. Foram esses eleitores que decidiram as últimas eleições mais por rejeição do que por adesão. Em 2018, rejeitaram o PT e elegeram Bolsonaro. Em 2022, rejeitaram Bolsonaro e elegeram Lula. O padrão sugere que há espaço para uma alternativa, desde que ela seja percebida como competitiva.
Romper a polarização, porém, exige coordenação política, construção de coalizões amplas e sinalização clara de viabilidade antes que a disputa se reduza novamente a dois polos. Sem isso, candidaturas moderadas tendem a ser vistas como apostas arriscadas e acabam abandonadas pelo próprio eleitor que gostaria de apoiá-las.
O PSD aposta que esse espaço existe. A história mostra que ele pode existir.
A dúvida não é sobre o eleitor. É sobre a capacidade das lideranças de construir, a tempo, uma alternativa real antes que a polarização se imponha novamente.