Participar da minha primeira convenção ICF Summit em Paris superou minhas expectativas. Mas não do jeito que eu imaginava.
[Para contextualizar: a ICF (International Coach Federation) é a principal organização global de coaching que define padrões para a profissão, certifica competências e promove ética na prática do coaching. O que foi discutido no Summit, portanto, tem a ver com o código de conduta da profissão].
O grande tema da conferência foi — sem surpresa — a influência da inteligência artificial sobre a profissão: como ela afeta coaches, o trato com clientes e os próprios clientes.
Para debater esse assunto “quente” houve um painel com especialistas de perfis diferentes (advogada, pesquisador, criador de plataforma de IA) e variados graus de otimismo em relação à tecnologia. Não houve conclusões definitivas — o que considero sensato, já que o impacto da IA ainda está em desenvolvimento.
Ainda assim, ficaram alguns questionamentos que me chamaram a atenção:
- Influência da IA na profissão de coaching
A mesma dinâmica que faz crescer o uso de “terapia” via ChatGPT já se vê no coaching: plataformas especializadas e agentes automatizados multiplicam possibilidades de reflexão guiada. Para temas mais superficiais, a IA ajuda — e amplia o acesso a quem não teria um profissional. Mas há limitações claras: a IA não reproduz a “mágica” do encontro humano — a intuição, a leitura do corpo, do tom, as sutilezas das falas. Em suma: IA escala reflexão; coaches humanos continuam insubstituíveis quando o trabalho exige percepção relacional profunda.
- Influência da IA nos clientes
Este foi, para mim, o insight mais inquietante. Clientes conversando com IA antes de nos procurar chegam frequentemente com narrativas já filtradas e “arrumadas” — em bullet points, com confirmações prontas. Isso altera a matéria-prima do nosso trabalho: menos relatos crus, mais relatos formatados. Sim, podemos treinar IAs para questionar mais, mas a padronização das reflexões é um fator novo e potencialmente limitador: se todo mundo usa os mesmos prompts e frameworks, corremos o risco de empobrecer a originalidade do pensamento.
A conclusão unânime entre os debatedores foi: não adianta ter medo — a IA já é realidade e veio para ficar. Eu mesma uso ferramentas de IA diariamente e reconheço seus benefícios.
Ao mesmo tempo, mantenho um pé atrás: é prudente adotar com curiosidade e crítica.
O que levo deste encontro:
- Use IA com propósito: aproveite escala e eficiência para tarefas e reflexões preparatórias, mas preserve espaços humanos para trabalho relacional profundo.
- Proteja a singularidade do cliente: questione e desembrulhe narrativas pré-formatadas para chegar ao material cru que sustenta o coaching transformador.
- Reforce o papel do coach: nossa vantagem está na presença, na escuta ativa e na capacidade de perceber o não-dito.
- Adote postura experimental: testar ferramentas, criar protocolos éticos e aprender coletivamente sobre limites e potencialidades.
Em resumo: a IA amplia possibilidades — democratiza acesso, automatiza processos e oferece utilidades práticas — mas não substitui a experiência humana central ao coaching. O desafio, e a responsabilidade, é integrar essas ferramentas sem perder o que torna o coaching eficaz: a conexão, a intuição e o trabalho com o que é genuíno e imprevisível no outro.
Paula Braga é membro da ICF desde 2012, e há dois anos possui a certificação mais elevada da entidade — um selo conferido a 4% dos profissionais no mundo (e a 17 no Brasil).