
Parcerias entre universidades brasileiras e internacionais ampliam oportunidades e tornam a experiência no exterior acessível aos estudantes.
Você sabia que há anos as universidades brasileiras vêm ampliando e aprimorando seus programas de mobilidade estudantil? Realizados por meio de parcerias formais entre instituições de ensino, os intercâmbios oferecem não apenas uma experiência segura, mas também mais acessível aos estudantes, que podem passar até um ano da graduação no exterior.
Cada universidade tem, é claro, suas próprias regras e exigências para a participação. Além de proporcionar uma experiência enriquecedora, o intercâmbio permite cursar disciplinas no exterior que, em muitos casos, podem ser aproveitadas como parte do currículo acadêmico na instituição de origem.
Um programa fora da caixa
Há muitos anos, a Faculdade Santa Marcelina oferece um programa bem diferente dos intercâmbios tradicionais. Em uma iniciativa realizada em parceria com a Japan House São Paulo, estudantes de Artes Visuais ou de Moda têm sido selecionados para uma residência artística de três meses no ateliê do artista Kohei Nawa, em Kyoto, no Japão.
Um estúdio como sala de aula
Instalada em um antigo galpão industrial às margens do rio Uji, a renomada plataforma criativa e estúdio de arte multidisciplinar SANDWICH reúne artistas, arquitetos, designers, pesquisadores e estudantes em torno de projetos que cruzam arte, tecnologia e arquitetura. Desde 2009, a SANDWICH recebe jovens criadores do mundo inteiro com uma proposta diferente das residências tradicionais, em que os participantes fazem parte do processo criativo. Estudos, testes e registros de processos permanecem visíveis pelo estúdio, permitindo acompanhar as etapas anteriores à realização de cada projeto.
Seleção prioriza maturidade artística
Todos os anos, estudantes dos cursos de Moda e Artes Visuais podem participar de um processo seletivo interno. A escolha considera desempenho acadêmico, portfólio, entrevistas e o potencial de aproveitar uma experiência marcada pela intensa convivência intercultural. Após a seleção pela faculdade, os estudantes passam a manter contato direto com a equipe japonesa e recebem todas as orientações necessárias para a preparação da viagem.
Para quem realiza uma experiência internacional dessa natureza pela primeira vez, esse acompanhamento ajuda a organizar uma etapa que envolve não apenas questões acadêmicas, mas também adaptação cultural e logística.
Moda, arte e uma cidade que também ensina
A estudante de Moda Laura, selecionada para participar desse intercâmbio em janeiro de 2026, destaca a importância que ele teve em sua formação: “Foi uma experiência que ampliou muito a minha visão sobre a arte e a moda e que também transformou a minha percepção sobre diferentes culturas.”
Mesmo tendo ascendência japonesa e algum contato anterior com elementos dessa cultura, Laura afirma que vivenciar o cotidiano do país produziu um impacto muito maior do que imaginava. O choque cultural, segundo ela, esteve justamente nos detalhes: na organização do trabalho, nas relações, nas roupas, na vida cotidiana e nas diferentes maneiras de compreender a criação. A experiência também abriu uma possibilidade de futuro. Durante a residência, Laura conheceu histórias de participantes estrangeiros que, depois de retornar aos seus países, acabaram voltando ao Japão para trabalhar. Hoje, ela também considera a possibilidade.
Laura conta que, nas primeiras semanas, a programação era mais direcionada ao aprendizado das técnicas utilizadas no estúdio. Aos poucos, porém, os residentes ganhavam autonomia para desenvolver propostas próprias. Para ela, observar os estudos e experimentações expostos reforçou a percepção de que uma obra não é um resultado isolado, mas fruto de um processo de testes, erros, escolhas, referências e decisões construídas ao longo do caminho.
A residência também a aproximou ainda mais de áreas que ela já percebia como complementares. Ao acompanhar projetos que transitavam entre arte, design e diferentes processos de produção, ela passou a enxergar com mais clareza possibilidades profissionais além das fronteiras tradicionais da Moda.
“Além da moda, eu também me vejo na área de artes visuais, e isso com certeza se fortaleceu mais depois que eu voltei.” Para ela, a experiência produziu uma mudança que ultrapassa o currículo acadêmico. “Foi uma experiência que ampliou muito a minha visão sobre a arte, sobre a moda e mudou muito as minhas visões culturais.”
Liberdade para pesquisar
“Eu sempre quis ter uma experiência internacional relacionada aos estudos, de poder viver e estudar em outro país”, afirma Francisco que, neste momento, está fazendo seu intercâmbio em Kyoto. “Na maioria dos dias a gente faz a nossa própria pesquisa. No meu caso, escolhi pesquisa de material. Fico experimentando, testando o que quero e, quando preciso de ajuda ou de uma opinião, procuro o meu orientador.”
A autonomia, contudo, é progressiva, nas primeiras semanas, as atividades são mais orientadas pela equipe, permitindo que os participantes compreendam os métodos de trabalho e a dinâmica do estúdio. À medida que se familiarizam com o ambiente, passam a administrar com mais liberdade sua própria investigação. Esse equilíbrio entre participação em projetos profissionais e desenvolvimento autoral é um dos elementos que diferencia a residência de uma experiência de observação.
O Japão para além de Kyoto
Outra dimensão do programa acontece fora do ateliê. Francisco conta que a SANDWICH incentiva explicitamente os residentes a viajar, visitar exposições e conhecer diferentes espaços culturais do Japão. Museus, ilhas de arte, espaços expositivos e a própria paisagem japonesa passam a funcionar como extensão do ambiente de formação.
A proposta é que essas referências sejam incorporadas às pesquisas individuais dos participantes. Para um estudante de Moda ou Artes Visuais, observar de perto outras formas de produção cultural amplia o repertório de materiais, imagens, técnicas e linguagens disponíveis para o próprio trabalho.
Histórias como as de Laura e Francisco ajudam a dimensionar o impacto de uma vivência internacional durante o curso de graduação no Brasil, que não se resume aos meses passados no exterior. Mudanças na maneira de organizar um processo criativo, novas referências culturais, possibilidades profissionais até então pouco consideradas e redes de contato construídas com pessoas de diferentes países são alguns dos ganhos obtidos com a experiência.
Internacionalizar a formação universitária significa ampliar referência e repertório,entrar em contato com diferentes formas de pensar e aprender e desenvolver a capacidade de atuar em contextos diversos.
Intercâmbios, programas de dupla titulação, estágios, projetos de pesquisa ou residências artísticas passam, assim, a integrar a formação universitária, contribuindo para uma trajetória acadêmica mais ampla e conectada com o mundo.
E você, já conhece as parcerias e os programas internacionais que a sua universidade oferece?
Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais.
Entre em contato: tissen@atissen.com.br