O presidente Lula errou duas vezes. A primeira, ao colar no Supremo e em Alexandre de Moraes na época das vacas gordas, a da resistência, do julgamento e da condenação de Bolsonaro e generais do golpe. A segunda, agora, ao tentar se descolar da época das vacas magras, com um ministro atrás do outro caindo na esparrela do Master e a imagem do Supremo definhando com a seca.
Fez sentido Lula assumir a liderança pró-democracia contra o quebra-quebra de Planalto, Supremo, Câmara e Senado no fatídico 8/1, reunindo presidentes dos demais Poderes e governadores de toda a federação para dizer “não”, condenar os atos e atrair a repulsa da população contra a barbárie. Apesar da natural casquinha política, ele estava no seu papel de chefe de Estado e da Nação.

O problema começou quando Lula, o Planalto e o PT quiseram tirar casquinha também dos louros do Supremo, porque embolaram decisões jurídicas com política, puseram o pé no Supremo e sugaram não só a Corte, mas principalmente Moraes, para o balaio petista, esquerdista, governista. Como se tudo não passasse de um conluio político – versão maliciosa que as redes bolsonaristas se esgoelam para ratificar.
Por mais que Moraes risse quando “acusado” até de comunista nas redes – “Nunca fui nem esquerdista”, me disse certa vez –, o carimbo ficou, as redes colaram sua imagem à de Lula e à esquerda. Juiz com lado, ministro do Supremo com partido? Foi péssimo para Moraes, porque reforçou a falsa sensação de que era movido por interesses políticos, mas foi péssimo também para Lula.
Quando a chuva passou, o terreno secou, a grama queimou, sob as revelações destruidoras dos contratos, jatinhos, jantares e intimidades de ministros com Vorcaro, Lula foi pego de calça curta e reagiu com uma fórmula velha, esgotada: “vazando” para a mídia e as redes que estava “irritado” com seu apadrinhado Dias Toffoli e “incomodado” com Moraes.
O presidente, porém, não tem opção. Não pode atacar Moraes diretamente, muito menos defendê-lo. Então, tenta sair de fininho do campo de batalha e lavar as mãos, sem passar pelo ridículo de combater a seca feroz com um pequeno regador.
Não há até agora, pelo menos, um fiapo de ligação de Lula com Master, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e Augusto Lima, a não ser uma conversa no Planalto, dessas que acontecem toda hora, em todo governo, aparentemente, neste caso, sem causa e efeito. E Lula fez um movimento arriscado ao classificar o escândalo como “ovo da serpente” do governo Bolsonaro e do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.
Ou seja, tentou empurrar o escândalo para o lado oposto da polarização. O foco nem é Jair Bolsonaro, mas seu oponente de outubro, Flávio. Tudo que suja o pai respinga no filho. Aliás, como tudo que suja o filho Lulinha mancha o pai.
O escândalo, porém, atinge em cheio é o Supremo, apesar de afetar a política e contaminar a eleição de outubro. Depois de Toffoli, Moraes, agora Nunes Marques em jatinhos, além do filho de Fux em camarotes da Sapucaí…
O que arranha Lula não é um ato dele, do Planalto ou do governo favorecendo ilegal ou ilegitimamente Master ou Vorcaro, é a ligação com o Supremo e Moraes. Além de atingir o Supremo, o ministro que liderou a resistência ao golpe tornou-se um fardo para o candidato Lula.