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Olavo de Carvalho é o inspirador oculto do filme ‘Dark Horse’ sobre Bolsonaro

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A maior obsessão do falecido escritor Olavo de Carvalho era combater o que considerava o esquerdismo intrínseco das elites culturais brasileiras. Ideias neomarxistas, globalistas segundo ele, tinham como vetores de divulgação os nossos artistas mais consagrados, em especial os cantores da chamada Música Popular Brasileira (MPB), os professores das universidades públicas, os cineastas com financiamento estatal, os jornalistas da mídia tradicional, os intelectuais com espaço na opinião pública, entre outros com visibilidade. Olavo clamava por uma reação agressiva.

Após a queda do muro de Berlim, em 1989, de acordo com as colocações de Olavo, a defesa do comunismo (sim, ele via comunismo em tudo) deixaria de ser aberta. Passou a ser mais velada e se dava por meio da desmoralização de valores como a pátria, a família ou a religiosidade tradicional. Essa estratégia insidiosa contra o conservadorismo, de acordo com o autor, estaria presente no dia a dia da sociedade, de baixo para cima. Seria também espraiada por professores de escolas para adolescentes e crianças, pelos livros didáticos, pelas novelas de TV, filmes, canções, formando um novo público iconoclasta.

Foto do set de 'Dark Horse', com o ator Jim Caviezel (que interpreta o ex-presidente Bolsonaro), o deputado Mário Frias e o diretor Cyrus Nowrasteh
Foto do set de ‘Dark Horse’, com o ator Jim Caviezel (que interpreta o ex-presidente Bolsonaro), o deputado Mário Frias e o diretor Cyrus Nowrasteh

O Brasil seria um país em que as ideias do pensador italiano Antonio Gramsci, que pregava a dominação cultural para a esquerda, estavam a todo vapor. Por anos, Olavo falou quase para as paredes. Era um “reacionário” isolado a escrever colunas de jornal e livros pouco lidos. Até que um dia foi descoberto pelo que podemos chamar de bolsonarismo e se tornou um best-seller. Não é sem motivo que, no governo Bolsonaro, os mais radicais foram colocados em pastas como o Ministério da Educação. Para travar a guerra exigida pelo guru.

Ex-secretário de cultura do governo de Jair Bolsonaro, Mário Frias é um discípulo assumido de Olavo de Carvalho. Mais que previsível que se engaje nas batalhas culturais estimuladas pelo ídolo. Uma grande ideia, no sentido exigido pelo famigerado filósofo, seria produzir um filme de apologia ao ex-presidente. No caso, o “Dark Horse”, em breve nas telas, no streaming, ou em algum dispositivo pirata.

O filme, pelo que se apresentou até agora, seria um Bacurau, de Kleber Mendonça, com sinal ideológico invertido. Um enredo maniqueísta para defender o maior líder da direita brasileira. O trailer divulgado e trechos do roteiro vazados indicam uma obra rasa, com bem e mal bem definidos. Uma peça cultural de propaganda para conquistar e engajar, no mínimo, os 88% dos eleitores de Flávio Bolsonaro que irão votar no senador mesmo com o diálogo real constrangedor em que pede recursos para o ex-banqueiro e escroque Daniel Vorcaro, para concluir a película – ou por outras razões ainda não esclarecidas, como enriquecimento oculto do clã, segundo suspeita da Polícia Federal.

A crítica cinematográfica consolidada, não há dúvidas, irá descer a lenha no filme. Tudo será bastante atacado: o enredo absurdo, os diálogos toscos, os maneirismos do ator Jim Caviezel, aparentemente trajando uma peruca. Uma reação previsível, porque, na cabeça do dito olavismo, ninguém mais controlado pela “esquerda globalista” do que um crítico de filmes. O objetivo da produção é chegar aos corações de gente que nem costuma ter cultura cinematográfica. Uma aposta aqui é que o filme será muito mais visto a partir de links não oficiais distribuídos em grupos de WhatsApp – habitat natural do bolsonarismo – do que nas telas de cinema.

“Dark Horse”, entretanto, não é só Olavo, que culturalmente era um aristocrata que desprezava manifestações populares, como o samba. “Dark Horse” é um produto do que pode ser chamado de olavobolsonarismo. Logo, soma-se à agressividade e assertividade do filósofo ao que constitui a família Bolsonaro: histórias de financiamento mal-explicadas, suspeita de rachadinha, brigas internas – as trapalhadas de sempre. De qualquer maneira, a aposta é que, apesar de tudo, uma parte considerável do Brasil vai receber o filme de braços abertos e reforçar os laços afetivos que têm com o ex-capitão retratado ficcionalmente nas cenas.

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