Uma professora da rede municipal de ensino de São José dos Campos, no interior de São Paulo, chamou a atenção nas redes sociais nesta quinta-feira, 2, com um vídeo em que contava, aos prantos, que seus alunos colocaram vidro em seu copo d’água durante a aula. Emocionada, ela questionou o desgaste mental e a desvalorização da profissão.
“O menino simplesmente achou que tudo bem ele pegar um pedaço de vidro e colocar no meu copo, se exibir para a sala. A sala viu o que estava acontecendo e ficou de murmurinho, em vez de me falar que ele tinha colocado. Ainda disseram: ‘Se eu fosse você, eu não beberia essa água, professora’”, relatou Michele Ramos, que dá aulas para o 8º ano na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emefi) Prof.ª Ildete Mendonça Barbosa.

Havia uma sala cheia de adolescentes e ninguém avisou a professora. A investigação ainda vai dizer o que se passou naquela turma. Mas sabemos que a adolescência é uma fase em que o pertencimento ao grupo pesa muito. Muitas vezes, o jovem não concorda com o que está acontecendo, mas também não quer ser o único a levantar a mão e dizer: “Isso está errado.”
É preciso refletir mais sobre como formar jovens capazes de interromper uma violência. De proteger alguém. De dizer “não” quando o grupo passa do limite.
Também tem se falado muito – e corretamente – sobre a saúde mental dos alunos, em especial depois da pandemia e da invasão das telas.
Mas e a saúde mental dos professores?
Uma pesquisa da Nova Escola mostrou que 8 em cada 10 professores já sofreram algum tipo de agressão no ambiente escolar. E outra pesquisa, da OCDE, mostra que 64% dos professores brasileiros dizem que manter a disciplina em sala de aula é uma das maiores fontes de estresse da profissão. Apenas 14% dos professores brasileiros acreditam que são valorizados na sociedade.
Isso pode ajudar a explicar por que tanta gente não quer mais ser professor no Brasil. Muitas redes têm dificuldade para contratar docentes e a profissão está longe de ser um sonho para os jovens. Não se investe muito nos cursos de formação – na maioria das vezes, relegados a graduações a distância com mensalidades de R$ 99.
E em que condições esses profissionais trabalham? Valorizar um professor não é só pagar melhor. Mas também é garantir que, quando ele sofrer uma agressão, a escola saiba como agir. É ter famílias que enxerguem o professor como um aliado, não como um adversário. E é dar a esses profissionais apoio para lidar com uma profissão que ficou muito mais complexa do que era há vinte anos.
A Prefeitura de São José dos Campos informou, em nota, que prestou apoio à professora, identificou três estudantes envolvidos no caso, conversou com as famílias dos alunos e suspendeu o trio “até o final do semestre”. “O caso também foi encaminhado aos órgãos competentes para as providências cabíveis”, diz o comunicado.
Esse caso triste escancara uma das faces da desvalorização da profissão docente. Nenhum país consegue atrair bons profissionais para uma carreira em que as pessoas vão trabalhar com medo, esgotadas ou se perguntando qual será o próximo limite.
Se a gente não consegue proteger e valorizar quem ensina, vai ser difícil conseguir qualidade na aprendizagem, mais interesse dos alunos em aprender, enfim, ter uma boa escola para as próximas gerações.