BRASÍLIA – O QG do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se preocupa com um possível cenário de abstenção na disputa de outubro e fará uma campanha para que essa situação não se repita. Em 2022, aproximadamente 32,2 milhões de pessoas deixaram de votar no segundo turno, número que corresponde a 20,58% dos eleitores.
“Foi quase uma Argentina que se absteve”, disse ao Estadão o cientista político Antonio Lavareda, ao destacar que o eleitorado apto a votar no país vizinho é da ordem de 35 milhões.
Em conversas com auxiliares, Lula tem admitido que há desencanto da população com a política e um sentimento de frustração com promessas não cumpridas pelo seu governo. Avalia, porém, ser possível reverter esse quadro e conquistar o voto dos indecisos e dos eleitores “nem-nem”, que não votam nele, mas também não confiam no senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL ao Palácio do Planalto.

Nos bastidores, o presidente também já se queixou do “fogo amigo” e de sinais trocados na coordenação de sua campanha, sobretudo na área econômica, como mostrou o Estadão.
Depois de ruídos com a Faria Lima por causa de rumores sobre um afrouxamento no arcabouço fiscal em um eventual quarto mandato petista, Lula escalou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, como porta-voz para conversas com o mercado financeiro. O coordenador do programa de governo do presidente, José Sérgio Gabrielli – que defendeu a possibilidade de mudanças no ajuste das contas públicas, com o objetivo de ampliar gastos sociais –, foi enquadrado pelo Planalto.
“A gente não pode calçar sapato alto, achar que está ganho e ponto final. É uma eleição disputada. Ninguém pode ficar falando sozinho. Tudo tem que ser muito combinado”, afirmou ao Estadão o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães.
Até agora, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) não decolou como terceira via, embora a partir do próximo dia 16, quando a campanha eleitoral começa na prática, ele vá investir na estratégia do “voto útil” para derrotar Lula. Após virem à tona ligações de Flávio com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, Caiado passou a criticar o senador, afirmando que só a sua candidatura tem condições de vencer o PT.
De olho nos humores do eleitorado, o próprio Lula tem dito em público que é melhor liquidar essa fatura no primeiro turno da disputa.
Apesar do receio de um elevado índice de abstenção nestas eleições, o comando da campanha de Lula minimizou os resultados da pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda-feira, 3, sob o argumento de que monitoramentos do PT e do próprio mercado apresentam números diferentes.
De acordo com o levantamento, Lula teria 41% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio, 37%. Em relação à pesquisa anterior, de apenas uma semana atrás, a diferença entre os dois caiu de nove para quatro pontos.
A mesma sondagem indica que, em uma segunda rodada da disputa, Lula e Flávio estariam tecnicamente empatados: o presidente teria 46% dos votos e o senador, 45%.
Além disso, segundo a pesquisa da BTG/Nexus, Lula teria despencado no Nordeste, seu reduto eleitoral, caindo de 62% para 52%. Dirigentes da campanha de Lula estranharam os resultados e disseram ser preciso aguardar outros levantamentos para comparar os números.