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Tom Zé chega hoje aos 90 anos como o tropicalista desgarrado e inquieto que sempre confunde para explicar

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Tom Zé faz 90 anos hoje, domingo, 11 de outubro
Fernando Laszlo / Divulgação
♫ ANÁLISE
♬ “Eu tô te explicando / Pra te confundir / Eu tô te confundindo / Pra te esclarecer”, jogou com as palavras Tom Zé em versos do samba “Tô” (1976), composto em parceria com Elton Medeiros (1930 – 2019 )e lançado por Tom há 50 anos no álbum “Estudando o samba” (1976).
Esses versos traduzem o espírito inquieto de Tom Zé e, não por acaso, eles foram apresentados em um dos títulos mais importantes e vanguardistas da discografia deste baiano de Irará (BA) nascido Antônio José Santana Martins em 11 de outubro de 1936, há exatos 90 anos.
Sim, Tom Zé cruza hoje a barreira dos 90 anos como o tropicalista resistente, desgarrado e travesso que sempre confundiu para explicar o que significa de fato ser tropicalista.
Com a alma de um erê, o artista sempre foi uma espécie de Chacrinha (1917 – 1988), o apresentador de TV cujo bordão “Eu vim para confundir e não para explicar” já teve a autoria reivindicada por Tom Zé.
Tom Zé chega aos 90 anos em atividade. Na sexta-feira, 9 de outubro, fez um show comemorativo da efeméride no Circo Voador (RJ), palco de resistência da cidade do Rio de Janeiro (RJ). E vem desenvolvendo um projeto musical para dar continuidade à obra singular e inclassificável que constrói desde a década de 1960.
A trajetória de Tom Zé inclui conexões importantes com os grupos Os Mutantes e Novos Baianos. A ligação com Os Mutantes é notória, até porque Tom Zé é parceiro de Rita Lee (1947 – 2023) em “2001” (1968) – uma das músicas mais famosas do grupo – e em “Qualquer bobagem” (1969), esta também assinada por Arnaldo Baptista e Sérgio Dias.
Já a relação com os Novos Baianos é menos conhecida. Mas o fato é que foi Tom Zé quem, em 1967, apresentou Moraes Moreira (1947 – 2020) – para quem dava aulas de violão – ao poeta Luiz Galvão (1937 – 2022), se tornando o mentor da parceria fundamental que gerou o grupo em 1969, ano em que Tom Zé defendeu a canção “Jeitinho dela” (Tom Zé) com os Novos Baianos no V Festival da Música Popular Brasileira.
Quando ainda estava em Salvador (BA), a trajetória de Tom Zé se entrelaça com as de Caetano Veloso, Gal Costa (1945 – 2022), Gilberto Gil e Maria Bethânia – com os quais fez o histórico show “Nós, por exemplo” em 1964.
Tom Zé é do rebanho tropicalista. Mas logo deixou evidente que seria a ovelha desgarrada. É que Tom Zé nunca fez música para gerar mero sucesso comercial, nunca fez o jogo da indústria. Os jogos armados pelo cantor e compositor no palco ou no estúdio sempre foram puramente estéticos. Tom Zé é e sempre foi um erê que se recusa a entrar na roda-viva do mundo dos adultos sedentos de glória, poder, dinheiro e fama.
Na trajetória mercadologicamente errática, Tom Zé amargou o fracasso comercial de álbuns que somente seriam valorizados anos depois, sobretudo após David Byrne se deparar casualmente em 1986 com o já mencionado álbum “Estudando o samba” e se encantar com a inventividade do disco, compilando a obra de Tom Zé para CD do selo Luaka Bop e, na sequência, lançando pelo selo álbuns inéditos do artista, como “The hips of tradition” (1991) – o que deu prestígio e visibilidade mundial ao último romântico tropicalista.
O encontro de Byrne com Tom Zé em 1988, na cidade de São Paulo (SP), mudou a vida do artista baiano após anos de ostracismo e desânimos com a dificuldade de se fazer ouvir – o que fez Tom Zé cogitar a desistir da carreira e a voltar para a cidade natal de Irará (BA).
Tom Zé, contudo, perseverou e continuou em cena, recebendo as flores em vida. Álbuns gravados após a redescoberta – casos de “Com defeito da fabricação” (1998), “Jogos de armar (Faça você mesmo)” (2000), “Estudando o pagode” (2005), “Estudando a bossa” (2008) e “Tropicália lixo lógico” (2012) – dialogaram com títulos mais antigos como “Tom Zé” (1968), “Tom Zé” (1970), “Tom Zé” (1972), “Todos os olhos” (1973) e “Correio da Estação do Brás” (1978), encorpando discografia pautada pela coerência e pela determinação de inventar.
Aos 90 anos, Tom Zé segue confundindo, mas já não precisa explicar mais nada. Tom Zé é Tom Zé. E isso é tudo. E tudo já está esclarecido.

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