Do ponto de vista do estilo, o senador Flávio Bolsonaro deve estar satisfeito com seu desempenho nesta sexta-feira, 28, na TV Globo. Apresentou-se de fato como diferente do seu pai, Jair, e dos irmãos mais novos. Longe da rudeza dos familiares, mostrou-se polido, jeitoso. Soube olhar para a câmera quando engatava argumentos, diferentemente do rival Luís Inácio Lula da Silva. Mas, se prestarmos atenção, deu apenas respostas parciais às questões mais delicadas. Evitava o essencial. Sua estratégia, quando acuado, em vez de esclarecer, era colocar o PT no meio. Enfim, soube ludibriar, mas sem perder a ternura. Milimetricamente treinado para conquistar os que temem o petismo, mas não suportam as grosserias associadas ao bolsonarismo. Uma decepção para quem esperava um desmaio, como no debate em que participou há anos atrás.
No começo da entrevista, sem que ninguém perguntasse, solidarizou-se com a apresentadora Renata Vasconcellos, devido às supostas grosserias cometidas por Lula no dia anterior. Ao ser confrontado com a inevitável pergunta sobre o áudio cobrando milhões do ex-banqueiro e gângster Daniel Vorcaro, insistiu na tese de que se tratou de uma relação privada. Era apenas para financiar o filme em homenagem ao pai. “Não queria que a obra de arte fosse perdida”. Jogou o PT no meio ao falar que não teve “lei Rouanet”, um dos fantasmas do bolsonarismo, e ao lembrar dos caciques petistas que estiveram na órbita de Vorcaro.
Sem se alterar, provocou a própria Rede Globo, também patrocinada, em evento, pelo banqueiro escroque. Com a cara bem lavada, afirmou que já havia uma prestação de contas dos gastos do filme, no que foi contraditado. Mostrou-se até algo espantado que isso não estivesse claro. Ficou a palavra dele contra os demais. Seu público vai acreditar no Bolsonaro.

No caso da condenação de seu pai por tentativa de golpe de Estado, saiu com a clássica: “Ele foi julgado pelos seus inimigos”. De fato, o comportamento autoritário posterior do ministro Alexandre de Moraes tem sido um argumento e tanto para quem defende Bolsonaro. Flávio ainda tentou embolar as coisas, como se a tentativa de golpe ocorresse pelos vândalos de 8/1 e não por acontecimentos anteriores. Confrontado com a fala de dois chefes de força que corroboraram a trama, como a do brigadeiro Carlos Baptista, jogou novamente a carta antipetista: “ele pede voto para o Lula”. Sobre o general Freire Gomes, que também incriminou o pai, não deu um pio.
Destaque para pequenos recuos e esclarecimentos. Ao contrário do pai, disse que irá respeitar as urnas e o processo eleitoral. Também fez leves críticas ao radicalismo do irmão Eduardo, que agradeceu a Trump pelas tarifas contra o Brasil. Disciplinado na estratégia, deu um jeito de culpar Lula pelas tarifas, por instigar os gringos.
No caso do envolvimento com um chefe de milícia, Adriano da Nóbrega, a quem concedeu uma medalha, saiu-se com essa: “Naquele tempo não era ainda criminoso.” Seria apenas um policial injustiçado do Bope do Rio, encarcerado por trocar tiros com traficantes. Não poderia saber que seu amigo se tornaria um criminoso. Mais sabonete, impossível.
Na economia, parecia até que iria se diferenciar. Falar de ajustes. Mas, novamente, preferiu a espuma. Quem conhece minimamente as contas públicas tem consciência de que saídas sem reformas estruturais ou revisão de isenções são missão impossível. Mas Flávio preferiu o populismo fiscal do “corte do ministério”, do “combater a corrupção”, ações necessárias, mas que nem de longe resolveriam o problema. O senador sabe disso, mas, como sempre, preferiu esquivar-se a responder de fato. Como dizem os cariocas, Flavio é um sujeito safo. Por último, mas não menos importante, os competentes jornalistas não o confrontaram em relação ao misterioso crescimento patrimonial do candidato, atribuído, segundo denúncias, a rachadinhas de gabinete.