Ao colecionar troféus do Centrão, o presidente Lula ganha palanques e tempo de TV na eleição, aumenta as chances de converter o fim da escala 6×1 em votos e já constrói base no Congresso e governabilidade, em caso de vitória. Não custa lembrar, porém, que foi assim que mensalão, Petrolão e os escândalos de Lula 1 e 2 começaram.
Hoje favorito nas pesquisas, mas com margem mínima de segurança, Lula jogou a rede para Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, e avançou sobre Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e Hugo Motta, presidente da Câmara. Nenhum deles exatamente seu amigo ou mesmo aliado.
Nogueira passou os últimos quatro anos xingando Lula, dia sim, outro também. Alcolumbre usou seu poder inquestionável no Senado para detonar pautas-bombas contra o governo e a reeleição. Hugo Motta, como biruta de aeroporto, seguiu os ventos para lá e para cá, mas, uma coisa é certa, aliado de Lula ele não foi.
Essa gente não trabalha de graça nem brinca em serviço. Seria fantástico ter um micro gravador nessas conversas e saber quais foram os acertos de Lula com os seus adversários-aliados Nogueira, Alcolumbre e Motta. Certamente, não falaram de Brasil, ideologia, princípios, direitos, igualdade social, PIB, ajuste fiscal e ataques de Donald Trump…
Os ajustes regionais pesam, é claro, especialmente para Nogueira e Motta, que são do Nordeste, o bolsão petista do País, mas isso é apenas parte da história. A audácia, a gula e o perigo do Centrão, seus partidos e líderes vão muito além das suas próprias eleições.
A partir daí, voltamos a mensalão, Petrolão e à defunta Lava Jato, que começaram justamente quando Lula, sem base sólida no Congresso, se jogou nos braços de adversários não ideológicos, só pragmáticos, dispostos a tudo, para compensar a fragilidade do PT e da esquerda. Isso tem custo, e alto.
Quem paga é o País, ou seja, você, leitor, leitora. E, em nome da governabilidade, para salvar a própria pele, o mandato e seu nome nas futuras urnas, Lula abriu os cofres e deu a Petrobras, como bolo fatiado, para os neo-aliados, que poderiam, e podem, ir para um lado ou para outro, à custa de uma falsa “neutralidade”.
Salvou o mandato e o apoio no Congresso, mas quase implodiu a Petrobras, a maior, mais rica e mais simbólica empresa estatal de um país chamado Brasil e, em consequência, feriu gravemente sua biografia, a história do PT, a credibilidade da esquerda e ainda amargou 580 dias na prisão.
Foi nessa terra arrasada que floresceu o absurdo: a eleição de Jair Bolsonaro, que, aliás, foi bem mais cirúrgico do que Lula para se livrar das garras do Congresso à custa do erário. Deu o “coração” do governo para Ciro Nogueira, lavou as mãos e liberou geral as emendas parlamentares, sem limite, controle e fiscalização, enquanto desfrutava do jet ski e divulgava Cloroquina para a covid.
Em favor de Lula, diga-se que o sistema não deixa alternativas, ou o presidente cede ao Congresso e dá um jeito de fazer maioria, ou cai. Simples assim. Petistas e aliados batem na tecla de que Lula não roubou para si, nem enriqueceu com o Petrolão; “entrou no jogo da autossobrevivência”.
Em 2027, o novo presidente, seja Lula, Flávio Bolsonaro ou quem quer que seja, vai encontrar um País não apenas polarizado politicamente, mas ameaçado na economia e na frente externa, com uma crise fiscal asfixiante, inimiga de investimentos, políticas públicas e crescimento, e com os avisos de Donald Trump de que pretende intervir no Brasil e na região – algo que ganha contornos reais a cada dia.
A pergunta é: como enfrentar crise interna e ameaça externa, com o Supremo jogando a credibilidade pela janela e… sem maioria no Congresso?
Para conquistar essa maioria, mesmo precariamente, sem garantias, é preciso entregar não só os anéis, mas também os dedos para o Centrão. Só não a Petrobras de novo, por favor, ainda mais com a descoberta de petróleo na Margem Equatorial.