Dois influentes ex-presidentes da Câmara dos Deputados condenados e presos em escândalos distintos, com o mesmo sobrenome, mas em campos ideológicos diametralmente opostos, se preparam para voltar às urnas e ao embate político. De um lado, João Paulo Cunha (PT-SP), pré-candidato a deputado federal; do outro, Eduardo Cunha (Republicanos-MG), postulante à mesma vaga por Minas Gerais.
João Paulo comandou a Casa entre 2003 e 2005. Anos depois, em 2012, foi preso após condenação no processo do mensalão. Cumpriu mais de dois anos de pena e, em 2016, teve o indulto aprovado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), concedido pela então presidente Dilma Rousseff, que também é do PT.
Eduardo Cunha presidiu o Legislativo entre 2015 e 2016. Foi preso no âmbito da Operação Lava-Jato e cassado por quebra de decoro em 2016. Em 2023, teve uma condenação anulada pelo STF, embora a Corte tenha retomado uma ação penal contra ele, recentemente. Eduardo entrou para a história como o algoz de Dilma, sendo o responsável por abrir o processo de impeachment contra ela.
Fora o histórico de prisões, das reviravoltas no STF e de livros escritos quando cumpriam suas penas, João Paulo e Eduardo quase não têm pontos em comum. Em recente almoço promovido pelo grupo Esfera Brasil, em Brasília, eles demonstraram profundas divergências, mas mantiveram um tratamento respeitoso, sem exaltações ou xingamentos.
Os dois não se encontravam há quase três anos. A única real convergência entre eles foi a crítica contundente à “falta de densidade programática” do atual Congresso. Ambos reclamam da ausência de qualificação dos atuais quadros e dizem que muitos parlamentares votam sem o devido aprofundamento das pautas.

A Coluna do Estadão acompanhou toda a conversa. Veja abaixo os principais pontos:
Qualidade do Parlamento
- Eduardo: “É claro que o Parlamento da época do João era melhor até do que o Parlamento que estava comigo, e com certeza absoluta muito melhor que o Parlamento de hoje. A Câmara cumpre seu papel dentro daquilo que hoje tem condições, mas poderia cumprir melhor se a gente tivesse uma qualificação maior dos quadros”
- João Paulo: “Estou trabalhando para desmentir a frase de Ulysses Guimarães de que o próximo Congresso é pior do que esse. Estou trabalhando para ser um pouquinho melhor. Eduardo Cunha é um exímio manejador do regimento interno”
Orçamento e Emendas Impositivas
(As emendas impositivas obrigam o governo federal a repassar os recursos)
- Eduardo: “A votação das emendas impositivas se deu praticamente na minha primeira semana (como presidente da Câmara), e isso foi um divisor de águas. A gente só vai acabar com as emendas se efetivamente a gente introduzir no orçamento um orçamento impositivo como um todo”;
- João Paulo: Ao contrário do que o meu colega Eduardo fala, a emenda parlamentar impositiva é uma degeneração do nosso sistema presidencial. O deputado não disputa a eleição comprometido com asfalto, uma ponte, uma creche, uma quadra. É absolutamente degenerado o nosso sistema, e está cada vez mais”.
Reforma do Judiciário
- Eduardo: “O Judiciário só age quando é provocado, e a própria política é a maior provocadora do Judiciário. Muitos perdem uma votação e vão tentar resolver lá. Se a gente não resolver os nossos problemas de política, a gente não vai resolver o Judiciário”.
- João Paulo: “Tenho a impressão de que vamos ter que fazer uma revisão no nosso sistema de Justiça, não somente o Judiciário. Temos que fazer uma reforma do Judiciário sem pressa, com cautela, pra gente poder adaptar à nossa realidade de 2026. Como o Judiciário virou o centro, as mobilizações que você fazia nas ruas, agora faz por lá“.
O Cenário Eleitoral
- João Paulo: “Sei que o Eduardo não concorda, mas eu estou muito convencido de que o presidente Lula vai ganhar”.
- Eduardo: “Acho que a eleição está absolutamente indefinida e torço para que você (João Paulo) esteja errado”.