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João Mauricio Adeodato

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Colecionar perdas é um fardo que se carrega pela vida afora e que pesa cada vez mais, à medida em que os anos passam. Perder João Maurício Adeodato é uma dessas dores profundas, que refletem a afeição crescente e forte, durante um convívio profícuo e enriquecedor.

João Mauricio Adeodato
João Mauricio Adeodato

Dividi com ele, durante muitos anos, uma disciplina do Programa de Pós-Graduação da Universidade Nove de Julho. Antes disso, já o admirava por sua erudição, pela consistência de sua formação, pela inquietação filosófica a buscar outras trilhas no pensamento clássico. Por sua instigante releitura da obra de Hannah Arendt, pela incansável curiosidade na detecção de rumos factíveis na edificação de um Brasil mais afinado com a ciência jurídica a favor da Democracia.

Mas o convívio com Adeodato me ofereceu também – e principalmente e – a experiência agradável de sua generosidade, da lealdade a toda prova, de um companheirismo permanente e de uma partilha constante de seu imenso arsenal de conhecimento.

A singeleza no trato, a postura humilde, a despeito do acervo intelectual amealhado em pesquisa incessante, a disponibilidade a discutir estratégias que sua expertise poderia impor, em lugar de abrir espaço ao diálogo, tudo isso – e suas qualidades pessoais de simpatia, lhaneza, cordialidade, sagacidade, perspicácia e bom-humor – cativaram quem privou de sua amizade.

A dimensão afetiva do relacionamento pessoal com João Maurício Leitão Adeodato (Belo Horizonte, 12.3.1956 – Recife, 19.5.2026) suplanta a admiração por sua festejada carreira. Como pioneiro no processo de consolidação da Pós-Graduação em sentido estrito nos Cursos Jurídicos do Brasil, era autoridade chamada a operar em inúmeras Universidades.

Atuou decisivamente no CNPq, na CAPES, na Comissão Nacional de Educação Jurídica da OAB, participando de inúmeros grupos e comissões no MEC. Foi o responsável por consistente análise da obra de Hannah Arendt no Brasil, nos anos 1980 e desenvolveu a teoria retórica do direito.

É considerado o primeiro brasileiro a participar do Comitê Executivo do Congresso Mundial da Associação Internacional de Filosofia Jurídica e Social – IVR, na sigla em alemão.

Mineiro de Belo Horizonte, criança ainda sua família se transferiu para Olinda, no Pernambuco. Depois de concluir seus estudos no Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco, graduou-se em direito na tradicional Faculdade de Direito do Recife.

Cursou o Mestrado na USP, a pesquisar “A filosofia do direito de Nicolai Hartmann”, sob orientação do jusfilósofo Miguel Reale. O doutorado, também na velha e sempre nova Academia do Largo de São Francisco, teve início em 1981 e seu orientador foi Tércio Sampaio Ferraz Júnior. Apaixonado pela obra de Hannah Arendt e a partir da publicação de biografia da filósofa, escrita por Celso Lafer, aprofunda-se na investigação e na análise crítica do pensamento arendtiano.

Aos trinta anos obtém o Doutorado e, aprovado em concurso público, torna-se professor assistente da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco, passando à condição de professor adjunto em 1986, ano de elaboração de sua tese, aprovada com distinção. A titularidade na Cátedra foi também obtida por concurso público, acumulando a docência e a pesquisa no CNPq, à qual se dedicou a partir de 1984.

Notabilizou-se por liderar o mais longevo grupo de pesquisa em Direito no Brasil. Desde 1988, protagonizou uma série de estágios pós-doutorais em Universidades Alemãs. Seus primeiros pós-doc ocorreram na Universidade de Mainz, onde conviveu com filósofos retóricos adeptos ao pensamento de Theodor Viehweg. Mas também desenvolveu estudos pós-doutorais na Universidade de Freiburg, de Heidelberg, de Hagen, de Frankfurt e de Kiel.

Dominou áreas transversais de estudo e foi Diretor do Departamento Jurídico da Secretaria da Educação do Estado de Pernambuco no segundo governo Miguel Arraes. Mentor e Coordenador dos Cursos de Direito da Universidade Maurício de Nassau, também foi Coordenador Científico dos Cursos de Pós-graduação da Escola da Magistratura de Pernambuco.

Não se descurou da trajetória acadêmica, tornando-se Livre-Docente em Filosofia do Direito pela Universidade de São Paulo, após aprovação em concurso público, com a tese “Uma teoria da norma jurídica e do direito subjetivo numa filosofia retórica da dogmática jurídica”.

Foi um dos elaboradores do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Nove de Julho, onde lecionou desde o ano de 2018 e regeu a disciplina “Pragmatismo e Desenvolvimento Econômico”, reverenciado e adorado por centenas de pesquisadores que hoje são Mestres e Doutores.

Ainda em maio encantou sua classe com aula que hoje é conservada na memória dos privilegiados alunos que mereceram a dádiva de se deleitarem com sua palavra iluminada e sedutora.

O Brasil fica terrivelmente mais pobre com a sua precoce partida. João Maurício Adeodato: hoje uma página saudosa no nosso arquivo de cálidas afeições.

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22 de maio de 2026
18:33
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