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O que diziam os bilhetes picados achados no esgoto da cadeia e que levaram à operação contra Deolane

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A Polícia chegou à influenciadora Deolane Bezerra dos Santos – presa nesta quinta, 21, sob suspeita de ligação com a cúpula do PCC para lavar uma fortuna da facção – a partir de uma prova inusitada achada em um bueiro há sete anos. Em 23 de julho de 2019, agentes de segurança fizeram uma revista minuciosa na cela 139, pavilhão I, da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, ocupada pelos sentenciados Sharlon Praxedes da Silva (‘Maradona’) e Gilmar Pinheiro Feitoza (‘Cigano’).

As defesas de Deolane e dos demais investigados não foram localizadas para se manifestarem. O espaço está aberto.

A advogada Deolane Bezerra dos Santos: Polícia chegou à acusada por meio de investigação que começou com bilhetes apreendidos e seguindo recursos de empresa transportadora
A advogada Deolane Bezerra dos Santos: Polícia chegou à acusada por meio de investigação que começou com bilhetes apreendidos e seguindo recursos de empresa transportadora

Durante a varredura, os agentes localizaram, na caixa de esgoto da cela, grande quantidade de manuscritos, os quais, após análise técnica, “revelaram elementos de extrema gravidade”, a saber: tratativas sobre tráfico de drogas dentro da unidade prisional, relacionamentos com a cúpula do PCC – especialmente com Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola “Narigudo”, com quem “Cigano” habitava o mesmo pavilhão e mantinha conversas diárias durante o período de sol -, e um plano de atentado contra agentes públicos, incluindo o então ex-diretor da unidade, Luiz Fernando Negrão Bizzoto. Um primeiro inquérito foi aberto pela Polícia.

Um manuscrito descartado por “Cigano” também resgatado na tela do esgoto da cela era particularmente revelador. O autor afirmava ter recebido diretamente de “nosso irmão lá da federal” – referência a Marcola – a incumbência, junto a “Fuminho”, de cuidar dos assuntos particulares do líder.

O texto cobrava pela execução do plano de ataques e descrevia que ‘aquela mulher da transportadora já entregou tudo certinho até o endereço novo do Bizzoto’.

A menção expressa à “mulher de uma transportadora”, no contexto de levantamento de endereços de agentes públicos em Presidente Venceslau, foi o ponto de partida para deflagração de uma nova etapa da investigação, dentro de um segundo inquérito.

A estreita ligação de Gilmar “Cigano” com Alejandro Juvenal Herbas Camacho (“Gordão” ou “Marcolinha”), irmão de Marcola, já havia sido documentada no contexto da Operação Quinta Roda, da Polícia Federal de Araçatuba. Essa operação identificou Gilmar ‘Cigano’ como braço direito de Alejandro em atividades de tráfico internacional de cocaína.

Pesquisas nos arquivos da Junta Comercial do Estado de São Paulo indicaram os “donos” de empresas de transporte estabelecidas em Presidente Venceslau. A busca destacou o nome de Elidiane Saldanha Lopes Lemos, então sócia da Lopes Lemos Transportes Ltda, nome fantasia “Lado a Lado Transportes”, estabelecida nas imediatas proximidades da Penitenciária II de Presidente Venceslau. Para a Polícia, essa circunstância é “reveladora do cinismo da estrutura”.

Ediliane e Ciro: o casal aparecia como 'dono' da transportadora que seria da cúpula da facção: os dois estão foragidos
Ediliane e Ciro: o casal aparecia como ‘dono’ da transportadora que seria da cúpula da facção: os dois estão foragidos

“A empresa de fachada funcionava literalmente lado a lado com o estabelecimento prisional que abrigava sua liderança real”, anota o delegado Osvaldo Nico, secretário de Segurança Pública do Estado.

Foi aberto, então, um terceiro inquérito, agora apontando os movimentos de Deolane e a captação, via suas contas, do tesouro que saía da transportadora do PCC.

A investigação mostrou que, a partir de 2015, Ciro Cesar Lemos e Elidiane Saldanha Lopes Lemos – integrados ao PCC e ‘operadores’ da transportadora -, mediante divisão de tarefas e de forma reiterada, promoveram o branqueamento de capitais por intermédio da empresa, “proporcionando expressiva evolução patrimonial sem causa lícita identificável”.

Bolsa Família

O Relatório Técnico nº 73/2020 do Laboratório de Tecnologia Contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) analisou os sigilos bancário e fiscal referentes ao período de 2015 a 2019 e apurou que Ciro movimentou R$ 2.395.734,28 em contas pessoais; Elidiane movimentou R$ 1.031.501,25 sendo que ela, à época da constituição da empresa com capital de R$ 300 mil (e posterior atualização para R$ 1.805.000), era ainda beneficiária do programa Bolsa Família, recebendo entre R$ 140,00 e R$ 212,00 mensais.

O documento revela que a Lopes Lemos Transportes Ltda. movimentou a cifra de R$ 20,2 milhões com diferença entre despesas bancárias e declarações fiscais da ordem de R$ 6.918.285,28, montante que, na avaliação técnica do LAB-LD, configurava saída de recursos visando a dissimulação de valores ilícitos.

A frota da empresa, que se iniciou com sete caminhões e oito semirreboques, chegou a contar com mais de 50 caminhões de grande porte, sem que seus titulares fossem capazes de justificar a origem dos recursos que financiaram essa expansão, segundo a Polícia.

Em 8 de dezembro de 2021, a Polícia cumpriu mandados de busca e apreensão nas residências de Ciro e de Elidiane e na sede da empresa. Os policiais apreenderam, então, um celular Samsung Galaxy J5 escondido na residência de Ciro.

A sede da transportadora lado a Lado: polícia afirma que Marcola e seu irmão lavavam dinheiro do crime no lugar
A sede da transportadora lado a Lado: polícia afirma que Marcola e seu irmão lavavam dinheiro do crime no lugar

A ocultação deliberada do aparelho sinalizou, com precisão, na avaliação dos investigadores, que seu conteúdo era de interesse vital para a organização criminosa.

O processo principal resultou na condenação criminal de ambos: Ciro Cesar Lemos foi condenado a 14 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão, em regime fechado, por organização criminosa e lavagem de dinheiro; Elidiane Saldanha Lopes Lemos pegou 11 anos e 3 meses de reclusão.

A sentença condenatória reconheceu expressamente que a empresa Lopes Lemos Transportes Ltda foi o instrumento utilizado para a lavagem de capitais obtidos pelo crime organizado. A empresa gerida pela facção movimentou R$ 20,2 milhões.

Evolução atípica

“A investigada Deolane, assim como Everton de Souza (‘Player’), são destinatários diretos de valores advindos da empresa de fachada Lopes Lemos Transporte Ltda, gerida de fato pela facção criminosa PCC”, diz relatório de 292 páginas subscrito pelos delegados Edmar Rogério Dias Caparroz e Ramon Euclides Guarnieri Pedrão, da Delegacia Seccional de Presidente Venceslau, interior de São Paulo. “Além disso, ambos figuram em transações trianguladas.”

A Operação Vérnix aponta que Deolane fez uma transação com Marcos Manoel dos Santos Anjos de mais de R$ 700 mil, “sem qualquer lastro quanto a essa pessoa, um assalariado”. “Mais, referida investigada tem feito uso do nome de seu filho Giliard Vital dos Santos, movimentando valores em seu nome e ocultado bens, como um veículo Porsche, registrado em seu nome.”

A Polícia considera que “o conjunto das informações analisadas permite concluir que houve uma evolução atípica no fluxo financeiro da investigada Deolane e de suas empresas, sem lastro contábil ou operacional proporcional, indicando a possível existência de um modus operandi voltado à ocultação, integração e dissimulação de patrimônio”.

Bilhetes e cartas apreendidos na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau: pista inicial que levou até Deolane Bezerra
Bilhetes e cartas apreendidos na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau: pista inicial que levou até Deolane Bezerra

“Nesse contexto, torna-se inegável que Deolane, pessoa pública e de destaque nas redes sociais, reverbera a imagem de profissional de sucesso e evidente ostentação financeira o que, em tese, justificaria a movimentação de vultosos valores, criando um fértil cenário para a dissimulação da real origem dos recursos movimentados em seu nome”, afirma o relatório.

No período de 9 de julho de 2022 a 9 de maio de 2024, segundo o Relatório Técnico LAB-LD nº 92/2025, complementar ao Relatório Técnico LAB-LD nº 10/2024, “evidenciou a existência de uma verdadeira malha financeira estruturada em torno da figura de Deolane Bezerra Santos, envolvendo pessoas físicas e jurídicas interligadas, com movimentação global superior a R$ 140 milhões em créditos e débitos”.

A Operação Vérnix – força-tarefa da Delegacia-Geral da Polícia Civil com a Procuradoria-Geral de Justiça – identificou, ainda, que na pessoa física, Deolane movimentou mais de R$ 40 milhões, distribuídos em múltiplas contas em diferentes instituições (bancos tradicionais e digitais), com intensa circulação de valores via Pix, transferências internas e resgates de aplicações.

Os investigadores não conseguiram identificar ainda os destinatários de mais de R$ 27 milhões que saíram da conta de Deolane.

Em outro capítulo do relatório, os técnicos da polícia anotam que R$ 8.378.204,04 foram debitados de uma empresa de Deolane ‘sem a identificação dos respectivos beneficiários’.

“A ostentação pública e reiterada de padrão de vida elevado, documentada em redes sociais ao longo de anos – viagens internacionais, veículos de luxo (Lamborghini Huracán, McLaren), aeronaves -, segundo o relatório da Polícia Civil, é frontalmente incompatível com as informações fiscais conhecidas e contribui para a conclusão investigativa de que seu patrimônio é, ao menos em parte, produto ou proveito da lavagem de capitais praticada em benefício da organização”, assinala o juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3.ª Vara do Foro de Presidente Venceslau, ao decretar a prisão da influenciadora.

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