Sidônio Palmeira estava feliz na noite desta quarta-feira, 24, após o Brasil derrotar a Escócia por 3 a 0. A alegria do ministro da Comunicação Social, no entanto, ia muito além do gramado do Hard Rock Stadium, em Miami. Em primeiro lugar, sua estratégia de redução de danos havia funcionado com o anúncio da saída de Jaques Wagner (PT) da liderança do governo no Senado perto da hora do jogo. Mas nem em seus melhores sonhos Sidônio poderia imaginar o vídeo em que Michelle Bolsonaro disse ter levado uma “punhalada” do enteado Flávio.
A ex-primeira-dama deu um presente de valor inestimável para a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição ao escancarar a crise nas fileiras do bolsonarismo. E o PT saberá explorar bem o episódio para obter dividendos políticos.
Ao dizer nas redes sociais que o senador Flávio Bolsonaro a maltratou e a humilhou, Michelle riscou o chão. A leitura no PL é de que ela quer criar a sua bancada e, com o ex-presidente Jair Bolsonaro fora do jogo, assumir o espólio do bolsonarismo.

Sob reserva, interlocutores de Lula afirmam que, para ter feito o que fez, Michelle deve ter informação sobre o resultado de investigações envolvendo Flávio e Daniel Vorcaro, dono do Master. Lembram que ela é próxima do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso Master na Corte. Os dois são evangélicos.
Até agora, Flávio admitiu ter pedido dinheiro a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, que conta a trajetória de Bolsonaro. A Polícia Federal suspeita, porém, que parte dos R$ 61 milhões repassados por Vorcaro tenha ido para uma caixa preta no exterior, inclusive financiando a estadia do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, outro inimigo de Michelle, nos Estados Unidos.
O que interessa a Sidônio e ao PT, agora, é explorar ainda mais o “gabinete do ódio” na família Bolsonaro. O diagnóstico é que Flávio pode perder votos no eleitorado feminino e evangélico, justamente o “calcanhar de Aquiles” do Q.G de Lula.
Na tentativa de estancar a crise, a campanha de Flávio corre contra o tempo para encontrar uma mulher que possa ser vice na chapa do senador ao Palácio do Planalto.
“A verdade é que o figurino de candidato ‘moderno e moderado’ não cabe nele. Não passa de uma tentativa do marketing de criar um personagem que não resiste aos fatos: Flávio é tão machista, tão misógino e desrespeitoso com as mulheres quanto Jair”, disse o secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares. “Tal pai, tal filho”, completou.
O episódio que provocou a lavagem de roupa suja em público nas fileiras do PL ocorreu após Michelle contar bastidores de suas desavenças com Flávio. Pela sua versão, a temperatura do mal-estar subiu depois que ela criticou o apoio do PL a Ciro Gomes, candidato do PSDB ao governo do Ceará.
Em conversas reservadas, amigos de Michelle observam que a ira da ex-primeira-dama contra Flávio aumentou depois que ele começou a desfazer acordos feitos por ela, na condição de presidente do PL Mulher, na maioria dos Estados.
“Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone”, afirmou Michelle no depoimento em vídeo, referindo-se ao episódio do palanque no Ceará. “Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”.
Nesta quinta-feira, 25, após o impacto do terremoto político, Michelle ensaiou um recuo e garantiu que não quer briga. De olho no eleitorado feminino, Flávio afirmou, por sua vez, não ter tido a intenção de magoar a ex-primeira-dama e pediu desculpas. Na prática, ele entendeu bem o recado: na gravação em que usou palavras fortes, Michelle disse, com todas as letras, que falou “quase tudo”.
Enquanto isso, em Fortaleza, Ciro Gomes continuou sua agenda de candidato e minimizou o escândalo. “Isso é uma questão do PL nacional, que envolve coisas muito mais complexas do que a nossa paróquia”, desconversou o tucano. “O eixo do nosso projeto é a emancipação do Ceará, que está sob o domínio das facções criminosas”.
Diante de tanta confusão, a crise envolvendo Jaques Wagner, acusado pela Polícia Federal de receber benefícios para defender projetos do Master no Congresso, foi diluída pela Copa do Mundo. Em tempo: Wagner e Flávio negam ligações promíscuas com Vorcaro. Mas, a essa altura do campeonato, quem se importa com esse tiroteio do roto falando do esfarrapado? Depois do cartão vermelho levantado por Michelle, quem sorriu de orelha a orelha foi mesmo Sidônio.